«Já ninguém tem paciência para os grandes russos, o Dostoievsky e o Tolstoi e as as suas angústias existenciais e morais. Lemos, quando muito, os contos do Tchekov e do Gogol, porque são curtos e pitorescos (obras-primas, claro) e é um pau. Vivemos todo o ano para a literatura de praia. Até a largura das lombadas já nos assusta e afasta. E dá-se uma importância exagerada, por um lado ao Bloom, por outro ao Nabokov. Compramos o Cânone para sabermos o que ler (e orgulharmo-nos por causa do Pessoa…) e lemos o segundo para confirmarmos as nossas irritações, e ficamos aliviados quando o Nabokov nos confirma que é mau um escritor que já achamos mau, dispensando-nos o trabalho de o ler. É uma questão de economia de esforços.
O Thomas Mann é datado, é esse o problema, não tem a universalidade que tem um Shakeaspeare, no sentido em que são eternos os “retratos” e conflitos deste. O Mann retrata a sua época, as preocupações e ideias da sua época, um mundo em decomposição. É por isso que ele foi perseguido e o Shakespeare não o foi, nem justificaria que o fosse (à parte os moralismo da época isabelina). O Mann já era decadente (foi acusado disso no país dele) na altura e continua a sê-lo. Quem quer saber o que pensava um europeu daquela altura, e como era uma grande parte da Europa, é importante que o leia. Isso também é literatura e é também por isso que julgo importante ler também o Victor Hugo ou o Dickens, por exemplo. Há uma “obrigação moral” de ler? Se calhar há, mas hoje em dia podemos ser ridicularizados por dizer isto.
Tenho andado a ler o Aquilino e dá uma trabalheira danada. A sua linguagem já não é deste mundo e a leitura é mais lenta do que noutros escritores mais modernos. Já na altura em que escreveu a maior parte da sua obra estava fora do tempo literário. Não estou a ver a próxima geração a pegar nele, a não ser alguns académicos excêntricos. Mas “obriguei-me” a ler a sua obra toda e dá-me muito mais prazer do que ler Borges, por exemplo, prazer genuíno.
Não vou ler o Bolaño por enquanto (se calhar nunca o vou fazer), simplesmente há muitos livros mais antigos que ainda me faltam ler. Se estiver a perder um grande escritor, paciência, não me preocupo muito. Acho que também nunca vou ler o Roth.
Mas o que leio mais são mesmo policiais. Há muitos escritores de policiais que, para além de serem bons, têm a vantagem de se lerem rapidamente. A Agatha Christie, a PD James, o Peter Cheney, uma data deles muito variados.»
Do nosso leitor Pedro. A propósito deste meu texto.



Por causa do “comentário da semana” li o teu post sobre a influência da literatura nas nossas vidas, que me tinha escapado. E parece-me que o tema principal do teu texto ficou esquecido pelo caminho nos comentários, que resvalaram logo para as preferências e antipatias apaixonadas de cada um sobre os “seus” escritores. O que já diz tudo sobre o assunto: não acho que a literatura em si, como um todo, mude a vida de ninguém. Vive-se perfeitamente sem ela e há até verdadeiros filósofos analfabetos. Mas quem lê sabe bem que há certos livros (e certos escritores – quando um livro de um determinado escritor nos marca muito, vamos à procura dos outros todos e às vezes é uma decepção) que mudam realmente a nossa vida quando os lemos porque de alguma maneira nos tocam especial e profundamente nesse preciso momento da vida: são esses os “nossos” livros, e são esses os que nos dão o impulso irremediável da literatura, que não tem retorno. Mas podem ser até de escritores considerados menores, não interessa. São os livros certos no momento certo, e isso não se explica se não emocionalmente. Quem lê só por dever intelectual, seguindo os cânones porque tem de ser, nunca saberá o que é o verdadeiro prazer da literatura e nunca defenderá ou atacará um livro com paixão.
o impulso irremediável da leitura (e não da literatura).
Ainda bem que deixaste este comentário, Ana. Porque o que pretendi dizer foi precisamente isso: até que ponto nós, que vivemos na civilização do Livro, sentimos que a nossa vida possa ter mudado pela leitura de uns quantos livros ou de uns quantos autores? O debate seguiu noutra direcção, mas o meu ponto é este: pode haver livros que nos tocam tanto que mudam a nossa vida – e esses livros até podem ser de autores considerados menores pelos especialistas na matéria.
Era aí que eu queria chegar. E podia dizer o mesmo em relação a filmes. A vida da Ingrid Bergman, por exemplo, mudou radicalmente quando ela assistiu a um filme de Roberto Rossellini, ‘Roma, Cidade Aberta’. Hei-de voltar ao tema, que me parece inesgotável.
Volta, Pedro, volta quando quiseres e puderes, que a gente está cá para te acompanhar na leitura desse regresso.
Aquilo que tu (vós) dizes (dizeis) tem para mim exemplo próximo e recente na leitura de alguns textos/livros de Marcello Duarte Mathias .
A leitura do Diário da Índia , mas em especial do Diário de Paris, impressionaram-me profundamente pela força e autenticidade das palavras (como também aconteceu ainda agora nas férias com o valter hugo mãe e a sua “máquina de fazer espanhóis”, mas aqui creio que mais pela força do tema).
Para mim, MDM não é seguramente um autor menor, ainda que para muitos não seja reconhecido como um consagrado. Mas é indiscutivelmente um dos melhores, no seu estilo, e senhor de uma escrita admirável na sua elegância, estilo e correcção linguística.
É inesgotável, de facto. E essas histórias de livros e filmes que mudaram vidas dariam uma série bem gira.
Mykola Nikolay ) Gogol foi escritor ucraniano, que por várias razões escrevia em russo. Mia Couto não se torna escritor português pelo facto de escrever em língua portuguesa.