O essencial e o acessório


Pedro Correia,

 

A Ana Matos Pires entendeu-me mal: eu não defendo que só os jornalistas devem debater as questões deontológicas ligadas ao exercício da profissão. Creio, aliás, que nunca o jornalismo foi tão debatido e escrutinado na praça pública: nada tenho a objectar a este facto, antes pelo contrário. Sucedesse o mesmo com os médicos – um exemplo a que ela alude de passagem – e provavelmente todos teríamos a ganhar com isso.

O que eu escrevi, e reitero, é que este debate surge recorrentemente sempre que o actual primeiro-ministro é alvo de uma investigação jornalística. Já não tenho idade para ser ingénuo e percebo bem onde muitos querem chegar com a invocação dos princípios deontológicos do jornalismo nestas ocasiões cirurgicamente escolhidas para o efeito. A intenção é óbvia: condicionar os jornalistas, as respectivas chefias e – em última análise – as próprias entidades patronais.

Esquecem estes arautos da deontologia jornalística que o jornalista não tem só deveres: tem também direitos. O mais elementar desses direitos – que é um direito-dever, de carácter imperativo, aos quais todos os restantes se subordinam – é o direito de informar. Relacionado com este, há o direito dos cidadãos a serem informados. Subentende-se, obviamente, que me refiro ao dever de informar com rigor e ao direito a tomar conhecimento de factos verdadeiros.

Só a título de exemplo: suponha a Ana que um seu colega de blogue, indignado com a conduta dos procuradores titulares da investigação do caso Freeport e sem estar ao corrente de todos os factos, defendia a abertura imediata de um processo disciplinar aos referidos magistrados com vista ao despedimento de ambos com justa causa. Suponha que a indignação dele iria ao ponto de lhes negar a presunção da inocência. Suponha que estas indignadas linhas eram escritas antes de se saber que esses magistrados pretenderam questionar mesmo o primeiro-ministro, não lhes tendo sido dada oportunidade para tal, e que o facto de as perguntas sem resposta figurarem no despacho que assinam resultar afinal de uma negociação com a directora do Departamento de Investigação e Acção Penal, uma superiora hierárquica.

Moral da história: os equívocos manter-se-iam e os textos de indignação sem fundamento suceder-se-iam se não houvesse jornalistas a cumprir o direito-dever de informar. Tal como o caso Watergate nos ensinou, conhecer a identidade do ‘Garganta Funda’ e saber a que horas de que dias Bob Woodward falou com ele eram questões interessantíssimas – mas secundárias. O dever essencial de Woodward e do seu colega Carl Bernstein era informar. Foi isso que fizeram. E fizeram bem.

18 comentários em “O essencial e o acessório”

  1. Quanto à presunção de inocência…ela também beneficia o primeiro-ministro ou não? Mais…o princípio nem se coloca…pois nao foi constituído arguido!

    Assim, concordará que os seus comentários revelam a animosidade própria de quem apoia este ou aquele e nao outro…

    Concordo consgo. Informar, algo muito raro…pois todos querem julgar. Imaginem se vocês fossem …os procuradores!

    1. Mas que raio de ideia é a sua? Claro que a presunção de inocência – um direito protegido pela Constituição da República – abrange qualquer cidadão, sem exceptuar o primeiro-ministro. Alguma vez me viu escrever o contrário?

  2. Pedro,

    A minha ‘indignação’, como lhe chama, mantém-se. Já fiz uma adenda ao post. O que o Pedro não percebe é que, independentemente dos factos, o simples facto daquele despacho (criminoso, inaceitável – chame-lhe o que quiser) ter existido, nos termos que todos conhecemos, é razão suficiente para exigir que os responsáveis por esse documento sejam alvo de um processo disciplinar. Aquele despacho é inadmissível, instrumentaliza o bom nome do primeiro-ministro e de silva pereira e constitui uma perversão do estado de direito.

    Cumprimentos

    1. João,

      O processo Freeport, até ao momento, tem-se caracterizado por ser uma contínua cascata de surpresas. A sua adenda é compreensível e justificável, atendendo ao que entretanto se tornou conhecido. Ou seja, aquilo que há poucos dias pensávamos ser ‘a’ verdade sobre este caso era apenas ‘uma’ verdade – parcial e incompleta.
      Tenho de dar razão a José Sócrates: o mundo muda muito numa semana. Até por isso é prudente acautelarmos todos os juízos definitivos sobre esta matéria. Por mim, de forma alguma subscreveria os adjectivos que aqui deixa relativamente ao despacho que tanta tinta tem feito correr. Mas também é verdade que não gozo de imunidade parlamentar.
      Uma coisa é certa: se não fossem os órgãos de informação – alguns órgãos de informação, pelo menos – continuaríamos ainda mais às escuras do que estamos.

      Cumprimentos

    2. João Galamba devia explicar o que significa o bom nome de alguém ser «instrumentalizado». Será ficar com o nome feito num trombone, numa harpa, numa gaita-de-foles? E que bom nome seria esse que, musicado por despacho, nem merece figurar no comentário?

      Já o nome (bom nome, supõe-se) de Silva Pereira merecia iniciais maiúsculas. Vindo de quem vem, era o mínimo que se esperava…

      1. Caro João Carvalho,

        Independentemente daquilo que se venha a apurar, o despacho é sempre inaceitável. Na melhor das hipóteses, isto é admitindo que os procuradores foram mesmo impedidos de ouvir Sócrates e Silva Pereira, o despacho utiliza (instrumentaliza) esses nomes como meios para manifestar um descontentamento face ao rumo da investigação. Mesmo admitindo que tudo o que os procuradores dizem é verdade, tal não tornaria o despacho menos grave, porque a justiça não pode produzir um documento que tem como consequência o perpetuar de uma condição de suspeito.

        1. Meu caro

          Por isso é que foi aberto um inquérito interno. Ou não?

          (Sugiro-lhe que não use instrumentalizar como utilizar, menos ainda em relação a um nome próprio. Qualquer dia ainda se arrisca a falar e a escrever como a maioria dos seus camaradas, que deitam mão a todas as palavras que se apresentem com mais sílabas e aos mais disparatados neologismos para dizer as coisas mais simples deste mundo, da forma mais simples que o mundo sempre disse.)

  3. Quem acredita na honestidade de José Socrates tem que ficar satisfeito quando sabe que novas investigações jornalísticas serão feitas no caso Freeport. Delas só poderá resultar a confirmação da inocência do primeiro-ministro.

    1. INVESTIGAÇÕES JORNALISTICAS…hum…cheira-me a coisa sem regras, sem lei nem roque…coisas da dedução mais binária, da inferência mais redonda…os outros nao sabem faze-las, nao sao jornalistas…viva os condenados pelo jornalismo do “inbestigar”.
      POR FAVOR…tino e contenção. Menos juizos.Aja ainda pudor…por quem governa, por quem estuda, medita, analisa…no silencio.
      Se nao estao contentes constituam-se assistentes e requeram novas diligencias…Arre.

  4. o joão galamba tem razão neste ponto; aquilo não se faz. os procuradores, se aceitaram a inclusão das perguntas como contrapartida de não ouviram o pm, estiveram mal. a cândida, essa, esteve péssima.
    os primeiros, se era o caso, deviam ter-se demitido por não terem condições para conduzir a investigação. se não o fizeram, não podem depois vir invocar falta de tempo.
    ninguém sai bem no retrato.
    Quanto ao procurador-geral, fez figura de parvo. O que não é bem o mesmo do que fazer de rainha de inglaterra mas enfim…

    1. Nesta matéria, segundo creio, estamos todos de acordo. Mas não nos centremos apenas no teor do despacho. É fundamental esclarecer por que motivo o suposto interrogatório ao primeiro-ministro foi bloqueado e alvo de uma insólita “negociação” sem precedentes. É necessário clarificar, de uma vez por todas, se alguns titulares do poder político usufrem de um tratamento de excepção em matéria de acção penal, com a conivência das altas hierarquias do Ministério Público. Este é um debate que a investigação do Freeport tornou premente.

  5. É necessário clarificar, de uma vez por todas, se alguns titulares do poder político usufrem de um tratamento de excepção em matéria de acção penal

    … pedro, lamento dizer-te isto, mas não me parece que se vá clarificar nada (olha o caso da queda do avião com o sá carneiro…)

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