O dia em que a I República morreu


Pedro Correia,

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Faz hoje cem anos, ocorreu uma das páginas mais trágicas dos últimos dois séculos da história de Portugal. A noite em que o presidente do Ministério (cargo equivalente ao primeiro-ministro actual) e dois dos heróis do 5 de Outubro de 1910 foram cobardemente assassinados por uma turba armada, com óbvias ligações à facção mais radical do poder republicano e das suas ramificações, como a Carbonária e a “formiga branca”.

Em poucas horas, criminosos com fardas da Marinha e da Guarda Republicana liquidaram António Granjo, António Machado Santos e José Carlos da Maia, entre outros, confirmando a república de Afonso Costa como um regime de terror, aliás fundado no duplo homicídio do Rei D. Carlos e do príncipe real, D. Luís Filipe, em Fevereiro de 1908, e prosseguido no assassínio de Presidente Sidónio Pais, em Dezembro de 1918.

Os vultos que tombaram nessa noite sangrenta de 19 para 20 de Outubro de 1921 simbolizaram o fim precoce desse regime implantado onze anos antes. Em década e meia, a chamada I República teve oito presidentes e 45 governos – qualquer deles sem a menor capacidade para exercer tarefas mínimas de condução do País. Conheceu uma junta revolucionária, diversos pronunciamentos militares, dois períodos de suspensão declarada das garantias constitucionais, atentados bombistas em sessões contínuas, censura à imprensa, presos por delito de opinião, um número infindável de crimes políticos de diversa ordem – grande parte dos quais permaneceu impune.

Viria a cair em definitivo a 28 de Maio de 1926. Mas implodira antes, nessa noite de trevas ocorrida há cem anos exactos. Uma efeméride de que mal se fala, que quase ninguém recorda, que muitos apagaram como se jamais tivesse existido – incluindo vários historiadores com agendas selectivas. 

À época, os maiores críticos da I República não eram monárquicos, ao contrário do que apregoa a vulgata, mas os republicanos mais lúcidos – como os que se reuniam em torno da revista Seara Nova, fundada também há cem anos. No fundo, poucos defendiam uma república onde a oposição era silenciada à bomba e toda a dissidência era paga com a masmorra, o degredo ou a própria vida. Ninguém hoje toleraria viver num regime semelhante a esse.

Tinha pouco mais de 15 anos quando agonizou e morreu. Mas já estava ligada à máquina desde aquela noite sinistra. E quase ninguém chorou por ela.

32 comentários em “O dia em que a I República morreu”

  1. Porque é que você diz que era a República de Afonso Costa se o presidente era o Teófilo Braga?
    O Afonso Costa não era o ministro da justiça?

  2. A I República começou à bala, portanto é normal que assim terminasse. Pelo meio ainda se fez uma acção de marketing pelas zona de França.
    É um período da nossa História pouco falado e divulgado, por que será…
    Tenho dúvidas de que as pessoas preferissem o Presidente ao Rei, queriam era paz, sossego e comida na mesa.

    1. Ninguém fala disto. Hoje passei os olhos pela imprensa: vazio total.
      Como se nunca tivesse existido.
      Visão selectiva da História. O que não interessa é varrido para debaixo da alcatifa.

    2. A I República começou à bala, portanto é normal que assim terminasse.

      Muitíssimos regimes começaram à bala sem terminarem à bala.

  3. E quando se recorda a Noite Sangrenta, é para aldrabar a história, como numa série que a RTP está (novamente) a passar e que assente na obviamente inventada “pista monárquica” que venderam à pobre viúva do Maia.

      1. raras áreas “do saber” estão sujeitas a tanta charlatanice como a História

        É verdade. E isso é uma frase da qual convém estarmos sempre recordados.

      2. Em tempo. Antes dessa série (que, ainda ontem, a RTP1 retransmitiu), e também paga com o dinheiro dos nossos impostos, já a Barraca tinha levado à cena uma peça (“O Mistério da Camioneta Fantasma”, com texto e encenação de Hélder Costa) a vender a mesma óbvia aldrabice da “conspiração monárquica”, que assenta na tese de que padres e monárquicos determinaram os desmandos do Arsenal da Marinha e da GNR, os dois maiores expoentes do republicanismo radical. Mas, aqui, não é “negacionismo” nem “fake news”, é licença artística.

  4. Como hoje celebra-se no panteão a cerimónia em honra de Aristides de Sousa Mendes, e estarão presentes o Costa, o Sousa e outros, a data alusiva à morte da República encaixa-se bem. Estarão no panteão os mortos republicanos para celebrar a vida de um grande homem.

  5. Antes de a 1ª República ter estado ligada à máquina durante 16 anos, já a monarquia estivera ligada à máquina durante 19 anos (isto é, desde o Ultimato inglês). E disto também poucos historiadores com agendas seletivas falam.

    O facto é que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. E em Portugal não havia pão desde muito antes de 1921.

      1. Sim, a República foi proclamada para “regenerar a Nação”, mas não o conseguiu, nem seria de esperar que o conseguisse. Porque uma nação não se regenera lá por o chefe de Estado ser um presidente ou um rei.
        A República foi uma ilusão em que muitos intelectuais caíram.
        De qualquer forma, o que me interessou salientar com o meu comentário é que a 1ª República foi má, mas a parte final da Monarquia não foi muito melhor. (Houve uma ditadura, etc.) Coisa que, infelizmente, muitos historiadores com agendas seletivas não mencionam.

  6. Essa noite sangrenta acorda-me duas memórias.

    O meu avô materno era do partido democrático do Afonso Costa – foi membro de um governo recordista que durou 8 ou 9 dias – e vivia então na Costa do Castelo, numa excelente casa alugada ao conde de Vila Flor. Conhecia bem o trajecto para o Monte Estoril (ainda não havia marginal) onde passava o Verão numa casa que foi depois o Colégio João de Deus. Avisado telefonicamente que ia sair uma camioneta do Arsenal para ir “tratar” de Fausto Figueiredo, meteu-se no carro – uma “bomba” à época – ultrapassou a camioneta e chegou ao Estoril a tempo de avisar Fausto Figueiredo que assim escapou a engrossar as listas dessa noite..

    Uns dos grandes amigos que os meus filhos adquiriram na Figueira da Foz, eram de Coimbra e chamavam-se Granjo. Um dia, em nossa casa, perguntei à rapariga qual a relação com o António Granjo, assassinado e que fôra primeiro-ministro. Respondeu-me (quase) textualmente que nunca tinha ouvido falar mas que se se chamava Granjo com certeza que era da sua família. Nada tinha de parva, licenciou-se depois numa universidade a sério e tem uma boa situação profissional; e ambos os pais eram médicos. Fiquei siderado. Para mim, que vibro com factos como ter um avoengo – Johannes Mögling 1495-1555 – sapateiro, que teve sete filhos dos quais 3 licenciados em medicina, um deles professor universitário, 2 netos bacharéis, 6 licenciados e 2 professores universitários, aquela indiferença era incompreensível.

  7. “Juntamente com o Mundo, a Imprensa da Manhã, jornal sob a tutela de Liberato Pinto, atacavam diariamente o governo, tentando provar, através de documentos falsos … “
    “A camioneta, com o Dente de Ouro por chefe, prosseguiu na sua missão macabra. Era seguida por uma moto com sidecar, com repórteres do jornal Imprensa da Manhã. Bem informados como sempre, foram os próprios repórteres que denunciaram: «Rapazes, vocês por aí vão enganados… Se querem prender Machado Santos venham por aqui…»”
    “Os assassinos foram marinheiros e soldados da Guarda. Estavam tão orgulhosos dos seus actos que pensaram publicar os seus nomes na Imprensa da Manhã, como executores de Machado Santos.”
    “O furor dos assassinos liquidara homens tidos, na sua maior parte, como simpatizantes do sidonismo. Não se tratava de vingar Outubro de 1910, mas sim Dezembro de 1917. Carlos da Maia e Machado Santos foram ministros de Sidónio Pais. Botelho de Vasconcelos, coronel na Rotunda, às ordens de Sidónio Pais. Se as matanças de 19 de Outubro de 1921 foram uma vingança terão de ser referenciadas à República Nova e não ao 5 de Outubro. Aliás, num gesto significativo, os revolucionários libertaram o assassino de Sidónio Pais.”
    “A 20 de Outubro, a Imprensa da Manhã reivindicou para si a glória de ter preparado o movimento, mas repudiou as suas trágicas consequências, especialmente a morte de Granjo. Ora anteriormente, dia após dia, aquele diário havia acusado e ameaçado Granjo, injuriando-o sistematicamente. Como podia agora lavar as mãos da sua morte? Aliás, a atitude dos assassinos foi concludente: depois de matarem Machado Santos, dirigiram-se na camioneta da morte à Imprensa da Manhã para lhe agradecerem o apoio e para aquela publicar os nomes dos que tinham fuzilado o Almirante. Um deles confessou mais tarde que Machado Santos havia sido localizado por informações de jornalistas da Imprensa da Manhã. Os assassinos procuravam a satisfação e a glória de uma obra realizada, no diário matutino onde se proclamara a necessidade dessa realização.”
    “Em todos os regimes que nascem e se sustentam no crime e no terror (por muito justa que a causa possa ser), há sempre o momento (ou os momentos) em que a revolução devora os próprios filhos.”

    (in https://semiramis.etc.pt/semiramis.weblog.com.pt/arquivo/2004/10/19_de_outubro_d.html)

    1. Bom blog o da semiramis. Infelizmente já desaparecida.
      Muitas coisas por lá, censuradas pelo jornalismo deste regime.
      Quem o ler ficará a saber mais. Coisa que raramente se pode dizer da nossa TV e jornais.

  8. Tinha pensado escrever sobre esta triste efeméride, mas acabei por não ter tempo. Agradeço, por isso, a excelente análise que aqui faz. Concordo que é uma página negra e esquecida, talvez porque contraria a ideia que Portugal tem de si próprio, que lhe foi inculcada durante anos, décadas, de ser um País de brandos costumes. Não somos. Toda a Primeira República mostra isso muito bem, como se fosse preciso…Obrigada por recordar essa trágica noite em que a República se virou contra os republicanos.

  9. Leopedro
    Não consigo perceber o Carmona, julgo ter sido o presidente o tribunal que julgou os acusados dos crimes, em não dar muita atenção, ou nenhuma, às muitas reclamações dos familiares das vítimas para se saber quem verdadeiramente teriam sido os mandantes de toda aquela Noite Sangrenta.
    Ou então foi como vimos que se passou e as desconfianças sobre hipotéticos autores não teriam razão de existir.

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