O comentário da semana


Pedro Correia,

«Sócrates, o Grego, deixou à humanidade uma filosofia alicerçada na dúvida. O legado de Sócrates, o luso, é uma nova epistemologia da dívida. E também do défice. Sócrates, o nosso (salvo seja), nega que se possa alcançar o verdadeiro conhecimento dos respectivos valores (é certo que falar aqui em valores nos remete para a ética e isso é coisa que manifestamente não vem ao caso). Tem, neste particular, algo de platónico. Nós, os cidadãos e contribuintes, estamos numa Caverna e tudo o que vemos são sombras. A nossa visão não alcança a realidade das derrapagens, da desorçamentação e das parcerias impúdico-privadas. Mas isto é assim para nosso bem. Se soubéssemos a verdade, ficaríamos angustiados. Assim, como se vê, vivemos em entusiástica celebração. Chama-se a isto a Alegria da Caverna. Esta nova epistemologia não trata da evidência. É evidente que estamos falidos. Mas isso não interessa nada. Em contrapartida, é uma epistemologia que valoriza a eminência. Promove-a aos mais diversos cargos da Nação. Sobretudo se for parda. Muito mais quando nos aproximarmos do fim do ciclo político. Inovadora como é, a abordagem socrática não se analisa com métodos tradicionais. Por exemplo, para este fenómeno não nos serve a visão estreita e comum da Economia ou da Ciência Política. A maior parte dos analistas económicos e politólogos da praça não foi capaz de antecipar o desastre. O facto de dependerem servilmente do poder também pode ter ajudado. Mas Sócrates é um Cisne Negro. A sua (dele) incompetência podia adivinhar-se. Tirava-se pelo Pinto. De Sousa. Mas era absolutamente imprevisível na sua magnitude. A compreensão global de Sócrates é do domínio da Ciência Apocalíptica. Apenas os apocaliptólogos como Medina Carreira dispunham do quadro mental adequado a antecipá-la na sua dimensão. Estou convencido que nem o Ministro 7UP o compreendeu na sua plenitude. A característica distintiva de um bom economista é falhar a maior parte das previsões. Teixeira dos Santos há muitos anos que não acerta uma. É, portanto, um economista com competência muito acima da média. O pressuposto básico da economia é a escassez de recursos. Economista de excelência, Teixeira dos Santos não podia imaginar que Sócrates tem um potencial de destruição inesgotável. Um e outro são a cara e a coroa da Bancarrota. Tu lavas e eu limpo. Tu enganas-te e eu minto. Teixeira dos Santos gravou-nos o erro técnico na pele. Sócrates talhou-nos o seu corte epistemológico na carne. Esta chaga que ostentamos no peito chama-se ruptura social.»

  

Do nosso leitor Rui Rocha. A propósito deste meu post.


6 comentários em “O comentário da semana”

  1. Excelente comentário.
    Análise fantástica e infelizmente realista do nosso pais.
    Valha-nos a clareza das ideias e a excelência da escrita.

  2. Caro e Amigo Rui:

    Quem te conhece sabe que tens uma ironia fina e apurada aliada a uma crítica corrosiva de estilo britânico. É um comentário brilhante que põe a nu a desorientação política em que navegamos à deriva. A pretensa comparação que fazes entre o Sócrates de Atenas e o Sócrates de Lisboa no que diz respeito à sua epistemologia é deliciosa. Contudo, se me permites gostaria de acrescentar que o Sócrates de Atenas tinha uma máxima que Sócrates Pinto de Sousa renegaria em qualquer circunstância: “Uma vida não examinada não merece ser vivida”. Se Sócrates, o Lisboeta, tomasse essa regra como orientadora da sua vida e dos outros, chegaria à conclusão de que a realidade económica, financeira e política do país, não é uma ilusão e, portanto, não vivemos todos na penumbra platónica das sombras, mas na contemplação do esplendor da verdade: estamos falidos, gastamos mais do que produzimos, temos horror ao mérito e ao confronto com a inovação, aligeiramos as nossas angústias com medo de perder as nossas falsas certezas, preferimos o clientelismo e o cinismo realista da comédia portuguesa: é preferível manter tudo como está, muito mal diga-se, a arriscar uma solução que nos retire falsos privilégios que comprometem o presente, o nosso, e o das gerações futuras, o dos nossos filhos.
    Espero pelo teu próximo comentário.
    Carlos Alves

    1. Obrigado, Carlos. As tuas palavras são certamente influenciadas pela nossa grande amizade. Mas tens toda a razão quando referes a só valer a pena viver uma vida que pode ser examinada. E partilho a tua preocupação quanto ao futuro dos nossos filhos. Aproveito para te convidar a aparecer aqui no Delito sempre que puderes. Vais ver que vais gostar. Um abraço amigo.

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