O estatuto de Durão Barroso.


Luís Menezes Leitão,

Leio aqui que Durão Barroso diz que está a ser “discriminado“, ele e o Goldman Sachs, por a Comissão Europeia o ter passado a considerar um simples “lobista“, em lugar de lhe manter a passadeira vermelha de ex-Presidente da Comissão Europeia. Parece que no PSD há muita gente que concorda com ele, mas o prémio para a defesa mais criativa vai para Paulo Rangel, que considera isto uma conspiração para prejudicar a candidatura de Guterres à ONU. Cuidado, portugueses, que os bandidos da Comissão Europeia actual (a anterior era impecável!) querem prejudicar um dos nossos concidadãos, ao dar o estatuto de lobista a outro.

 

Ora, aqui está um combate político que vale a pena ser travado. É preciso lutar arduamente contra a infame discriminação a que estão sujeitos os grandes bancos de investimento e os seus contratados. Temos que exigir que o presidente não executivo do Goldman Sachs não seja discriminado e possa manter o estatuto de ex-presidente da Comissão Europeia. E não interessa nada que a sua ida para o Goldman Sachs tenha sido um choque para os funcionários europeus. Esses funcionários têm que perceber que não podem prejudicar as expectativas de carreira dos ex-presidentes da Comissão Europeia. Afinal de contas, e como disse Marcelo Rebelo de Sousa, ir para o Goldman Sachs é atingir “o topo da vida empresarial“, sendo uma maravilha ver “portugueses reconhecidos em lugares cimeiros“.

 

Faço uma avaliação muito negativa dos mandatos de Durão Barroso à frente da Comissão Europeia, um tempo em que esta se apagou completamente, deixando a Europa nas mãos do eixo franco-alemão. Mas, apesar disso, dez anos como Presidente da Comissão constituem um marco histórico, de que ele se deveria pessoalmente orgulhar. Depois disso, ou ocupava um cargo político de topo, nacional ou internacional, ou dedicava-se a escrever livros relatando a sua experiência, a dar aulas e a fazer conferências pelo mundo. Durão Barroso deitou tudo isso fora ao ir para o Goldman Sachs. Só se pode por isso queixar de si próprio, não podendo pretender que a Comissão Europeia lhe reconheça um estatuto que ele mesmo não quis para si, achando mais importante um lugar na Goldman Sachs. E aos que apoiam esta decisão de Durão Barroso, pergunto apenas se alguma vez viram um ex-Presidente dos Estados Unidos a aceitar um cargo semelhante.

0 comentários em “O estatuto de Durão Barroso.”

  1. Concordo, até na parte irónica, com o que escreve.

    Quanto à candidatura de Guterres, Putin já veio dizer, colocando-se ao lado de Guterres, que não aceita alterações de última hora.

    Continuamos a viver num país onde se constroem histórias políticas de fadas e bruxas que adormecem o progresso do mesmo.

  2. Se Durão Barrosa não merece a porca passadeira vermelha , Junker nem uma cadeira de verga merece, ele foi um dos arquitetos da monstruosa vigarice dos impostos das multinacionais na sua impoluta Austria!

  3. Todos os ex-presidentes americanos têm direito a pensão (equiparada ao mais elevado ordenado da função pública), seguro de saúde, staff, pessoal de segurança, etc.

    E os ex-presidentes da comissão? São comparáveis ou só quando dá jeito?

    1. Durão Barroso tem direito a uma reforma de 18.000 euros por mês:
      http://www.dn.pt/dinheiro/interior/durao-barroso-o-lobista-com-reforma-vitalicia-de-18-mil-euros-por-mes-5386431.html

      E quanto é que acha que um ex~Presidente da Comissão cobraria por qualquer conferência em todo o mundo? Seguramente que seria dinheiro que lhe permitiria viver muito descansado.

      Pode ser que o Goldman Sachs lhe pague muito mais, mas seguramente que os danos que isto lhe está a causar em termos de imagem e reputação não valem essa diferença.

      1. Durão Barroso, quando fizer 65 anos (e apenas quando fizer 65 anos) vai receber uma pensão. Como todos os outros funcionários da comissão, aliás.

        Chocante, verdadeiramente chocante.

        A seguir vai dizer-me que enquanto durou o seu período de impedimento (6 meses) recebeu um complemento salarial.

  4. É só mais uma triste saída. Até já parece que estamos perante uma vocação natural para ficar mal visto. Já o havia revelado antes, quando abandonou o “país de tanga”.

  5. Durão Barroso só se pode queixar dele mesmo.
    Não pelas pieguices de dever ser mais um treteiro de memórias, mas porque não tomou a iniciativa de antecipar uma definição do seu estatuto perante Bruxelas.
    A burocracia é implacável no seu tecer de formalismos e privilégios e nas invejas que neles se fundam, e se não aprendeu isso no vértice burocrático da Europa, aprendeu pouco.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *