«Acho que esta questão ficaria mais clara (e, para mim, mais interessante) sem o exemplo concreto (do Banco Alimentar neste caso).
Eu resumiria a questão assim:
Quantas pessoas percebem o conceito de responsabilidade social mas não o o de responsabilidade cívica? Com um Estado ineficiente, não será a atitude mais racional ignorá-lo e suprir as suas faltas?
É uma pergunta engraçada para fazer em Portugal (cujo coração bate à esquerda, como diria o Financial Times), mas eu diria que a resposta por defeito (ou, como insiste um dos meus irmãos, “por definição”) nos Estados Unidos da América, por exemplo, seria “obviamente que é essa a atitude racional”. Penso que seria essa a resposta da maioria dos americanos (todos os conservadores e libertários, e ainda uma parte substancial de democratas). Nunca me esquecerei da pergunta intrigada do meu marido americano ao ver o lixo acumulado nas margens dum rio francês (obviamente muito amado e fruído pela população): “Porque é que as pessoas não o limpam???” Devo dizer que gostava de ouvir uma pergunta semelhante em português.
Quanto à questão da economia paralela, cinzenta, ou o que quer que se chame, enquanto nós falamos simplesmente de “fuga aos impostos”, os anglo-saxões (supostamente criaturas muito mais sérias nestas coisas) usam duas expressões, tax evasion (ilegal e, cá para a minha ideia, aplicável ao comum dos mortais que paga ao canalizador em dinheiro e sem IVA) e tax avoidance (legal e, naturalmente, aplicável a quem pode pagar a um contabilista, senão a um exército deles). Li algures que certos países têm legislação muito elaborada sobre a questão (e apresentam números muito baixos de economia paralela), enquanto outros países não se dão a esse trabalho e “contabilizam” um certo número de perdas (e apresentam números elevados de economia paralela). Claro que o principal problema desta última solução é a injustiça entre os cumpridores e os incumpridores. Por outro lado, o primeiro sistema não deve ser muito melhor porque o meu marido contou-me que uma vez entrou numa sala enorme onde estava guardado o Código Fiscal lá do sítio que ocupava estantes e estantes de apêndices a isentar este e mais aquele e mais aquele.
Não sei muito bem se isto tem alguma coisa a ver com o post inicial, mas acho que sim. De certo modo.»

