O falso problema da fuga de cérebros


Teresa Ribeiro,

“O actual surto de saída de portugueses alivia a taxa de desemprego, promove a situação dos que partem e beneficia os países de destino com excelentes colaboradores” (…) “A sua saída manifesta que, devido à crise, agora não são cá necessários” – é assim, sem papas na língua que o inimitável João César das Neves despacha a questão da fuga de cérebros do país.

Extrapolando para os problemas demográficos que se levantam com a saída de tanta gente que irá constituir família para outro lado e inspirada no extraordinário pragmatismo deste homem que se não fosse economista daria um excelente guru da psicologia positiva, penso que uma solução plausível seria aumentar a idade da reforma para os 80 anos. Dessa forma pouparíamos em pensões e subsídios de maternidade cobrindo ao mesmo tempo o défice da população activa.  

Que tal? O que precisamos é de ser pró-activos e aprender com os bons a ver o copo sempre meio cheio.

44 comentários em “O falso problema da fuga de cérebros”

  1. Parece haver dúvidas sobre se o cérebro das Neves congelou ou emigrou há muito tempo.
    No entanto, essa ladainha ouve-se há décadas, e serviu certamente certas mentes, e lamentos de certos elementos.
    Pior que faltas de mentes, são presenças dementes.

  2. Mais uma para testemunho do camaleonismo da esquerda.
    Num ápice passa de de cosmopolita a tradicionalista, de internacionalista a nacionalista, o país é algo salazarento viva a Europa passa a o país é um valor primordial que se lixe a Europa…
    E claro não assumem os baixos – só os altos – que as suas políticas de endividamento neo-keyenesianas acentuam provocando a emigração que agora condenam como se não tivessem nada que ver com ela…

      1. O camaleonismo não é existirem várias esquerdas é a mesma esquerda mudar de posição por razões utilitárias justificando qualquer das duas por razões morais num curto espaço de tempo.
        A palavra pátria era Fascista há 15 anos. Hoje a Esquerda usa-a como se fosse propriedade dela depois de a ter proscrito.
        Ainda iremos ver a Esquerda a propor o regresso do serviço militar obrigatório ou aparentado, claro que lhe irão chamar serviço social obrigatório.

  3. O professor acertou na mouche quando, a terminar, concluiu que “a migração devia ser exaltada como grande trunfo de desenvolvimento, mesmo dura e denegrida por pseudoespecialistas”.
    A Teresa Ribeiro devia enfiar o carapuço e não reincidir nas suas posições sobre emigração, baseadas exclusivamente em palpites pessoais, para não dizer pior.

    1. Pois, migração – sem os prefixos – que é para não atrapalhar a frase de efeito. Posta a questão assim, em tese, não há como discordar.
      Quanto aos meus palpites: caso não lhe tenha ocorrido, a emigração tem impacto não só na vida dos que partem mas também na dos que ficam. Isto aplica-se a toda a comunidade e muito particularmente aos pais, irmãos e avós dos que saem. Serão estes também pseudoespecialitas sem autoridade para se pronunciar sobre a matéria?

      1. A emigração tem, de facto, impacto na vida dos que cá ficam. Por exemplo, uma prima minha, cujo marido está emigrado em França, alimenta-se, e aos filhos, com o dinheiro que ele lhe envia para cá. A vida dela é muito melhor (em abastança) do que se ele não tivesse emigrado.
        A nível geral, a emigração diminui a competição pelos empregos e faz aumentar o preço da mão-de-obra (ou pelo menos impede que ele decaia tanto), melhorando assim também a vida dos que cá ficam, mesmo daqueles que não são familiares de emigrados.

  4. Sairem de cá carradas de jovens diplomados que vão enriquecer os países para onde emigram, não irão descontar para a “nossa” falida Segurança Social e não fazem, ainda por cima, a mínima tenção de regressar é porreiro, pá.

  5. Eu (neste ponto) concordo com João César das Neves. Se eles emigram é porque cá não são necessários (ou então até o são, mas são mal pagos para aquilo que fazem). A emigração representa um progresso para todos: para o emigrante, para o país de acolhimento, e para o país de partida. Cá, os emigrantes estariam desempregados, frustrados e infelizes, a pressionar os salários para baixo e a custar dinheiro à Segurança Social e às suas famílias.
    Nunca Portugal progrediu tão rapidamente como quando a emigração foi elevada.

    1. Aliás, como se sabe, o progresso está sempre associado a elevadas taxas de emigração. Oh Lavoura, não queira ser mais papista que o Papa. Até o João César das Neves neste texto que eu citei admite a dado passo que a razão que leva estes cérebros a sair “é lamentável”.

  6. Não há problema nenhum de fuga de cérebros.
    Eu trabalho em física, uma profissão onde bons cérebros são necessários. Há muitos portugueses que emigram para trabalhar em física no estrangeiro. Mas isso nãoq uer dizer que em Portugal haja falta de físicos, porque também há muitos estrangeiros que vêem para Portugal trabalhar em física.
    Ou seja: há cérebros que partem, e outros que vêem. Cérebros nunca faltam; se não são cérebros de nacionalidade portuguesa, são cérebros de outra nacionalidade qualquer.
    Para um exemplo mais comezinho, há em Portugal montes de médicos estrangeiros a trabalhar, tal como há montes de médicos portugueses a trabalhar no estrangeiro. Qual é o problema disso? Nenhum, absolutamente nenhum.

      1. O não-regresso não é problema nenhum. Da mesma forma que há portugueses que emigram e não regressam, há estrangeiros que vêem para Portugal e cá se fixam e não regressam aos seus países de origem.

    1. Depende das razões porque saem.
      Como o sistema totalitário de ensino único educa as pessoas para serem empregados aka “trabalhadores” não se pode esperar outra coisa. As pessoas vão atrás do emprego.
      Os empresários estrangeiros agradecem.

      Por cá o igualitarismo, o discurso contra a desigualdade força que todas as empresas sejam micro a que se junta a desconfiança provocada pela inveja social que as força a ser familiares.
      Empresas micro e de base familiares têm mais dificuldade nem que seja pela dimensão a evoluírem.

      1. Claro que sim, Caetano. Essa é precisamente uma das grandes vantagens da emigração: diminui a pressão sobre os poucos empregos cá existentes e permite que os salários se mantenham (ou que não desçam tanto). Se não houvesse emigração, as pessoas aceitariam trabalhar por salários ainda mais baixos.

  7. Concordo com a primeira citação (que me parece uma evidência), mas não posso concordar com a premissa da segunda: não é que eventualmente não sejam necessários, não há é espaço. E grande parte do motivo pelo que não há espaço é que este está blindado e ocupado pela geração que agora está a reformar-se ou pela geração seguinte a essa, a dos primeiros direitos adquiridos “em pleno”.

    Portugal lida mal com o mérito. Um país – e olhando para a função pública a título de exemplo – em que a progressão salarial se faz ou se pode fazer apenas com base na antiguidade tem algo de errado. A antiguidade traduzida em experiência é valiosa, mas aquela que apenas se vê nos “anos de casa”, vale muito menos.

    Mas digo-lhe outra coisa, se me permite: o desafio não é impedir que partam, mas fazer com que voltem. Melhores, mais conhecedores e experientes, e com oportunidades para se fazerem valer. E isso passa por valorizar que arrisca e não quem se acomodou.

    1. “o desafio não é impedir que partam, mas fazer com que voltem. Melhores, mais conhecedores e experientes, e com oportunidades para se fazerem valer. E isso passa por valorizar que arrisca e não quem se acomodou.”

      Clap clap clap

      1. Isabel, o problema do retorno são os filhos nascidos fora de Portugal, que querem lá ficar e constituir família. A geração destes pais que partem agora, dificilmente volta por causa dos filhos e netos.
        No fundo os que partem hoje, acabam por ter o mesmo problema dos que partiram na década de sessenta: a família. E esta, sejam cérebros ou braços, continua a fazer sofrer quem parte.

        1. Sem dúvida, e o César das Neves repisa no texto citado os altos custos pessoais da emigração. Podemos falar estritamente disso, mas escusamos é de ter todos um fanico colectivo com a-fuga-de-cérebros. Devo dizer que sou particularmente pouco sensível ao problema porque estudei numa época em que, na minha área, ninguém que me lembre fazia integralmente o doutoramento em Portugal, tinha de sair para o fazer e depois… uns voltavam outros não, naturalmente. Nem por isso se despovoou o Reino antigo,
          se enfraqueceu e se foi deitando a longe…
          E eu continuo a dizer que as pessoas (leia-se, as pessoas que escrevem nos jornais, nos livros e nos blogues) só acordaram para este problema desde que passaram a emigrar os filhos dos amigos e até os seus próprios filhos. Coisa compreensível, aliás, mas era bom que dela tivessem consciência.

          Agora, se quiserem falar da nossa tendência demográfica catastrófica… Mas isso já é muito complicado e pouco dado a soundbytes.

          1. A que “tendência demográfica catastrófica” se refere, exatamente? Repare que a população portuguesa tem vindo constantemente a subir. Há 50 anos era de 9,5 milhões, hoje é de 10,25 milhões. Portanto, a tendência demográfica não é, certamente, para o decréscimo populacional.

          2. As gerações são substituídas pela imigração. Esses conceitos demográficos (taxa de substituição das gerações, etc) não interessam para nada, porque só servem para um mundo sem migrações, isto é, para um mundo irreal. No mundo real há migrações, as quais impedem que a população decresça.

          3. SE Portugal fosse um país de imigração líquida, o que não é líquido.

          4. É líquido, sim senhora. Os dados do Instituto Nacional de Estatística indicam, sem sombra de dúvida, que a população de Portugal tem crescido constantemente devido ao saldo migratório positivo. Ou seja, embora haja mais mortes do que nascimentos, isso é mais do que compensado pelo facto de haver mais imigrantes do que emigrantes.

            Esta tendência pode, é claro, ter-se recentemente invertido, e eu acredito perfeitamente que assim seja. Acredito que atualmente (em 2013) o saldo migratório seja negativo. Mas isso é algo de muito recente. E pode a qualquer momento alterar-se, isto é, a qualquer momento o saldo migratório pode voltar a ser positivo, como tem sido constantemente ao longo dos últimos muitos anos.

            De qualquer forma, e isso é que interessa, os dados do INE indicam que não há absolutamente qualquer catástrofe demográfica em curso. A população de Portugal tem subido constantemente, sem parar. Quando muito poderá ter descido nos últimos dois anos.

          5. Já agora, permita-me acrescentar que me parece ridículo falar de catástrofe demográfica mal a população portuguesa começa a decrescer, quando esse decréscimo se segue a um período de crescimento contínuo de dezenas de anos. Há 40 anos Portugal tinha cerca de 750 000 habitantes a menos do que tem agora; seria assim tão grave se agora a população portuguesa diminuísse de 750 000 pessoas? Apenas estaria a voltar ao nível de há 40 anos atrás!!!

          6. Como disse atrás, a demografia é complicada e pouco dada a soundbytes; e não é de todo a minha especialidade. Mas que eu saiba, a substituição de gerações não se limita a contabilizar os presentes: igualmente importante é substituir velhos por novos.

        2. Cara Helena,

          “Pegando” no exemplo da IsabelPS quando referiu a obtenção de um doutoramento, existirá sempre necessidade de as pessoas saírem do seu habitual rotineiro e experimentarem (e o termo é este) e se qualificarem por outras paragens. O que existe é uma janela de oportunidade para o seu regresso (sejam 5, 10 ou 15 anos – mais não julgo) que tem sido, se calhar muito por inação, desperdiçada.

          Voltando à parte “académica” (à qual não pertenço, mas pertence a minha mulher), quando se iniciou “a sério” a expansão científica nacional, por via da FCT / JNIC, os critérios de avaliação para os doutoramentos e pós-doutoramento eram manifestamente consistentes: era dada prioridade aos doutoramentos no estrangeiro (quer em termos classificativos das candidaturas, quer em termos das condições remuneratórias oferecidas) e era dada prioridade aos pós-doutoramentos em Portugal (julgo que, numa dada altura, até chegou a ser obrigatório, não sendo permitidos post-doc no estrangeiro). A ideia (correctíssima) era de as pessoas se qualificarem lá fora e depois terem algo a que regressar. Esse algo acabou por falhar findos alguns anos, por via de “excesso” de post-doc e falta de vagas nas instituições superiores para prosseguimento de carreia (sendo que nunca houve um impulso real para a integração dessas pessoas em meio empresarial ou conversão de tecnologia em startups).

          Se alguém parte, pode regressar ou antes de constituir família ou enquanto esta é recente (como referiu a Helena, antes de os filhos enraízarem de facto). Mas só regressam se a sua vida aqui poder ser melhor do que lá (ou, no mínimo, equivalente). E digo-lhe com toda a franqueza, como tenho escrito noutros comentários a estes dois últimos posts da Teresa Ribeiro, por norma não é. Não só não existe incentivo para regressar (as condições laborais, remuneratórias, sociais são muitas vezes inferiores) como chega a existir um desincentivo latente (“mas porque voltaram?”, “não estavas melhor lá?”) ou mesmo hostil (“lá fora pode ser assim, mas aqui sempre se fez de outra maneira e vai-se continuar a fazer” ou “Portugal não é como em …”).

          Nós, como Nação, sempre tivemos o dom de escorraçar quem se destacou, quem tentou ser melhor. A fuga de cérebros (ou das melhores mãos e braços) não é, de facto, de agora. É de sempre.

        3. Permita-me que discorde do que diz, colocando no mesmo plano esta geração de emigrantes com a geração de 60. Esta é uma geração de emigrantes especializados, cujo comportamento social é completamente diverso dessoutra dos anos 60, que não tinham vida própria para lá do trabalho e da família. Acredito que os filhos deles ficarão certamente por lá, mas eles ficarão só se o desejarem, não pela proximidade nem pela dependência emocional dos seus rebentos.

          1. Vitor Augusto
            Julga que será fácil deixar filhos e netos numa terra e decidir vir morrer naquela onde se nasceu?
            A semelhança entre a saída de massa cinzenta de hoje e a de braços em sessenta, é apenas de afectos. É neste campo que ambas as gerações sofrem. A de sessenta mandava dinheiro e voltou. A do sec XXI não manda dinheiro, nem volta. E, se o fizer, é com a dor de quem tem que escolher tornar ao país e deixar filhos e netos a quem esse país pouco diz. Conclusão, há sempre sofrimento, quer se volte ou não.

      2. Mas fazer com que voltem, para quê? Julga que há cá falta de bons cérebros? Não há. Há cá bons cérebros estrangeiros q.b. Não precisamos para nada que os portugueses que emigraram regressem.
        Convençam-se de uma coisa: a nacionalidade das pessoas é irrelevante. Desde que se pague o suficiente, haverá sempre bons cérebros estrangeiros para ocupar os postos de trabalho em Portugal.

        1. Não entendemos com certeza a frase do Carlos Duarte da mesma maneira. Para mim, é óbvio que o desafio é fazer com que este país se torne de novo particularmente atraente para os cérebros de qualquer nacionalidade (se insistirmos no problema dos cérebros). Quando o fluxo principal for de fora para dentro e não o inverso, quer dizer que o desafio foi bem sucedido. (Quando eu digo “de novo”, é o reconhecimento de que a era do Mariano Gago foi particularmente favorável à “academia”.)
          E já agora, não é só uma questão de dinheiro como bem sabe, se não o país já estaria despovoado. Há quem, mesmo ganhando substancialmente menos do que poderia lá fora, tenha objectivamente boas condições de trabalho e projectos que considera muito interessantes. A questão é que essa situação se alastre o mais possível.

  8. O problema é que muitos, se não a maioria, até ficariam cá. E nao fazerem falta é uma grande arrogância, pode lá um país ainda com tanto caminho a fazer dispensar os seus ?

  9. Teresa,

    eu não vejo pela sua perspectiva as citações de César das Neves que faz em seu texto. Todavia sou capaz de discordar do sentido do texto de César das Neves:
    A começar por essa afirmação das “ciências económicas”. O que fica provado, e hoje mais do que nunca, é que esta economia e seus mentores de ciência não têm nada, ainda que o discurso vá nesse sentido. Na realidade, desde o tempo do Império Romano, a economia desenvolveu-se em torno das políticas dos mais fortes. Os surtos migratórios não são, por isto, conceitos que derivam de uma “ciência” económica, mas de uma política concreta com fins bem definidos.
    A única diferença objectiva que existe no contexto actual, face ao citado, é o facto de vermos politiqueiros a armar em economistas científicos.
    Tenha um Bom Ano.

  10. Pela segunda vez:

    Portucale, depois dos descobrimentos sempre foi um país de exportação de carne humana…. Pelos séculos seculoruns :

    Padres, Aventureiros, Guerreiros, Cadastrados, Funcionários da Fazenda Pública, Industriais e Fazendeiros por Procuração

    Leva de povo sujeito aos mais degradantes trabalhos

    Só agora, com a nova vaga de “Cérebros” é que os cérebros deram por ela!

    1. Talvez, am, porque esta nova geração de cérebros, ao contrário das anteriores – que eram escassas minorias – tem expressão numérica e formou-se numa fase da vida do país, também ela única, em que se criaram expectativas quanto às potencialidades do país.

  11. Terceira vez:
    Jovens Emigrantes
    O mal para eles e não deles, foi acreditarem que havia emprego para continuas fornadas de doutores, num país onde mais 70% do emprego provem de pequenas e médias empresas!
    Gastaram-se ( gasta-se)milhões em centenas de cursos ( serão milhares?) que se sabia ( sabe) não terem cabimento em Portugal.
    Foram, pura e simplesmente aldrabados!
    Infelizmente, estão a sofrer as consequências.

    Culpados? Todos nós… e futuramente seremos duramente castigados, se não acabarmos com este criminoso e descarado roubo.

    1. Permita-me discordar do “todos nós”. Há responsáveis por essa desbunda de cursos que rebentou com o mercado de trabalho. Como há responsáveis pelos negócios ruinosos do Estado, pelo despesismo da administração pública e outras práticas que nos conduziram até aqui. Disseminar culpas por todos serve a quem devia responder por estes e outros abusos.

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