«É inegável a relevância do desempenho político de Sá Carneiro. Desempenho inicialmente feito juntamente com as outras personalidades da chamada “ala liberal”, incluindo os que tiveram uma morte infausta, na Guiné, em acidente com uma aeronave. Destes, Pinto Leite merece uma referência especial. Nessa altura estavam criadas as condições para uma transição democrática em Portugal, assim o tivesse querido o timorato Marcelo Caetano. Era então um jovem capitão, já com experiência da guerra em África, e posso afirmar que a grande maioria dos jovens quadros do Exército estavam dispostos a apoiar as reformas de Marcelo, incluindo a resolução talvez ainda a tempo da questão ultramarina, e a integração de Portugal nas democracias ocidentais. Dou assim inteira razão à postura política de Sá Carneiro, que à época foi de enorme coragem e coerência.
Após o 25 de Abril já não concordei com o apoio que deu a Spínola no sentido de através de um referendo e contra o que estava escrito no programa do Movimento das Forças Armadas se tentasse sufragar sem mais, isto é, antes da eleição de uma Constituinte, a figura de Spínola como Presidente da República. Julgo, mas é uma mera suposição, que Sá Carneiro acreditaria na solução federalista de Spínola, solução essa que estaria condenada ao fracasso e não resolveria nenhum dos problemas que se punham a Portugal à época.
A sua animosidade com Ramalho Eanes radicou essencialmente no facto de Eanes, apesar de ser um homem de direita e profundamente conservador, e de quem tenho aliás o privilégio de ser amigo, ser antes de tudo um legalista, um legitimista e a quem nunca passaria pela cabeça atropelar em nome de qualquer solução política de conjuntura a sua jura de defesa da legalidade constitucional.
Basta ler o programa eleitoral de Soares Carneiro, obviamente escrito e inspirado por Sá Carneiro, para verificar que este continuava a procurar obstinadamente a via referendária para queimar etapas e resolver a questão do chamado “regresso dos militares aos quartéis” ou ainda da “libertação da sociedade civil”, como panaceia para todos os males da Nação. Só que o tempo político não era o adequado, o nosso destino era a Europa, e para esse efeito o homem do leme era Mário Soares.
Os comunistas, como sabe, foram derrotados nas eleições para a Constituinte em Abril de 1975 e obrigados manu militari em 25 de Novembro a aceitarem os resultados. Em 1976 foram novamente derrotados nas urnas e passaram à história como força política capaz de integrar o arco governativo. Que sentido fazia a partir daí, tal como fez Sá Carneiro, continuar a luta política com um argumentário anticomunista muito básico, pretendendo meter Ramalho Eanes nessa trapalhada ideológica?
É desse ponto de vista que discordo de Sá Carneiro, apesar de ter tido, como referi no meu primeiro comentário, uma desagradável questão pessoal com ele.
Outra coisa é admitir, e eu admito francamente, que a qualidade da personalidade de Sá Carneiro está a milhas de distância da generalidade dos figurões da “nossa” classe política. Mas isso são contas de outro rosário…»
Do nosso leitor Rodrigo Sousa e Castro. A propósito deste meu texto.


Excelente texto, Pedro.
Não conhecia o autor, mas só prova, se tal ainda fosse necessário, que se escreve muito bem na blogosfera.
Concordo, Pedro.
O nosso comentador da semana é um visitante ilustre. Militar do 25 de Abril e do 25 de Novembro, um dos signatários do célebre Documento dos Nove, no Verão Quente de 1975. Testemunha viva de tantos momentos escaldantes que já fazem parte da nossa História. Com agá maiúsculo.
Estupendo comentário de uma figura envolvida até à medula.
Excelente comentário, de grande lucidez, que coloca tudo no seu devido lugar.
Temos uma tendência natural para colocarmos tudo no preto ou no branco, o que não serve na maior parte das vezes, a ninguém. Neste caso em especial, não mesmo.
Foi, sem dúvida, um homem notável, que a História não pode esquecer, mas a sua impulsividade e radicalismo toldavam-lhe por vezes a visão, como muito bem se lê no texto e seus comentários, a que se faz referência, do PC (leia-se, Pedro Correia …).
Agora, bem …fica mesmo a anos-luz da maior parte dos que bem conhecemos há muitos anos!!!!
E o pior, é que grande parte deles, nos últimos tempos, têm pilhas duracelll, duram, duram, duram …indiferentes ao prazo de validade.
Cheia de razão, caríssima. Subscrevo, naturalmente.