O doutor é o electricista que eu chamo a casa para pequenas reparações. É muito apessoado, o doutor, daí que lhe tenha posto esta alcunha. Sempre que lhe telefono faz-se rogado. Lembra-me que só aceita o serviço por ser para mim, porque a vida dele não é fazer biscates. Não precisa. O doutor ganha mais que muitos doutores, pois tem um bom emprego: trabalha como electricista no metro.
Uma vez disse-me quanto ganhava lá um estagiário de electricista, consciente de que me levaria a imaginar até que ponto ele, um profissional com anos de casa, estaria bem na vida. Realmente fiquei pasma, porque se tratava de um ordenado acima do que se pagava a muitos jornalistas séniores.
Certo dia, a propósito de uma greve do metro, perguntei-lhe porque passavam o tempo a transtornar a vida às pessoas, se eram tão bem pagos. Nunca me esqueci da resposta. Disse-me, com um risinho, que por ele, não via necessidade, mas se não alinhasse seria alvo das retaliações dos colegas que orquestravam a coisa. Que retaliações? Perguntei-lhe. Respondeu-me que, por exemplo, quem se baldava nunca era escalado para as horas extraordinárias que, segundo ele, era sempre preciso fazer depois das paralisações.
Desde então, sempre que o metro fazia greve lembrava-me daquela conversa e especulava sobre o impacto que teria na opinião pública a divulgação das tabelas salariais e benefícios dos seus funcionários. Ignoro se ele terá exagerado, mas se fizer as contas às greves por aumento de salários e outras regalias que aquela gente fez ao longo dos anos, não é difícil fazer o cálculo: a sua média salarial está muito acima da média salarial do país.
O facto de a greve ser um direito indiscutível dos trabalhadores não significa que todas as greves sejam justas. Se o doutor não exagerou, quer dizer que os utentes andaram anos a ser castigados por uma casta de privilegiados que recorria à greve de forma abusiva, por saber que o seu impacto público era enorme e a empresa onde trabalhavam, por mais deficitária que fosse, não fecharia as portas.
Ontem cruzei-me com o doutor na rua, mas ele estava tão ensimesmado que nem me viu.


Esse doutor electricista do metro e todos os demais camaradas doutores dos deficitaríssimos transportes públicos, sejam eles aéreos, marítimos , terrestres ou fluviais pertencentes aos sindicatos comunas, que, entre ordenado, horas extraordinárias e privilégios, ganham mais que a maior parte de ‘doutores’ a sério, agora, com a troika, por um lado, e a determinação deste ministro da Economia, que quer fundir os transportes públicos e alijá-los de uma catrefada de gajos da inter que andam por lá a mais e a encher-se, sem praticamente fazerem a ponta d’um corno, por outro, esses doutores, dizia, têm razão para andar de trombas… É que começam a ver a rica vidinha a principiar a andar para trás…
Na situação de falência financeira e económica em que os xuxas dos senhores Guterres e, sobretudo, Sócrates deixaram o país, é preciso, é mesmo urgente, que este governo diga ao país qual é o vencimento bruto desta gente dos transportes públicos. É que o povo que trabalha no duro e produz riqueza (e não faz greves), não tem a menor ideia de que estes gabirús levam para casa todos os meses muito mais de mil euros (fora os privilégios, como transportes à borla para toda a família, etc.), bastante mais que um polícia que arrisca o coiro, um enfermeiro, muitos professores, mesmo até que ‘doutores’ verdadeiros, desses de Medicina que passaram na Faculdade um terço das suas vidas.
O povo não pode ser mantido na ignorância desta e de tantas outras situações, de desigualdade e injustiça, verdadeiramente aberrantes.
Há que começar a denunciar as mentiras e as falcatruas deste maralhal comuna. Conheço-os de ginjeira .
– 80 euros pelo conserto de um cano, que o senhor executou em menos de meia hora? Olhe, nem eu eu ganho isso!
– O senhor desculpe, mas qual é a sua profissão?
– Professor universitário
– Também eu era, amigo. Também eu era.
O trabalho intelectual neste país é, em comparação com o trabalho braçal, incomparavelmente mais mal pago. A maior parte dos licenciados não ganham tanto por hora como uma mulher-a-dias. Mas isso, Laura, é outra discussão.