Primeiras linhas d’ A Centelha da Vida, de Erich Maria Remarque (Der Funke Leben, 1951), na tradução de José Saramago para a Europa-América – edição portuguesa de 1955. E logo me assalta, com absoluta evidência, uma convicção que tenho há muito enraizada: as frases iniciais são decisivas para prender a atenção do leitor (para o “agarrar pelos colarinhos”, como gosto de dizer).
Cá vão elas:
«O esqueleto 59 ergueu lentamente a cabeça e abriu os olhos. Não poderia dizer se desmaiara ou se, simplesmente, adormecera. De resto, a diferença entre os dois estados não era grande: a fome e o esgotamento há muito tempo já que haviam apagado as fronteiras entre eles. Era o mesmo deslizar em profundidades lamacentas donde lhe parecia não poder arrancar-se nunca mais.»
Eis um parágrafo de abertura digno de captar o interesse de qualquer leitor. Claro que deixei de ter dúvidas a partir desse momento: pus de parte os quatro outros livros que admitia começar a ler e concentrei-me neste. Remarque e Saramago: dois destinos que se cruzaram nesta obra. O alemão que sonhou com o Nobel e nunca o recebeu por ser considerado demasiado “comercial” (só A Oeste Nada de Novo, lançado em Janeiro de 1929, vendeu mais de um milhão de exemplares no decurso desse ano) e o português que venceria o cobiçado prémio em 1998, mais de quatro décadas depois de ter feito esta tradução – e apesar de ser já então um autor de grande sucesso em Portugal, Espanha, Brasil e vários outros países, numa demonstração óbvia de que vender bem não é sinónimo de falta de qualidade literária. Como tantos exemplos demonstram, de Júlio Verne, Victor Hugo e Mark Twain a Umberto Eco, Milan Kundera e Vargas Llosa.


As frases iniciais são mais decisivas do que nunca, num mundo que gira cada vez mais rápido. E, como vemos, não precisa de ser um livro escrito nos dias de hoje.
Já agora, algo que me interessa: Saramago traduziu o texto diretamente do alemão? Ele sabia alemão?
P.S. Pedro, desculpe as “modernices”, ainda pensei em utilizar as palavras antigas, mas não seria honesta comigo mesma, já que resolvi adotar o “burrográfico”…
O Saramago – que nunca ‘adotou’ o chamado acordo ortográfico – traduziu este romance a partir da versão francesa, Cristina. O livro foi originalmente lançado não só em alemão mas também na versão americana, tendo a edição francesa surgido pouco depois.
Gosto de Erich Maria Remarque e o seu post aguçou o meu apetite para “A centelha da vida”. Curiosamente, estou a ler, do mesmo autor, ” Arco do triunfo” e, li há muitos anos “O céu não tem favoritos”, um romance excepcional que nos faz pensar quanto é injusto e dramático morrer-se jovem.
É um autor hoje algo esquecido mas que no seu tempo como escritor – entre as décadas de 20 e 70 – gozou de fama mundial. Até por ter sido alvo do ódio nazi: queimaram-lhe os livros, executaram a irmã (só porque não conseguiram matá-lo a ele, entretanto refugiado nos EUA). Romances como ‘A Oeste Nada de Novo’ e ‘Tempo para Amar e Tempo para Morrer’, além dos que menciona, são obras-primas.
Têm Ana e o Pedro toda a razão de relembrar um dos meus escritores preferidos.
Meu também, Helena. E este romance – que nunca tinha lido – é excelente.
Uma noite em Lisboa…
Recuei 30 anos (para ser modesta).
Também gostei muito desse romance (o último que Remarque viu publicado em vida).
Foi exactamente a edição que refere que eu li devia ter 13 ou 14 anos, e lembro-me como este livro me marcou; durante anos de quando em quando lembrava-me dele. Nunca mais o voltei a ler, mas o Pedro aguçou-me o apetite.
Quanto a quem recebe ou não recebe o Nobel da Literatura, são as ironias da vida.
É um romance excepcional – e uma belíssima edição da Europa-América numa altura em que, apesar da censura, esta chancela editorial conseguia divulgar quase em exclusivo alguns dos melhores autores daquela época.
Li há muito e, estranhamente, no meio de tanto horror descrito, a ideia que mais profunda marca deixou foi aquela de os presos não conseguirem sair do campo após a libertação.
É um romance que contém várias cenas impressionantes. Essa, por exemplo.
Este ainda é do tempo em que se fazia capas. Mais uma profissão com que o dumbdown marketing acabou.
Tem razão. Ando com vontade de lançar uma série aqui no DELITO sobre capas de livros. Talvez avance no Verão.