O currículo não é tudo na política


Pedro Correia,

 

Fala-se hoje muito na necessidade de experiência, ao nível do Governo, para um político assumir funções de liderança num determinado partido. À luz deste critério, nem pensar em ascender à chefia do Executivo se esse político não tiver um longo tirocínio governativo – ouço dizer cada vez com mais insistência.
Às pessoas que produzem semelhantes análises gostaria de recordar os percursos de três chefes de governo portugueses sob a vigência do actual quadro constitucional: Mário Soares, Francisco Sá Carneiro e Aníbal Cavaco Silva.
Soares, enquanto secretário-geral do Partido Socialista, ascendeu ao posto máximo do Executivo a 23 de Julho de 1976, liderando o I Governo Constitucional. Tinha então 51 anos. E qual fora a sua experiência anterior em matéria governativa? Quinze meses incompletos como ministro dos Negócios Estrangeiros dos primeiros quartos governos provisórios – entre 15 de Maio de 1974 e 8 de Agosto de 1975.

Francisco Sá Carneiro, enquanto presidente do PPD/PSD, iniciou funções como primeiro-ministro a 3 de Janeiro de 1980, aos 45 anos. A sua experiência governativa era ainda mais escassa do que a de Mário Soares: apenas 63 dias, entre 15 de Maio e 17 de Julho de 1974, como ministro sem pasta do primeiro-ministro Adelino da Palma Carlos, o primeiro chefe do Executivo após o 25 de Abril. Nada mais que isso.

Cavaco Silva tomou posse como primeiro-ministro aos 46 anos, a 6 de Novembro de 1985, na sequência da sua eleição como presidente do PSD. Experiência governativa anterior: 373 dias como ministro das Finanças, entre 3 de Janeiro de 1980 e 9 de Janeiro de 1981. Experiência curta, sem dúvida. Mas foi quanto lhe bastou para formar um Executivo ainda hoje lembrado como um dos melhores que Portugal já teve.
O que leva a concluir o seguinte: ter um longo currículo como ministro ou secretário de Estado não é garantia antecipada de que se possa transitar com mais facilidade para o posto máximo no Governo. Se o critério decisivo fosse esse, Soares, Cavaco e Sá Carneiro nunca teriam sido primeiros-ministros.

 

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26 comentários em “O currículo não é tudo na política”

  1. Caro Pedro, o seu texto fez-me imediatamente lembrar uma frase do “Sim, Sr. Ministro”:

    “A career in politics is no preparation for government.” – Sir Humphrey Appleby

    Na mouche diria

  2. O texto parece que pretende justificar a pouca credibilidade política que o Passos tem.
    Não compare este rapaz aos três personagens que foram P.M porque tanto Mário Soares como Sá Carneiro já tinham uma longa vida de intervenção cívica na qualidade de advogados.
    O Cavaco era um académico de pprestigio e este rapaz não se lhe conhece actividade alguma com relevância académica e de intervenção cívica estamos conversados. O Passos não serve para os grandes designios que o país precisa neste momento de miséria e fome que entra pelas casas dentro dos portugueses.

    1. Se “ter uma longa vida de intervenção cívica na qualidade de advogado” bastasse para fazer um bom político, deduzo que na sua opinião António Marinho Pinto, por exemplo, seria muito qualificado para ser ministro ou até primeiro-ministro. Fica registado.

    2. Ó Kalu, V. tem a mania das grandezas, não tem? Veja bem: não é que me incomode que ocupe tanto espaço para escrever tão pouco, mas acaba por nos deixar ficar mal ao aceitarmos um comentador com ideias tão ostensivamente vazias até se decidir a escrever a primeira palavra…

  3. Parece-me que este “critério” vem na sequência do estado em que o País se encontra. Na ânsia de encontrar alguém suficientemente competente para comandar os destinos dos portugueses, as pessoas acabam por, ansiosamente, exprimir todo o tipo de teorias sobre o “Príncipe Encantado”, leia-se, o melhor chefe de Governo.

      1. “Fala-se hoje muito na necessidade de experiência, ao nível do Governo, para um político assumir funções de liderança num determinado partido.”

        Pedro Correia, eu não sei quem é que disse esta barbaridade! depois da experiencia que tem sido a governação de Socrates…tendo ele tido experiencia governativa anterior…

        a condição necessaria para se ser lider de um partido, nos proximos tempos, é ter sido jotita…são estes as novas vedetas do Portugal do ano de 2010, da nossa adorada e mui estimada comunicação social…eu oferecia!!! a PT ao Belmiro e em troca ele tinha que deixar o filho governar Portugal durante 4 anos!! bastavam quatro anos… ( ou negocios analogos com gente desta estirpe ) Pedro Passos Coelho!!??António José Seguros!!!?? é apenas a vulgaridade a manter-se na Cadeira de Primeiro-Ministro de Portugal… e não trazem nada de novo, só vai mudar o bla bla bla…Portugal necessita, como de pão para a boca, de produzir riqueza…e a cabeça destes jotitas nunca foi formatada para tal objectivo, apenas foi, e está formatada para serem carreiristas politicos, o mesmo é dizer, boys…tal como o Socrates!

        1. Como o Paulo Azevedo, tanto quanto sei, não tenciona candidatar-se a um cargo político, e como o Paulo Portas também foi “jotinha”, quem resta então? Na sua opinião, ao que deduzo, os melhores líderes partidários são então Louçã e Jerónimo de Sousa, que nunca passaram pelas “jotas”. Pensa mesmo isto?

          1. “Como o Paulo Azevedo, tanto quanto sei, não tenciona candidatar-se a um cargo político…”

            se não tenciona, existem outras formas… um Governo de iniciativa Presidencial, em que o Presidente nomeie alguem desta estirpe, para assumir a Governação de Portugal ! é uma questão de S.O.S.

          2. Sim? E o que fazer com o Parlamento? Dissolvia-se? Governava-se por decreto? Enchia-se a Assembleia da República de ‘homens Sonae’?

  4. Caro Pedro Correia. O seu texto, seja ele uma teoria ou não, é sustentado com alguns factos sim. Eu referia-me à suposta teoria de que seria imperativo ter muita experiência numa carreira política para ser capaz de assumir a liderança de um Partido e consequentemente candidatar-se a ser chefe de Governo. Não digo que não seja importante mas decerto não será decisivo.

  5. Não acho, concordando com o post , que a experiência seja um factor (ou critério) relevante. Mário Soares, Sá Carneiro e Cavaco Silva foram grandes nomes…
    Contudo, obra à vista, onde os grandes feitos?
    Já sei. Livraram Portugal do pior. Venha de lá então o PPC livrar-nos do pior. Porque que isto vai piorar. Lá isso vai…

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