O cortejo dos ressabiados


Rui Rocha,

A cada novo atentado, a cada evidência de barbárie, em França ou na Dinamarca, há uma certa esquerda que se cala ou que, falando, destapa a sua absoluta reserva mental. Para alguns, há sempre uma justificação. Ou os terroristas foram provocados, ou os agressores reagiram à falta de oportunidades ou, calhando, a uma outra qualquer opressão. Isto não acontece por acaso. A sociedade ocidental, essa das liberdades, construiu-se primeiro apesar do socialismo real e, depois, sobre a derrota dessa experiência de que foram cobaias milhões de europeus. A queda do muro de Berlim, porém,  não coincidiu com o desmoronar da barreira mental própria de atavismos que persistem nas trevas que ensombram determinadas correntes de pensamento. Derrotados pela história, constroem hipóteses de retorno de supostos amanhãs que cantam nem que para isso seja necessário legitimar, por omissão ou discurso, as mais bárbaras agressões. Partem desde as entranhas do ressabiamento para este ajuste de contas com a liberdade que intrinsecamente desdenham e não toleram. Incapazes de condenar o agressor cobarde e canalha, dedicam-se estrenuamente à tarefa de tentar identificar indícios suspeitos no sangue das vítimas.

0 comentários em “O cortejo dos ressabiados”

  1. Será? Eu já vi a esquerda criticar e bem, a loucura de psicopatas que proliferam como cogumelos. Diz que a esquerda é que é ressabiada porque a direita também o é. Basta-nos recordar a loucura dum louco alemão, ao qual se juntaram muitos e esses não eram de esquerda. Não generalizemos porque em todos os políticos há ressabiados, é próprio do ser humano.

    1. Parece-me fácil de entender “certa esquerda”. Quanto ao “louco alemão” não sei exactamente a quem se refere. Em todo o caso, para mim há os da luz e há os das trevas. Estou do lado dos primeiros, sejam de esquerda, de direita ou do centro. Vermelhos ou verdes. Alemães, chineses, árabes ou cossacos.

      1. Mesmo louco, louco, louco, até agora houve o Hitler. Então esqueceu-se desse monstro da loucura? Eu também estou sempre do lado da luz. Se são da direita do centro ou da esquerda, não importa, desde que haja luz, tudo bem, embora tenha especial predilecção pelos sérios, mas há tão poucos que isto está a tornar-se bem complicado. Não vou muito com os chineses, talvez pela exploração do homem em proveito de alguns.

        1. Não, não esqueci. Quis só ver se estávamos a falar do mesmo. Mas quando estamos a falar de mal absoluto, e estamos, é difícil fazer comparações. Dizer que uns são menos maus que outros.

    2. Está referir-se ao louco Alemão Nacional-Socialista com preços controlados que foi defendido pela Esquerda Marxista até ter atacado Moscovo?

  2. A Esquerda Marxista não tem causas, tem oportunismos.

    A Esquerda Marxista tanto pode estar aliada a Islamistas que atiram gays edifícios como aliar-se a grupos gays. Tanto pode ser feminista e estar contra a violência doméstica como defender a exclusão sexual e violência sobre as mulheres em boa parte dos movimentos que apoia. Tanto pode aliar-se a racistas -boa parte dos movimentos independentistas, ou criticar o racismo e formar organizações anti-racistas que só funcionam para o racismo num sentido: Se a ocorrência racista não servir para criticar a civilização ocidental não funcionam.
    Tanto pode usar a palavra Pátria como dizer que a palavra Pátria é “Fascista”. Tanto pode elogiar o militarismo como defender o mais absurdo pacifismo.

    Pois a única missão da Esquerda Marxista é destruir a Civilização Ocidental Liberal saída do Renascimento, não há outra.

    Quando Hitler invadiu a Polónia quem ajudasse a resistir contra os invasores Nazis seria um apoiante do imperialismo plutocrata Inglês.
    Peter Seeger – Cantor Marxista, lançou um álbum criticando quem contribuísse para a resistência contra os Nazis.
    Tudo obviamente mudou quando os Nazis atacaram a URSS…e o álbum foi retirado.

    O mesmo se passa hoje .
    O Islamismo é aproveitado pela Esquerda como movimento contra cultural para destruir a Civilização Ocidental.

    Quando a Liberdade de Expressão servia para criticar a Civilização Ocidental -música, arte, jornais, teatro – era para ser defendida como nec plus utra das causas. Só no Ocidente claro, não em Moscovo.
    Mas hoje a Liberdade de Expressão no Ocidente serve para reforçar a Civilização Ocidental, é um dos seus esteios. Logo é para ser desvalorizada, criticada, amordaçada.

    Até ao dia em que voltar a ser útil aos Marxistas.

    Não há causas na Esquerda Marxista. Há só uma causa.

    1. Quando o Lucky defende assim a liberdade de expressão, esqueço-me de todos os seus atalhos que fazem de Hitler um comunista e de Estaline um fascista, que fazem da Esquerda uma direita trauliteira, ou da Direita uma esquerda sugadora do estado… e abstraindo-me de tudo isso limito-me a aplaudir.
      Hmmm…. aplaudir é capaz de ser uma actividade marxista, mas pelo menos nisto estamos de acordo.

  3. Para se perceber o que é a Esquerda Marxista note-se como são construídos os título e texto(mais grave) de duas organizações sobre degola dos 21 Cristãos Egípcios. O jornal Publico e comunicado da Casa Branca:

    Título do Jornal Publico: “Estado Islâmico decapita 21 egípcios na Líbia.”

    Não é referido que são Cristãos como fez a maioria dos outros meios de comunicação no título.
    Informação essencial para perceber a ocorrência é omitida do título.
    Se tivesse sido um ataque racista contra negros até teria adjectivos e o jornalista faria questão identificar bem os agressores e as vítimas. O que seria o correcto a fazer.

    O Comunicado da Casa Branca segue a mesma receita, ou não viesse de quem vem:

    “The United States condemns the despicable and cowardly murder of twenty-one Egyptian citizens in Libya by ISIL-affiliated terrorists. We offer our condolences to the families of the victims and our support to the Egyptian government and people as they grieve for their fellow citizens. ISIL’s barbarity knows no bounds. It is unconstrained by faith, sect, or ethnicity. This wanton killing of innocents is just the most recent of the many vicious acts perpetrated by ISIL-affiliated terrorists against the people of the region, including the murders of dozens of Egyptian soldiers in the Sinai, which only further galvanizes the international community to unite against ISIL.
    This heinous act once again underscores the urgent need for a political resolution to the conflict in Libya, the continuation of which only benefits terrorist groups, including ISIL. We call on all Libyans to strongly reject this and all acts of terrorism and to unite in the face of this shared and growing threat. We continue to strongly support the efforts of the United Nations Special Representative of the Secretary-General Bernardino Leon to facilitate formation of a national unity government and help foster a political solution in Libya.”

    Em nenhum dos casos é referido que os decapitados são Cristãos. E é por serem Cristãos que o foram. Não por serem Egípcios.

    1. Sobre o Papa Francisco e as suas inqualificáveis palavras relativamente aos atentados em França já tive oportunidade de me pronunciar aqui no DO sem rodeios.

  4. O “louco alemão” que o senhor aí em cima refere era, por sinal, socialista. Tão socialista que o seu estado tinha imensas práticas socializantes, tão do agrado dos “progressistas” dos nossos dias. Até a eugenia, por exemplo, tinha sido defendida pelo socialista Bernard Shaw.
    Quanto ao resto, as supostas justificações inventadas pela esquerda são do mais desonesto que pode haver. Vejam-se duas das principais, a pobreza e a exclusão. Se fossem reais, teríamos milhares de terroristas ( já nem digo milhões ) congoleses, ruandeses, chadianos, indianos, etc. Ora, quantos temos? um? dois? quanto à exclusão, há alguém mais excluído do que os não-muçulmanos que vivem em territórios islâmicos, vítimas de um apartheid que não choca os poderes do mundo? ou do que as vítimas do sistema de castas na Índia? e quantos optaram pelo terrorismo?
    Mas o que é que se há-de esperar de hipócritas que aqui, por tudo e por nada, gritam “racismo” e “homofobia”, entre outros, e ficam caladinhos quando homossexuais são lançados do cimo de prédios ou apedrejados?
    Mas quando o politicamente correcto chaga ao ponto de termos uma ministra austríaca a falar em “igualdade na lapidação” ( os homens devem ser enterrados até ao pescoço, como as mulheres ), isto já não tem solução.

    1. “Quanto ao resto, as supostas justificações inventadas pela esquerda são do mais desonesto que pode haver. Vejam-se duas das principais, a pobreza e a exclusão.”

      Nem é preciso ir aí para perceber a venalidade da Esquerda Marxista.

      Basta saber que os supostos excluídos querem excluir mais de 6 biliões de pessoas.

      Os Islamistas querem excluir as Mulheres – mais de metade da população – os Cristãos, os Judeus, Budistas, Hindus, etc…

      Quem não tiver a sua visão do mundo será dhimmi e subjugado.

      1. Não exagere. É claro que os terroristas são muito, muitíssimo piores. Essa defesa é clássica: pôr na boca do adversário o que ele não disse.

  5. O meu aplauso, Rui. Há anos que venho insistindo também nesta tecla. Criticando uma certa esquerda que usa e abusa da palavra liberdade para melhor a perverter, como aliás já Orwell alertara nos anos 30 e 40. A esquerda que milita tão fanaticamente contra a democracia liberal que é capaz de “compreender” e justificar as maiores atrocidades desde que se cometam contra os povos europeus e norte-americanos.
    Como se não fizesse ela própria parte dessas sociedades que tão generosamente acolhem os inimigos no seu seio.

    1. Pedro se vamos pelas atrocidades, tanto houve na esquerda radical, como na direita. São exemplos tão maus que basta lembrarmos-nos de alguns da direita: Hitler, Pinochet, Mussolini, Franco, Somoza…. Os da esquerda estão mais na memória de todos nós, não vale a pena citá-los. É melhor nem falar nesta gente, não vá alguém, lembrar-se de lhes seguir os passos.

    2. Exactamente, Pedro. Ou como se procurasse por via da tolerância perante a barbárie legitimar a destruição de um percurso democrático fundamentado em eleições livres e opções políticas que aí foram sufragadas.

  6. É lamentável de verificar como isto se tornar aqui nos comentários um debate entre esquerda e direita sobre quem mata mais gente. Não deixa de ser um bocado infantil. Sim, já sabemos que o Hitler e o Estaline mataram muita gente.

    É evidente que há uma grande hipocrisia na forma como parte da esquerda lidou com tudo isto que se passou nos últimos meses. Parte da direita também, a direita do “a liberdade de expressão só é boa quando é para atacar quem nós não gostamos” ou a direita á lá D. Duarte Pio “respeitinho, respeitinho.”

    A esquerda penso eu enfrenta vários problemas porque a sociedade civil mudou bastante no mundo ocidental e as lutas de “justiça social” tiveram também de mudar, só que a esquerda falhou em adaptar-se e desta falta de adaptação apareceram diversos paradoxos. O paradoxo por exemplo, do anti-semitismo por causa de Israel. O paradoxo do feminismo que diz que as burqas são liberadoras (não pondo eu em causa que há mulheres que usam véu porque querem e têm todo o direito a isso) mesmo quando mulheres no Irão dizem que são obrigadas a usar. O paradoxo de estarem calados quando um blogger na Arábia Saudita é condenado à morte, o paradoxo de não fazerem a critica a ditaduras só porque essas ditaduras apresentam-se como sendo anti-americana. O refúgio no relativismo cultural ou num passado colonial (Que certamente explicará muita coisa em relação a África e ao médio oriente por exemplo, mas não explicará tudo nem significa que não se possa condenar diversos casos e movimentos). O paradoxo de achar que a opressão é insuportável nos países ocidentais (onde sem dúvida há discriminação contra minorias) mas ignorar a muito maior opressão e falta de liberdade existentes em países como a India, Síria, Myamnar, Paquistão, Arábia Saudita, Turquia etc.

    O melhor comentário que li sobre isto foi um artigo no Huffington Post em que o autor (Karthick Manoharan) criticava Richard Seymour (que escreve na revista americana, Jacobin) que logo a seguir ao massacre do Charlie Hebdo escreveu um artigo com as balelas do costume: “ah porque eles eram racistas, ah porque eles desrespeitaram os muçulmanos e contribuiram para opressão, isto está tudo no Said”. O artigo do huffington post escrito por Manoharan terminava assim:

    A true leftist would realize that the attack on Charlie Hebdo is not merely an attack on a liberal freedom of press – it is an attack of a core Marxist value, namely, the ethical imperative to critically examine every ideology under the sun, and Islam is no special exception. For a leftist to ignore that is imbecility at its worst.

    As far Islamist terrorism goes, maybe the Left should remember what Robespierre, the patriarch of modern day revolutionaries, said – “To punish the oppressors of humanity is benevolence; to be benevolent to them is barbarism.” This, and this alone, is real Jacobinism.

    1. Não há paradoxo algum, é a natureza da coisa. O Marxismo não tem nada de “ethical imperative to critically examine every ideology under the sun”.

      O Marxismo construíu Totalitarismo por onde quer que andasse.

      E citar Robespierre um dos pais do Terror só pode ser para festejar a redundância.

  7. Ofereço uma viagem turística à Coreia do Norte ao “esquerdelho” que reconheça e diga haver presos políticos em Cuba…

    !

    1. A Coreia do Norte não é exemplo de nada nem para ninguém. São pessoas que vivem amordaçados a loucos que vivem para amordaçar os outros. Parem de dar exemplo da Coreia do Norte que não é exemplo de nada, ou melhor, são exemplo de estupidez pura e negra.

    2. Eu sou esquerdelho, reconheço que há presos políticos em Cuba mas não preciso da viagem à Coreia do Norte porque já lá fui.

  8. Excelente texto RR.
    Ser excelente em temas graves e ser excelente em temas de humor, não é para qualquer um. Parabéns.
    Não pare. Só quando lhe apetecer.

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