O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«Eu fiz a escola pública toda do princípio ao fim, que no meu tempo implicava 7 anos de francês e 3 de inglês. O ensino era o mais escolar possível, tempos primitivos dos verbos e tudo o mais, nunca ouvi uma lição em cassette nem nada dessas modernices. Graças aos Tintins e Astérix lá de casa, acabei com um francês perfeitamente “proficiente” (é aqui que entra o “interesse”, que é fundamental para aprender uma língua). Os 3 anos de inglês (2 horas por semana) não chegaram, mas um ano numa dessas escolas de línguas estilo British Council foi o suficiente para me dar pernas para andar.
Os meus sobrinhos também fizeram o liceu público e o inglês deles é perfeitamente razoável. O francês é bastante mais fraco, mas se calhar também lhes bastava fazer o que eu fiz com o inglês… se tivessem o interesse que eu tinha no assunto, claro.
Passei a minha vida profissional praticamente toda no estrangeiro (França e Bélgica) e uma boa parte num ambiente multicultural. Tenho vários amigos suecos cujo inglês (aprendido na escola primária) é excelente, mas a segunda língua é praticamente inexistente. Isto é que é a regra, e o comum dos portugueses sobressai pela capacidade de comunicar em duas línguas estrangeiras, o que não é de todo vulgar. Se há coisa de que não nos podemos queixar na comparação “lá fora” é no ensino das línguas.
É claro que seria óptimo que os nossos miúdos falassem tão bem inglês como os miúdos escandinavos. Mas na minha experiência, aprender duas línguas menos mal é um enorme trunfo: primeiro, porque quanto mais línguas se aprendem mais fácil é aprender as seguintes; segundo, porque em terra de zarolhos, quem tem dois olhos é rei.
Outra coisa completamente diferente é o mau “estrangeiro” de um primeiro-ministro. Enquanto que eu acho que, mesmo mau, é infinitamente melhor do que nenhum em privado (várias vezes li referências às dificuldades pessoais entre o Kohl e o Mitterrand que tinham alguma coisa a ver com a incapacidade de comunicarem directamente um com o outro), parece-me evidente que, em público, deve falar de preferência a sua língua e recorrer a um intérprete (como Sócrates fez nas Nações Unidas, claro). Como não segui esta anedota, não sei se a Universidade de Colúmbia lhe pôs ou não um intérprete à disposição (é possível que não); se não pôs, é possível que ele tenha considerado preferível falar um mau inglês do que não falar de todo, o que eu, pessoalmente, acho defensável. Não fosse a triste história do Inglês Técnico tirado ao domingo, a coisa talvez tivesse passado despercebida. Mas… cá se fazem cá se pagam!
Por duas razões: quanto mais línguas se aprendem, mais fácil é aprender outras e, portanto, ter duas à partida facilita imenso as coisas; segundo, porque um inglês razoável muita gente tem
.»

 

Da nossa leitora Isabel PS. A propósito deste texto do João Campos.

11 comentários em “O comentário da semana”

  1. A propósito do Kohl e do Miterrand, deve-se dizer que Kohl, para além de não saber falar qualquer língua estrangeira, também não sabia falar a língua oficial do seu próprio país. Ou seja, não sabia falar alemão proficientemente. O que ele falava era o dialeto da sua região natal, o Palatinado (Pfalz). E não era pouco gozado por esse facto.

    1. O que não o impediu de ser um dos melhores estadistas europeus dos últimos 30 anos, responsável pela bem sucedida reunificação alemã, contra a vontade de russos, americanos, franceses e britânicos.

      1. Pois, se calhar o mau entendimento entre esses dois vinha mais do facto de o Miterrand não gostar nada que lhe fizessem sombra…no sentido próprio e figurado, e o Kohl fazia as duas coisas. Ainda me lembro de ouvir falar do helicóptero do ami Miterrand às voltas, às voltas, a fazer tempo para ter a certeza de que seria o último a chegar a um Conselho Europeu…

        Já agora, peço humildemente desculpa pelo monte de gralhas, nunca imaginei que ficassem tão em evidência.

          1. Quero dar-lhe os parabéns, Isabel. Numa semana em que não faltaram óptimos comentários, o seu foi o melhor. Espero que continue a aparecer por cá.

          2. Muito obrigada, mas acho realmente um exagero! Aparecerei com certeza, porque gosto deste sítio, assim variado e pouco dado a histerias, mas tenho tendência para só comentar quando estou em desacordo, não levem a mal… Gostava que houvesse aqui um daqueles polegares para cima para mostrar aprovação, já tinha dado vários 🙂

          3. A ideia era não ter de entrar, escrever, etc, era mesmo dar uma de preguiçosa, clicar num botão e está a andar 🙂

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