O criador da Geringonça


Pedro Correia,

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É usualmente reconhecido que foi Vasco Pulido Valente o criador do termo Geringonça, num texto que escreveu, para designar a aliança de forças derrotadas que em 2015 formaram governo em cenário pós-eleitoral. Paulo Portas, com a rapidez de raciocínio que sempre o caracterizou, apropriou-se rapidamente do vocábulo, mal o viu impresso, e contribuiu para a sua divulgação. A tal ponto que até alguns dos visados o adoptaram também.

Pulido Valente, como sabemos, tinha um talento inato para cunhar expressões que logo se integraram no vocabulário comum. Recordo duas, sem qualquer esforço de memória: “picareta falante” e “o mundo está perigoso”.

No caso da Geringonça, porém, parece-me que ele se revelou apenas um excelente leitor de José Rodrigues Miguéis. Leio na página 285 d’O Milagre Segundo Salomé, a obra-prima deste grande escritor: «O problema é essencialmente económico, mas tudo depende da fórmula política. Se não for dentro da geringonça parlamentar, há que ir buscá-la fora dela.»

Rodrigues Miguéis era um visionário. Publicou o romance em 1975 – quarenta anos antes da verdadeira “geringonça parlamentar” conhecer a luz do dia. Os grandes escritores são mesmo assim, capazes de vislumbrarem além do seu tempo.

48 comentários em “O criador da Geringonça”

  1. Miguéis e Pulido Valente fazem muita falta a um país cada vez mais entregue a gente muito poucochinho…
    Pedro Cuha

  2. Porquê ‘…a aliança de forças derrotadas….’ e não a aliança das forças com maioria Parlamentar?
    É assim que funciona o sistema democrático Parlamentar, no Continente e nos Açores.

      1. As eleições legislativas não são uma sondagem, elas existem para escolher quem são os deputados da AR que vão por sua vez escolher o governo, sendo este o objetivo último. Como em todas as competições ganha quem consegue o objetivo único. Tal como no futebol as “vitórias morais” são desculpas, ou se ganha ou se perde.
        Se a Pàf ganhou as eleições então, os seus dirigintes eram completamente ineptos, visto que ganharam as eleições, o presidente nomeou-os para formar governo e não conseguiram.
        Penso que não eram assim tão estúpidos. Com a AR que resultou das eleições não era possível formar governo sem subverter as regras, o que ninguém fez neste caso.

        Ainda ninguém me explicou como funciona essa teoria do “roubaram-nos os resultados”. Os restantes partidos tinham prometido ao seu eleitorado não apoiar um goveno de Passos Coelho, formavam a maioria e não tinham razão para trair o seu eleitorado. Na cabeça da nossa direita o Bloco e o PC deveriam votar com Passos Coelho na aprovação do orçamento, ou Costa devia escolher ser a segunda figura do governo quando podia ser a primeira.

        O termo gerigonça é um termo engrraçado que pegou, mas é enganador. Houve menos crises no governo de 2015 que no governo de Passos Coelho de 2011, que teve a crise do irrevogável e só se aguentou arrimado à Troika.

        1. O diabo entretanto chegou, contrariando os vaticínios de Costa. Pela primeira vez na história da democracia portuguesa, um Orçamento do Estado foi chumbado.
          O cheiro a poder une. O exercício do poder separa. Irrevogavelmente.

        2. Também concordo com a teoria de que as eleições servem para escolher deputados, e não governos. Pena que essa teoria ainda não estivesse cientificamente comprovada quando o Santana não tinha legitimidade para formar governo depois da promoção do Durão.

          1. Pois. Em 2004 os mesmos que em 2015 viriam a gritar que era preciso um governo de “segundas linhas” pois o importante era somar lugares no parlamento e não havia eleições para primeiro-ministro, incoerentemente, gritaram então que Santana não podia ser chefe do Governo pois “não havia sido eleito”. E aplaudiram a dissolução dessa legislatura, cinco meses depois, mesmo tendo apoio parlamentar maioritário.

            A clubite cega os melhores espíritos dominados por ela. No futebol e na política.

      2. Vejo que o Pedro Correia não desiste de considerar que, em eleições, há um só vencedor e todos os outros são derrotados.
        Ao Pedro faria bem um estagiozinho num país do Norte, digamos que na Finlândia, por exemplo, na qual o governo é participado por cinco partidos. Um deles o vencedor, todos os outros quatro, derrotados.

        1. Em eleições democráticas é assim: ganha quem recolhe mais votos. Lógica irrevogável.
          Claro que os perdedores podem sempre fazer uma coligação governamental, assumida ou encapotada. Mas não deixam de ser perdedores por via disso.
          A aritmética vale por si e fala por si. Ainda não se condiciona por decreto.

          1. Em eleições democráticas é assim: ganha quem recolhe mais votos.

            Isso somente é verdade em sistemas eleitorais como os dos países anglófonos, com círculos uninominais.

            Em sistemas eleitorais como o nosso, isto é, proporcionais, todos os partidos que elegem deputados ganham. Uns ganham mais, outros menos: ganham de acordo com o número de deputados que elegem.

          2. Sente mesmo necessidade dessas bengalas?

            Sinto.

            Eu comento frases específicas. Não comento textos completos.

      3. Pois, pois, arranje lá um texto seu em que apareça a ‘aliança de forças derrotadas’ mas em relação ao Açores.

          1. ‘Tá bem, essa já é conhecida mesmo com identificação reconhecida pelo notário seria sempre um desafio..
            Por isso, atire-nos com a dos Açores, e aquele cheganço do não sei quê e tal fora do orçamento.

          2. Chamuças? Percebi, mas não aprecio, nem chamuças nem chinesices de Macau.
            Afinal o que interessa, até para comparar, quais foram as cedências ao chega pra lá e ou
            chega pra cá?
            Não acredito que estivesse tudo combinado, para dar “aquela ideia”, como aconteceu no Afeganistão que já ninguém fala.
            Continua a não acertar uma, mas vá tentando.

  3. É preciso perceber e martelar em resumo a principal razão que levou Costa a aparelhar e carregar com a “geringonça”, para já não falar na aversão que revelou pela formação de governos por arranjinhos partidários em conclave partidário de 2009.
    Depois de rasteirar Seguro indo-lhe aos calcanhares, por este ter vencido umas eleições por “poucochinho”, perdeu depois de forma estrondosa aquelas em que esteve metido como cabeça de cartaz.
    Mirando o horizonte, percebeu que assim teria chegado ao fim da linha o seu longo percurso politico ao que parece em exclusividade, lançando engenhosamente a corda para repescagem do próprio cadáver politico prestes a afundar nas profundezas, isso é que foi.

  4. Há que distinguir os fazedores de alcunhas, que têm o seu mérito sem dúvida, dos verdadeiros autofazedores de alcunhas.
    Eu prefiro os últimos até pelo orgulho que demonstram quando ostentam a sua falta de carácter, como foi o caso do Paulo Portas com o seu “Irrevogável”.

          1. Por acaso é verdade, mas é das originais, as outras têm muita gordura.

          2. Tem de ser, não posso comer muitos fritos, está a esquecer que sou doente cardíaco?
            Olhe eu agora ir para um hospital, morria antes de lá chegar, bastava pôr uma máscara na boca.

          3. Faz bem. Não é nada saudável comer fritos. Eu fujo deles: rissóis, croquetes, chamuças… nem choco frito sequer.
            Qualquer dia escrevo aqui um postal sobre os meus passatempos culinários.

          4. Também tenho uns segredinhos culinários. Mas o meu forte é a grelha, e é mais com carne.
            Venha de lá essa rubrica para ” entremear” a salgalhada política.

  5. António Costa é o chamado avançado de mama. Aquele tipo gorducho, com alguma ou pouca habilidade, mas ainda menos vontade, passava os jogos encostado à baliza adversária. Não poucas vezes era o herói do jogo, porque marcava os golos. Não que alguém lhe passasse a bola, mas pelas voltas da vida e acasos das biqueiradas, a redonda ficava ali à mercê.
    Costa teve a sua bola de golo há 6 anos, não falhou o pontapé.

  6. 1975, a 1ª República ou a Regeneração parecem coisas distantes quando pensamos que algo mudou. Mas na verdade nem as moscas mudaram.

  7. elogio a pesquisa ( o arquivo ).

    Provavelmente os escritores nao podem ser acomodados numa unica especie, mas tantos leitores desejam precisamente conhecer antecipadamente o futuro.
    Alias, tenho dito nalguns blogs para que em vez de andarem a apanhar as canas dos foguetes, que ousem, façam prognosticos.

  8. historia
    mais um episodio de bloco de notas, da A1, que agora ouvi : Catarina de bragança casou e de dote portugal ofereceu aos ingleses tanger e bombaim e muito dinheiro. … o ouro do brasil serviu muito para pagar aos ingleses o diferencial do vinho que exportavamos e os lanificios que importavamos… e contrabando…

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