O PSD movimentou-se recentemente para ensaiar aquilo em que é perito: destronar um “líder” para entronizar outro, quase sempre em ruptura com o anterior – ambos unidos por uma sigla, mas separados em tudo o resto. Desta vez não resultou, por escassa margem num estreitíssimo universo de votantes, mas ninguém duvida que as tensões internas, mal cicatrizadas, irão manter-se à tona.
No último quarto de século, os sociais-democratas tiveram dez “líderes”: Aníbal Cavaco Silva, Fernando Nogueira, Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso, Pedro Santana Lopes, Marques Mendes, Luís Filipe Menezes, Manuela Ferreira Leite, Pedro Passos Coelho e Rui Rio. Gente para todos os gostos, como se viu e como se vê. O problema deste partido que tanto gosta de derrubar “líderes” não é dos dirigentes – é um problema de programa, de projecto, de objectivos e de espaço geográfico no panorama político português.
É difícil encontrar um partido como o PSD noutro país da União Europeia, onde os blocos políticos dominantes são os que equivalem em Portugal ao PS e ao CDS. O PSD é uma originalidade portuguesa, justificável pelas contingências do Portugal pós-revolucionário e pela extraordinária personalidade do fundador do partido, Francisco Sá Carneiro. Mas os tempos são outros: a amálgama ideológica que permitiu ao PSD (aliás, em bom rigor, PPD/PSD) implantar-se em largos sectores da sociedade portuguesa joga hoje contra este partido claramente incaracterístico onde os verdadeiros sociais-democratas sempre estiveram em minoria.
O PSD padece de um problema simétrico ao do PCP: enquanto os comunistas se tornaram essencialmente um “partido sindical”, que funciona como força de protesto mas sem correspondência em votos, o PSD foi-se tornando um “partido autárquico”, que serve para governar ao nível camarário, sobretudo em municípios de média dimensão, mas não no plano nacional.
Esta seria a questão mais urgente a debater pelos seus militantes no congresso que decorre em Viana do Castelo. Mas não. Como é norma em Portugal, o debate esgota-se na fulanização, dentro e fora das fronteiras partidárias. Toda a discussão gira à volta de pessoas ou de etiquetas. Como se um partido político fosse um clube de futebol, onde as ideias não são necessárias e por vezes só servem para atrapalhar.


Em face da campanha do Pedro Correia ao longo dos anos por uma corrente que não é liberal nem social, apenas uma agremiação de pessoas que pretendem o poder a todo o custo para dele extraírem benesses convém realçar (só neste texto) as incoerências escritas :
“O PSD movimentou-se recentemente para ensaiar aquilo em que é perito”
Não foi o PSD…
” Desta vez não resultou, por escassa margem num estreitíssimo universo de votantes, mas ninguém duvida que as tensões internas, mal cicatrizadas, irão manter-se à tona “
Com o Pedro Correia e outros decerto elas manter-se-ão a tona nem que seja a boiar agarradas aos xuxas e demais “liberais democratas”.
As vitórias, são vitórias mas podemos sempre fazer contas á Costa poucochinho.
“No último quarto de século, os sociais-democratas tiveram dez “líderes””
Chefiar é uma coisa, liderar é outra…
” é um problema de programa, de projecto, de objectivos e de espaço geográfico no panorama político português “
A evolução existe e não é estanque, vocês nem se dão ao trabalho de fazer oposição ao actual governo, preferem fazer oposição a quem quer mudar o “estado” actual que cada vez mais lembra o socratismo pré-bancarota.
” É difícil encontrar um partido como o PSD noutro país da União Europeia “
Chama-se a isso democracia, pode não gostar mas é o que existe por cá…e não generalize que ainda aparece aqui alguém a refutar aquilo que escreveu.
” Como se um partido político fosse um clube de futebol, onde as ideias não são necessárias e por vezes só servem para atrapalhar. “
Para os “liberais democratas” dentro do seu PSD, funciona assim.
Ainda nem acabou o congresso e você e outros já lançam o tema das autárquicas para a frente…com a tal fulanização em pano de fundo, desprezando ideias e projectos.
Posso-lhe dizer que a nível pessoal estou muito insatisfeito com o PSD e o autarca da minha cidade e se ele se voltar a candidatar, de certeza não voto nele, o mais provável é ficar em casa ou votar branco.
WW
Conclusão sua: o PSD já nem para partido autárquico serve. E no entanto lá estava o seu autarca ao lado do actual “líder” do partido, no palanque do congresso.
Como é que apoia um sem apoiar o outro?
Pronto, eu esqueci-me aí de uma palavra.
Eu estou muito insatisfeito com o PSD “na minha cidade” e o respectivo autarca do PSD na minha cidade.
Percebeu agora.
WW
Não.
Existe sempre quem queira destruir o PSD.
A única frente contra o actual PS dos corruptos conluiados com o Sr.Costa é o PSD.
Não queremos a esquerda actual, aceitamos um PS democr´tico não corrupto e também não queremos o pequeno pinóquio (ventura).
A.Vieira
Falando desse, ei-lo já a marcar território para o escrutínio que vai seguir-se: s/andre-ventura-anuncia-candidatura-pres idencial-contra-face-do-sistema-marcelo-r ebelo-de-sousa-545597
https://jornaleconomico.sapo.pt/noticia
E a mesma campanha insidiosa feita a quem lidera o PSD, já se iniciou no CDS, resta saber a quem interessa sendo certo que não é aos portugueses.
WW
O CDS é um caso diferente. Muito diferente, como se tem visto.
O problema do PSD foi o mesmo do CDS, a impossibilidade ou vergonha de se ser afirmativamente de direita no País que a história recente marcou como certo o lado esquerdo da barricada. Foi extraordinariamente difícil às hostes de direita afirmarem-se abertamente, sob pena de serem fustigadas com impropérios pela opinião influente.
Depois de tantos anos de relativo silêncio – com a ténue excepção dos anos dourados do cavaquismo onde a direita se descobriu após as facilidades de acesso ao crédito e a vida melhorada – e, agora, com a vaga dos populismos de direita europeia, seria natural que a nossa direita pusesse os corninhos o sol e ganhasse protagonismo. Mas, por cá, nem assim. Por não haver viabilidade prática para uma direita não populista. Ou seja, à direita o Chega tem por onde crescer, o CDS sem um Paulo Portas nem por isso e o PSD só terá a perder.
Supondo a hipótese de haver significativa massa silenciosa que acredite em contas verdadeiramente certas e transparentes, no escrutínio das instituições, na isenção e celeridade da justiça, na ascensão por mérito, na igualdade de oportunidades, na justiça salarial, na garantia de segurança dos cidadãos, na manutenção do serviço nacional de saúde universal e eficaz, etc. (porque estas são as questão que interessam ao comum cidadão), a questão que se colocará a seguir é saber o que levará alguém a votar no PSD e não no PS (ou no CDS ou no Chega).
Dir-se-á que o PSD estará mais à direita se defender uma economia livre, mas será isso impeditivo de ao mesmo tempo defender uma maior justiça salarial? É isso que invalida votos no PSD? Só por ser bandeira de esquerda? A maioria do eleitorado deixa de voltar no PSD por esta razão. A esquerda tem o monopólio da defesa e justiça dos direitos dos trabalhadores? Ou seja, para quê encostar o PSD à direita se o espaço do centro é o terreno natural deste partido?
A menos que as ideias não interessem nada e na política dos nossos dias valha apenas a aparência. Se for esse o caso, então, RR que se diga de direita populista desde pequenino, que minta tudo quanto pode e depois actue em consciência e em desconformidade com o que apregoou.
Tenho imensa dificuldade em reflectir sobre política usando esses termos geométricos que me parecem cada vez mais anacrónicos.
O debate “esquerda/direita” reduz a política à dimensão do futebol.
O PSD tem um problema central desde Outubro de 2015: necessita de novas parcerias estratégicas para voltar a ser um partido de poder a nível nacional – e até a nível autárquico, relativamente às principais cidades.
O principal desafio da liderança que emerge do congresso de Viana é este: o de construir uma alternativa de poder aos socialistas. De resto, é um dilema que tem vindo a atravessar as principais famílias políticas europeias.
Não por acaso, vemos agora o impensável: a CDU da chanceler Merkel a apoiar o candidato da Alernativa para a Alemanha no Estado da Turíngia. undo/noticia/alemanha-cdu-liberais-aliam se-afd-eleger-chefe-governo-turingia-190 3002
https://www.publico.pt/2020/02/05/m
Não por acaso, vemos o PSOE em Espanha a abraçar o Podemos, repudiando um legado de quatro décadas, edificado por Felipe Gonzalez no congresso de 1979. Extraordinario_del_PSOE_(1979)
https://es.wikipedia.org/wiki/Congreso_
Não por acaso, vemos conservadores e verdes formar coligação na Áustria – surpreendendo tudo e todos. 020-01-02-Austria.-Conservadores-e-Verde s-chegam-a-Governo-de-coligacao-para-pro teger-o-clima-e-as-fronteiras
https://expresso.pt/internacional/2
Quanto a famílias políticas: recordo que a família política do PSD é o PPE – agrupamento conservador europeu – e não o PSE – agrupamento social-democrata e socialista.
Ainda que as políticas a defender não tenham que estar entrincheiradas – aliás, não devem -, a geometria ideológica ajuda muito a reconhecer o ponto de partida das posições e, por muito que não se goste ou ache primário a dicotomia esquerda/direita ela subsiste e explica muito.
Quanto ao resto, agradeço os alertas. A ver vamos se o rumo português terá alguma semelhança com os casos que apresentou.
Portugal dificilmente será excepção. Os extremos crescem por essa Europa fora. Veja-se o Vox, aqui bem perto, já terceiro partido espanhol.
Isto força toda uma reconfiguração de alianças nos tabuleiros políticos à margem dos moldes tradicionais. Quando escuto um político dizer hoje que é impossível o eleitorado expandir-se do centro para os extremos, questiono-me se esse político conhecerá bem o chão que pisa.
Mais do que o posicionamento do PSD no espectro político, o problema actual (parece-me no meio da minha ignorância) é um problema de geografia — a questão do domínio crescente do PS nos meios urbanos e a própria perda de influência do PSD nos meios rurais do norte e do centro do país de onde provinha uma boa fatia da sua fidalguia — que complementava as ligações às academias no Porto e nas universidades privadas que entretanto sofreram todas uma derrocada na sua credibilidade e até na sua utilidade. O problema do PSD está ligado ao fim da percepção da existência do dinheiro europeu, ao enfeudamento de gestores do PS nos organismos que gerem os dinheiros dos QCAs, e à destruição e esvaziamento do interior que o PS vem operando há muitos anos através de organismos totalitários desenhados em Lisboa (como a Protecção Civil e as DRAs) que são mais uma instância do bloqueio que o Estado socialista e o municipalismo republicano da maçonaria suburbana está a fazer à sociedade civil fora das cidades. Nada pode mexer a não ser na órbita dos poderes autárquicos e do poder dos ministérios.
O PSD é péssimo nisso porque é um partido civil, de pequenos proprietários e comerciantes, e estoirou todo o capital de confiança que existia com os erros sucessivos de PPC e as mentiras de Paulo Portas (que defraudou irremediavelmente os 15% que votaram nele em 2011). O sinal mais evidente da anemia do PSD é o desinteresse pelos congressos do Partido, que costumava ser o benchmark da política nacional. A última manifestação de confiança do eleitorado no PSD foi destruída por António Costa, não por mérito próprio mas pelo silêncio pactuante com que a comunicação social (e organismos maléficos como a agência Lusa) controlou a golpada eleitorial de António Costa — e a permanente auto-capacitação e auto-legitimização do Parlamento para legislar sobre coisas que não estavam nos programas eleitorais e que trouxe para a ribalta as demandas fracturantes e normalmente idiotas e incultas do PAN e do BE — porque são os filhos das madrassas públicas que estão agora a chegar ao poder. Em suma, O PSD perdeu qualidade nos seus quadros, mas o PS também.
Agarrem-se, pá
(mais importante ainda: estou na dúvida se se diz auto-legitimação ou auto-legitimização)
Muitas pistas de reflexão neste seu comentário.