O Estado Social da Capa Rica não é para velhos


Rui Rocha,

Algures na Caparica, em pleno Estado Social à beira do FMI plantado, existia um lar de idosos. A proprietária do lar já tinha trilhado o caminho do empreendedorismo no terreno do acompanhamento geriátrico. Essa primeira experiência terminou após a intervenção da segurança social. Resolveu, todavia, insistir. A segurança social, com a diligência que se lhe conhece, ordenou novamente o encerramento. Encerramento voluntário, esclareça-se, que nesta coisa da geriatria importa, antes de mais, não ferir as susceptibilidades dos proprietários reincidentes de lares ilegais.

A coisa é, então, assim: a segurança social constata a ilegalidade e a falta de condições. Mas, o se e o quando do encerramento ficam na disponibilidade do infractor. Pois, pois. Cá para nós que ninguém nos ouve, do ponto de vista da diligente segurança social, quanto mais tarde melhor. Seria um aborrecimento ter que encontrar novo destino para os velhotes, não é? E também não dava jeito nenhum que o lar encerrasse e os velhinhos ficassem no meio da rua a tomar os vasodilatadores e a pedirem as arrastadeiras, certo? Já que ninguém nos ouve, o que dava mesmo jeito é que os velhotes fossem morrendo, não era? De forma espaçada, um de cada vez. Assim, a segurança social, as famílias e os proprietários reincidentes de lares de idosos ilegais podiam continuar descansados nas suas vidinhas…  Cumpriu-se, portanto, o desígnio colectivo de todas as partes envolvidas. Com uma notável ironia: por coincidência (se for o caso), morreram quatro ao mesmo tempo. Ou muito me engano, ou aqueles  ossos minados pela osteoporose e suportados por músculos laços decidiram dar-nos um monumental murro no estômago. Com a calma própria da infinita sabedoria, e perante o irresponsável de serviço da segurança social que, sem se despentear, acompanhou a situação, a proprietária reincidente de lares de idosos ilegais afirmou o óbvio: ‘estas pessoas vieram para aqui para morrer’. E nós, dizemos o quê?

4 comentários em “O Estado Social da Capa Rica não é para velhos”

  1. Caro Rui, parte da minha vida profissional, “obriga-me” a conhecer aquilo que vulgarmente apelidam de lares, e a que eu chamo de depósitos de lixo humano. E como é o negócio do século, o lixo, quer seja humano ou outro qualquer, vidé Manuel Godinho, o Estado demite-se das suas funções fiscalizadoras. Garanto-lhe que existem muitos, mas mesmo muitos lares com o dito papel, o alvará, que estão em condições muito piores, para mim inconcebíveis, que este dito lar agora compulsivamente encerrado. Muito gostaria eu saber das condições do novo lar onde foram colocados estes idosos.

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