O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«Os pais gostam de proporcionar aos filhos uma vida melhor do que a que eles tiveram, mas incorrem facilmente no erro de os superprotegerem. Calculo que não será fácil encontrar uma fronteira entre o desejo de os ver felizes e despreocupados e a obrigação de os preparar para a vida. Não tenho filhos e “falar é fácil”. Penso, no entanto, que, se os pais tiverem consciência de que será igualmente útil que os filhos sofram desilusões ou falhanços e enfrentem desafios (sim, também durante a infância e juventude), apenas essa consciência já poderá ajudar. O importante é que eles, os pais, estejam lá, quando os filhos perdem o ânimo. Porque a verdadeira ajuda não é evitar que sofram desilusões e, sim, compreendê-los nos seus desgostos e infelicidades, dar-lhes os meios de saberem lidar com as agruras da vida (porque ela traz sempre agruras).
Permita-me, no entanto, chamar-lhe a atenção para o facto de que muitos pais fazem tudo pelos filhos por uma questão de comodismo. É verdade! Pela simples razão de que é muito mais fácil dar um peixe a um pobre que tem fome do que ensiná-lo a pescar. Neste último caso, é preciso perder tempo e ter uma paciência infinita para lhe explicar o processo, ficar a seu lado durante essa aprendizagem, apoiá-lo, aturar-lhe as primeiras tentativas desajeitadas, consolá-lo nos falhanços (e este consolo não passa por pescar por ele!), às vezes, fingir o resultado (ou melhor, pescar, sim, mas sem ele dar conta) para que ele não perca a motivação, etc., etc. Sim, é bem mais fácil, rápido e cómodo dar-lhe um peixe da nossa cesta cheia! Mas esse pobre estará novamente cheio de fome no dia seguinte, na margem do rio cheio de peixes.
O pior, na situação dos jovens de hoje, é que nunca aprenderam a pescar e agora, mesmo que o queiram, o rio já não tem peixes! O que os põe nessa situação absurda: gordinhos, bem tratados, com telemóveis e carros, vêem-se na necessidade de pescar. E é claro que gritam e protestam: “Não sabemos e nem vale a pena aprendermos, porque não há peixes”. A melhor solução será uma terapia de choque, mostrar-lhes que berram de “barriga cheia”? Não sei…»

 

Da nossa leitora Cristina Torrão. A propósito deste texto da Ana Vidal.

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