Até que ponto uma obra literária pode alterar um percurso humano? Não falta quem menorize o tema, mas eu incluo-me entre os que são capazes de acreditar que um livro pode mudar uma vida – ou até as vidas de milhões de pessoas. Acredito que alguém queira voar após ler Vol de Nuit, de Saint-Exupéry. Ou navegar depois de ler Lord Jim, de Conrad. Ou viajar a Ferrara só por ter lido O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani. Ou conhecer Pamplona à boleia de Hemingway – e permanecer em Navarra para sempre.
São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão – dizem – nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da existência. Inácio de Loyola abandonou a carreira das armas ao ler uma biografia de Cristo. Marx, para o bem e para o mal, alterou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também – ao ponto de ter alucinado um certo cabo austríaco que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon marcaram tantos de tal forma que até personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais célebres do que os autores, gerando romagens a Baker Street em Londres e ao Boulevard Richard-Lenoir em Paris. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia…
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto – é sobretudo isto – que faz o fascínio da literatura.

![Leggere-per-curare-lanima[1].jpg Leggere-per-curare-lanima[1].jpg](http://9.fotos.web.sapo.io/i/B8c1314a4/19629019_WuylR.jpeg)
Ler é ser-se um pouco imortal. Podemos viver tantas vidas, podemos ser o motivo do nosso fascínio, perder-nos na sua sabedoria, na sua idiologia, na sua luxúria.
Só um livro tem o poder de rejuvenescer o leitor, e o tornar um menino de rua que com os outros marginalizados de Pedro Bala,furta para viver. Seremos o Professor, o Gato, o amargurado Sem Pernas…
São infinitas as possibilidades que um livro nos abre em cada folha que passa.
Tantas vezes a nossa bucket lista tem tudo a ver com os nossos livros preferidos. Ir lá, ver , tocar, pisar a mesmas pedras, beber na mesma fonte, sentirmo-nos nós finalmente, a soma de todas as nossas leituras fantásticas.
There is no such thing as mágic, dizia o tio do Harry Potter. Era seguramente homem de pouca leitura.
Escrever um comentário como Anónimo é quase tão reles como escrevê-lo num iPad . Peço desculpa por ambos.
O texto, mesmo anónimo, estava “assinado” pelo seu estilo, Dulce.
Gostei muito dessas referências aos ‘Capitães da Areia’, um livro do Jorge Amado que me rasgou horizontes literários – e não só. Tal como ‘Mar Morto’, também dele.
Vem ao encontro de um texto que aqui deixarei muito em breve sobre os nossos heróis literários.
“a filosofia parece ocupar-se só da verdade, mas talvez diga só fantasias, e a literatura parece ocupar-se só de fantasias, mas talvez diga a verdade.”
‘Afirma Pereira’, Antonio Tabucchi, pag. 24, Colecção Mil Folhas, Novembro de 2002.
🙂 Antonieta
Que belíssima frase, Antonieta. ‘Afirma Pereira’ é uma das minhas lacunas literárias que quero colmatar este ano.