O dadeísmo


Rui Rocha,

Eis que nasce em Portugal um movimento de contornos e consequências ainda não inteiramente determináveis, mas que se caracteriza por promover a infantilização da discussão, enfatizar  o absurdo, recorrer a temas e conteúdos sem lógica e corroer a credibilidade das instituições. Ao contrário do que alguns possam estar a pensar, não se trata do dadaísmo, mas do dadeísmo. Aquele é uma forma de expressão artística. Este é uma forma de expressão artolas. Em concreto, o movimento dadeísta tem como momento fundador aquele em que certos intérpretes defendem que a utilização de um “da” ou de um “de” num texto legislativo tem a consequência de impor um determinado sentido à norma em análise. Não se apercebem, naturalmente, do ridículo em que incorrem. Na verdade, a propósito de uma lei em que é manifesta a inépcia e a imprecisão do legislador e em que, por isso mesmo, se abre uma discussão interminável sobre a sua intenção, é absolutamente espantoso, à primeira vista, que se venha defender a intencionalidade inquestionável e cheia de significado da utilização de um “de” em lugar de um “da”. Todavia, nada tem de surpreendente se tivermos em conta que o dadeísmo é também uma forma de irmanêutica. Isto é, de interpretação da vida de acordo com os interesses dos irmãos políticos. É por isso que, no fundo, o que está em causa aqui não é um “de”, nem um “da”. É um duh! Acompanhado de um sonoro “tenham vergonha, rapazes”.

11 comentários em “O dadeísmo”

  1. EMMO (IMHO), todos os partidos, sem excepção, deveriam preocupar-se com o esclarecimento dessa lei, e já vão tarde.

    A nenhum aproveita o descrédito da democracia nem que este caso se tenha tornado mais um expoente do anedotário nacional.

    Em termos de interesses meramente partidários, se ao PSD interessará que sejam aceites as suas candidaturas em Lisboa e no Porto e ao que parece – veja-se a intervenção de António Filipe na AR – o PCP também deseja que dinossauros da casa possam concorrer, entendo que ninguém lucrará se o processo eleitoral ficar pendurado nos tribunais e, eventualmente, que as autarquias fiquem paralisadas à espera da homologação dos resultados (não me admira nada que a resolução definitiva da questão, na justiça, não seja um exemplo de rapidez e eficácia) ou que possam ocorrer vitórias e derrotas “de secretaria”.

    Até entendo que Cavaco terá usado um estratagema que julgou capaz de desbloquear a situação, mas as reacções partidárias fazem temer o pior.

  2. “não estando identificada a Câmara ou a Junta, deve utilizar-se a menção genérica do titular do cargo, ou seja, ‘o Presidente de Câmara’ ou ‘o Presidente de Junta'”.
    Quem isto diz é a INCM mas parece-me tão óbvio que apetece perguntar se nenhum dos 229,99 advogados que há nos 230 deputados deu por tal anomalia.


  3. Se foi só na/em Câmara, pode ser porque a imagem nas câmaras escuras é invertida. Não ouvi falar do mesmo problema nas Juntas.

  4. Excelente, Rui. 🙂
    O que já não é tão bom é que este país se tenha transformado numa opera buffa, E sempre inacabada porque há sempre mais um acto, cada vez mais ridículo.

  5. Sim. Não há vergonha, não.
    O que é interessante é o ar convicto com que, em público, os diferentes campeões, quais assertivos peões de brega, defendem os seus respectivos toureiros.

  6. tenhamos todos vergonha. queixamo-nos de quê?

    quem fez a lei, quem aprovou a lei, quem publicou a lei, não sabia do que se tratava?

    e nós ficamos todos entretidos a assistir e esta treta toda, achando natural que quem esteve envolvido nesta lei não venha esclarecer o que foi discutido, aprovado e publicado.

    e ainda temos de ir daqui para fora, em vez de mandar esta cambada toda daqui para fora. não, isto não vai lá com cantigas.

    tenhamos todos vergonha.
    duh!?! sim, mas para todos nós.

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