O estilo Álvaro


Sérgio de Almeida Correia,

Estou há mais de duas horas a ouvir o ministro Álvaro Santos Pereira na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas. É inacreditável como é que um tipo está mais de duas horas a debitar falando apenas do passado, dos modelos (errados) de desenvolvimento, das estratégias que não deram resultados e dos erros cometidos. Tudo foi ruinoso, na sua perspectiva, e o único elogio que se lhe ouviu foi ao modelo de desenvolvimento dos anos 50 e 60. Mas isso ainda seria o menos, não fosse dar-se o caso do “ministro Álvaro” ter sido absolutamente incapaz de dar uma resposta objectiva, de concretizar uma medida que fosse – com excepção de garantir novo aumento de transportes para Janeiro -, limitando-se a divagar e a explanar raciocínios teóricos inconsequentes. Que os outros erraram já todos nós sabemos. Não é preciso que ele o venha dizer. O povo não sabe onde fica Vancouver, mas isso ainda percebe. Por isso é que agora está lá ele.

Quanto ao mais, ao que importa do ponto de vista da reforma do Estado ou da redução da despesa (apontar o dedo à, criticável, ostentação dos antecessores não chega), limita-se a dizer que estão a estudar ou que vão estudar.

Bem sei que o Governo tomou posse há pouco mais de um mês, mas de quem escreveu e publicou lençóis antes de ir para o Governo, era suposto que tivesse alguma ideia mais concreta. De teoria está o País cheio. Alguém devia dizer ao senhor ministro que na Universidade é que ele é pago para estudar e investigar. Enquanto ministro são-lhe pedidas soluções e decisões. O ministro Álvaro neste momento é pago para decidir, não para continuar a atacar o passado sem concretizar soluções para o futuro.

Regista-se, igualmente, a falta de humildade, o tom professoral utilizado de cada vez que se dirigia aos membros da Comissão, a forma como fugiu às respostas e manipulou o discurso com a conivência do presidente da Comissão. Ao contrário do que disse o deputado Campos Ferreira, a democracia não é a liberdade de cada um fazer as perguntas que entende e de cada um dar as respostas que quer. É o ministro que responde perante o Parlamento e não este que deve responder às dúvidas ou “bocas” do ministro. Se fosse para falar sozinho ou para só responder aos seus fiéis, não valia a pena o ministro ir à Comissão. Podia ficar no ministério. Ou em casa. Ou não ter saído da Universidade, já que aí tem certamente toda a liberdade para fazer o que muito bem entende ou só responder ao que lhe apetece e convém.

10 comentários em “O estilo Álvaro”

  1. Gosto muito de ler os posts do Sérgio. Confesso que ainda não tive tampo para ver o que escrevia o Sérgio antes das eleições. Tudo por uma questão de estilo, claro está.

  2. Sérgio, também comecei a ouvi-lo mas não tenho a tua resistência: cansei-me em menos de meia hora. Limito-me a esperar (e a acreditar) que o ministro seja melhor com números do que com palavras. É nisso que ele faz falta. Acho que ele teve razão na maioria das coisas que disse, mas precisamos de mais do que críticas ao passado. Só não estou de acordo contigo no que toca à conivência do presidente da Comissão, que ainda ouvi repreender o ministro por estar a tentar conduzir a sessão em vez dele.

    1. É verdade o que dizes quanto à repreensão. Só que aí, Ana, o ministro já estava a ultrapassar o presidente da Comissão. Eram os “calos” deste que se queixavam. No resto, no que toca à oposição, condescendeu, e condescendeu em demasia. Daí o meu reparo.

      P.S. Esperança é desde o início o meu sentimento, mas creio que já havia pesporrência em excesso na nossa vida política. Não era preciso importá-la do Canadá.

  3. Também estive mais de 2 horas a ouvir e senti-me um pouco como o Sérgio… No entanto, falta referir um pormenor: a praticamente tudo o ministro respondeu que muito em breve tomaremos conhecimento das medidas em concreto e das políticas a adoptar… Não me escandaliza até porque estes só lá estão há escassas semanas… Assim sendo, pergunto eu, quem é que se lembrou de marcar esta comissão parlamentar? Nisso dou razão ao ministro quando diz que daqui a uns tempos estarão todos a perguntar pela fiscalização da medida e não pela medida em si… e já agora, por uma questão de decoro, o PS não tem ninguem menos histérico e menos comprometido com o passado que o Paulo Campos para mandar para ali?

  4. Sérgio, gabo-lhe a paciência. Mas também lhe digo que é com sandálias e pés bem assentes na terra que se caminha.

    Para conhecermos temos de ter memória.
    O Ministro Santos Pereira apelou ao estudo. E apelou bem. E apelou à memória.

    O reino do amiguismo carreirista nos partidos, iniciando-se nas distritais ou nas câmaras, a impunidade e inércia do Ministério Público deste país, o laxismo das Finanças (basta olhar às prescrições da tributação), a ignorância da classe politica em áreas como a Justiça, Educação ou a Agricultura, a visão no imediato, a importância da “passerelle” (os media) levaram à ruína desta horta que nunca se enxerga por que não vê dois palmos que sejam.

    Aprendi muito deste país com leituras estrangeiras.
    Mente-se em Portugal. Mente-se desenfreadamente.
    Tudo atabalhoado, tudo de improviso, e…elogia-se, como se a desordem ou a falta de rigor fossem causa do profundo desenvolvimento deste País.

    Deixai…o homem trabalhar, pois já estudou.

  5. O meu comentário é uma concordância. Este Ministro é uma anedota.
    Ainda na audição par-lamentar perguntaram porque razão a secretária dele ganhava o dobra das secretárias de outros ministros. Resposta do àlvaro : – ” Porque a minha secretária de estado é uma supersecretária …, risos”. “Porque a senhora veio para o governo a perder 60 000 Euros em relação à atividade anterior”.
    Fico por aqui.

  6. Não tive oportunidade de ver tudo, mas o que vi foi esclarecedor.
    Qualquer dia havemos de ver as medidas que ele diz que já está a preparar, para agora ficamos com os 4.800 mil euros a distribuir pelas 700.000 famílias lá para meados do ano que vem para as ajudar a pagar a electricidade e o gás (dá para aí 1 euro a cada família por mês), mas o que conta não é a ajuda em si mas a sua vontade de ajudar, não é?!

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