«A primeira casa que eu tive verdadeiramente minha, por singular sorte nunca foi.
Tinha 33 anos quando a comecei, num terreno de mil metros oferecido pelos meus pais ao casal, eu filho e ela nora; repleto de mangueiras, abacateiros, mamoeiros e um cajueiro.
Até aí os meus pais não se serviam dele, tirando o proveito dos frutos, claro.
Depois lembrou-se que aquilo dava muito jeito para ter a nora e as netas em Luanda quando viu preparativos de abalada da nora e netas queridas para outras paragens – o filho também ia mas por esse não lhe doía a cabeça – e convenceu-me a construir ali a minha casa.
Mostrei-me reticente, a minha mulher advogou em meu favor que tínhamos melhor futuro em Benguela, então para me incentivar colocou lá pessoal das obras dele – era construtor civil – e como quem dá o pão dá também a manteiga, os materiais também vieram das obras dele.
Comecei portanto a construção dessa casa em Setembro de 1973 e em Março de 74 estava concluída.
A minha mulher adorava a casa, os meus pais adoravam que ela adorasse, eu adorava que ela risse de modo que não andava descontente.
Uma semana antes de mudarmos para lá apareceu-me o “povo” angolano e travámos uma esclarecedora discussão. Curta mas conclusiva. Tipo.
– Então? De que se trata?
– Ó colonialista. Fizeste uma casa bonita. Agora sai daqui que a casa é do povo.
E foi assim.
Fora do assunto casa e só a título de curiosidade, que obviamente a ninguém interessará, e só porque uma vez que se conhece o canteiro conheça-se então a lavra toda; uma semana depois passei pelo banco a ver se conseguia sacar o meu dinheiro, e fui recebido com pompa e circunstância por um exército ferozmente armado, onde por singular afinidade o diálogo sobre dinheiro pouco ou nada diferiu sobre o outro da casa.
– Ó colonialista! O dinheiro é do povo.
Mas vinguei-me! Quando o pessoal da minha casa se apresentou no fim do mês para receber, eu esclareci-o a preceito.
– Ó gente. Não tenho dinheiro, pá!
– Não tens?!
– Não! Vocês são povo, não são? Então ide ao banco que o vosso dinheiro está lá.»
Do nosso comentador Corvo. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

O Corvo é o Ronaldo textual
do DO. Abraço
Muito interessante, gostei de ler.
“apareceu-me o “povo” angolano”
O povo angolano nunca existiu.
“- Ó colonialista. Fizeste uma casa bonita.”\
Colonialistas também não.
Tudo fake news.
Revejo a história dos meus pais, e por isso a minha, em tanto deste comentário, embora no nosso caso o palco fosse Moçambique.
“Revejo a história dos meus pais, e por isso a minha, “
Eu também vivi em Benguela. Mas eu sou preto. Foi tudo ao contrário.
Eu nunca estive em Angola, mas sim em Moçambique.
Não percebi bem o seu comentário, o que é que foi ao contrário e o que é que a cor da sua pele tem a ver com a minha resposta?
O homem novo que veio das matas.
Hoje vê-se melhor.
Muito bom Corvo, muito bom
Um dos inúmeros mimos da descolonização exemplar
Dava mais um livro. Ou outros cem. Ou mil. Ou uma biblioteca inteira.
Subscrevo, Pedro Correia.
Todos falam na desgraça da descolonização. Contudo nunca li outra forma, mais perfeita, daquela empreendida. Passaria pelo quê? Armar milicias brancas portuguesas ao estilo da Organisation Armée Secrète ? Mandar para Angola milhares de portugueses continentais para continuar a guerra? Contrariar o desejo dos USA, e do Concelho da Segurança da ONU, pela independência das colónias?
A maioria branca empochou à custa da miséria preta….e os que lá ficaram, em nome da libertação do jugo colonial branco, fizeram exactamente o mesmo. Bjs e abraços.
É de assinalar a grande era de prosperidade que se verificou nas ex colónias portuguesas, depois do “preto” ter corrido com o colonialista branco após a descolonização exemplar.
Quem se viu obrigado a partir deixou a teta exaurida e seca? Muito longe disso , Pedro.
“depois do “preto” ter corrido com o colonialista “
Em todos o lado foi uma desgraça terem corrido com o colonialista. Os colonizados não sabem agradecer.
Ia referir isso: isso dos meros “danos colaterais”, inevitáveis e perfeitamente naturais – coisas afinal menores, notas de rodapés de rodapés dos manuais aprovados, e verdadeiramente sem responsáveis a quem exigir contas (a não ser, claro, as vítimas) – de um momento tão alto da nossa história contemporânea.
Costa
Tentando perceber a ironia.
Isabel
Não há grande ironia na coisa (supondo que tenta perceber o meu comentário acima). Vejamos:
– a descolonização promovida pelo estado português, na sequência de Abril de 1974, foi longamente tida como “exemplar”; exemplar, presume-se, no sentido de especialmente bem conduzida.
– sendo essa a verdade consagrada (poderei estar errado, mas não creio que tenha ainda ocorrido qualquer forma de admissão – com carácter oficial, pelo menos, seja do estado português seja dos estados desse processo nascidos, do desastre em que tudo aquilo resultou – ainda que tímida), o regresso massivo de cidadãos portugueses, vulgarmente tidos como “retornados”, nos termos em que foi feito, mais não terá sido do que uma consequência menor, um dano colateral, que o bem maior da descolonização plenamente justificou e legitimou.
– ou seja um dos “mimos da descolonização exemplar”, nas palavras (que evidentemente subscrevo) da comentadora anterior e que se antecipou – e muito bem – ao que aqui gostaria eu de comentar.
E, tudo visto, a julgar pelos comentários entretanto por aqui publicados, esses retornados, ainda geral e dogmaticamente tomados como exploradores sem perdão, deveriam talvez e sem apelo ter merecido bem pior sorte. O que só comprova como estará de facto solidamente implantada entre nós a ideia de que a descolonização portuguesa foi exemplar.
Uma desgraça nunca vem só.
Costa
Na qualidade de efeito colateral, nota de rodapé ou mimo tenho uma versão menos ‘bonitinha’ da coisa. Ainda assim, bastante feliz. Agradeço ter nascido em Angola e agradeço ter vindo, ainda bebé, em Janeiro de 75 para o gelo do Norte rural de Portugal, que me curou.
Passei a adolescência inteira a sonhar voltar a Angola. A desejar uma Angola em paz e próspera (sim, tal qual os discursos das Miss).
Só regressei por umas semanas em 2005, com convite para ficar, mas confirmei que as altas temperaturas e humidade de Luanda não são para mim, nem a vida de empresa-Hotel, entre estrangeiros, com passeios ao fim-de-semana ao Mussulo, desfasada da Angola dos angolanos.
Há-de haver outra oportunidade de voltar, quem sabe ao Sul, onde o clima é melhor.
Fui e hei-de ir, como há 96 anos o meu bisavô foi, como há 56 anos os meus pais foram, como há 17 anos o meu companheiro foi. Fomos e viemos. Como compete ao português, não nos esquecemos nem de ir nem de voltar. Para Angola ou o Brasil, ou qualquer parte do mundo.
Isabel
Eu nada encontro, creia, de “bonitinho” no que nos trouxe a por aqui trocar comentários. E exemplar sê-lo-á por razões longe de ser felizes.
De resto, bem gosto eu do gelo do norte rural de Portugal (mas, permita-se-me, sem abdicar dos confortos que o amenizem).
E o desejo de uma Angola em paz e próspera não é coisa de discurso de miss. É de gente de bem. Angola e todo o mundo.
Costa
E a farramenta? De quem era a farramenta?
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
da Lima dourada moravam os seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China, para onde
foram os seus pedreiros? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
só tinha palácios
para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
na noite em que o mar a engoliu
viu afogados gritar por seus escravos.O jovem Alexandre conquistou as Índias.
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos.
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
B. B.
https://www.wook.pt/livro/espelhos-edua rdo-galeano/22075210
Não foram tempos fáceis, não.
Só se viam barcos e aviões a transportarem pessoal para Portugal, retornados como a malta de cá lhes chamava, e se insurgiam contra o retornar à Pátria que depois de andarem a colonizar os “pretos” só faltava mesmos que viessem colonizar os brancos de primeira. Não faltava mesmo mais nada.
Mas eu não. Para Portugal nunca! Fazer o quê? Pedir uma sopinha aos familiares?
Investiguei, falei, informei-me e dei rumo à minha vida fora de Angola. Para Portugal vim quando me considerei independente para não precisar de ajudas de ninguém.
Hoje posso dizer com orgulho para a pátria que me viu nascer, Portugal, que sou para com ela incomparavelmente mais credor que devedor.
Nasci grande, (5,400 Kgs) vivi grande e hei-de, se Deus me guardar o pensamento que sempre me norteou, morrer grande.
“Só se viam barcos e aviões a transportarem pessoal para Portugal, retornados como a malta de cá lhes chamava”
Muitos anos antes vi outras coisas. Mas eu vi tudo ao contrário.
Também eu, Matotolo. Como resultado das guerras entre as tribos africanas, onde se inclui as tribos do território hoje designado por Angola, viu-se africanos serem vendidos como escravos a árabes e europeus, para engordarem as tribos e os chefes tribais que alternadamente as venciam.
Andam muitos a contar mal uma história que suja as mãos de todos.
Eu não tenho preconceito nesta matéria. A história é o que é; e quem quiser fazer melhor, faça diferente. Angola sem os portugueses não existiria no quadro das nações. Não faça como alguns brasileiros, que para justificarem sua inépcia e ignorância arranjam Portugal e os portugueses, que lhes ofereceram um país de dimensão continental, como bode expiatório das desgraças que eles mesmo constroem e aceitam. Há quem pense e viva como escravo a vida toda. São como pássaros com a gaiola aberta, mas que dela não voam e não querem voar.
“que para justificarem sua inépcia e ignorância arranjam Portugal e os portugueses”
Tolice dos brasileiros. São ineptos e ignorantes. Os portugueses são os melhores do mundo, disse Marcelo Rebelo de Sousa.
É facto que os portugueses não são os melhores do mundo.
Também é facto de que muitos brasileiros são ineptos e ignorantes, ao ponto de perguntar aqui em Lisboa, por exemplo, como se diz tangerina em português e até de olharem para mim, devidamente identificada no meu local de trabalho em Lisboa, e talvez por causa de tantas vezes me ver grega com eles, me perguntarem se falo português. E não aconteceu uma vez, nem duas, nem três, nem…
“como se diz tangerina em português” E já agora, sabe como se diz diospiros em brasileiro?
Tem piada, essa do “brasileiro”.
Eu acreditava, e os habitantes do Brasil também, pelo que consta, que por lá se falava e fala português.
” que por lá se falava e fala português.” Puro engano. Só Malaca Casteleiro engole essa.
Os portugueses são os melhores do mundo. Demos na trombeta aos castelhanos, em Aljubarrota, e hoje vivemos como irmãos. Não nos desculpamos com eles nem com ninguém, a não ser de nós mesmos.
Para esses que tanto se queixam e cospem na mão de quem lhes dá e deu o pão, pássaros de gaiola aberta que não voam e não querem voar, devíamos ter enviado a nossa padeira de pá em riste em vez de lhe darmos de bandeja nozes sem terem dentes.
Nenhum deles adquiriu a independência por mérito próprio. No caso de Angola, graças a alguns criminosos do puto ditos revolucionários, que fizeram perseguir os brancos, alguns negros e mestiços aí residentes, receberam de bandeja uma pérola que se transformou em motivo de guerra fratricida.
No caso do Brasil, não tivesse o rei proclamado a independência e hoje o Brasil seria uma potência, como Angola se estava a transformar antes de 1974.
Portanto, o erro de Portugal foi não deixar os portugueses juntamente com os povos dessas nações continuarem com o seu excelente trabalho. Não foi por acaso que o governo brasileiro tanto se empenhou em querer absorver esses que das colónias foram escorraçados, para fazer progredir a economia e a sociedade brasileira. Como de facto aconteceu e sempre acontece onde existe um português.
Os norte-americanos, canadenses, australianos, sul-africanos… também têm em boa memória esses que acolheram saídos das ex-colónias. Nos USA, o primeiro e grande avanço bem sucedido, entre outros, que se dá na área da fertilização de gado bovino ocorre precisamente com a experiência e o saber de “retornados” de Angola.
Portanto, essas aves canoras que se armam em vitimas deviam melhor conhecer a história e a sua própria história, que é também de sua inteira responsabilidade.
Em conclusão, esses que tanto se desculpam de sua inépcia e ignorância com os portugueses, só algaraviam o estatuto de escravos. Estão na condição que desejam e procuram.
Os cabo-verdianos são um povo inteligente e laborioso, bom anfitrião e generoso com Portugal. Eles serão grandes mesmo sem possuírem as riquezas naturais de outros. São irmãos do peito, são nossos “bróders” (à inglesa diz-se brothers/irmãos). Têm também excelentes governantes.
Espero que Bolsonaro e o actual Presidente de Angola possam mostrar a esses e essas queixosas como é possível mudar um país com gente laboriosa e empenhada, como são os portugueses.
Tem alguns pontos muito válidos, pelo menos na minha óptica.
A minha admiração genuína
Obrigada, Corvo.
(suponho que é o que aos muitos portugueses nascidos em Angola apetece dizer.)
Isabel
“é o que aos muitos portugueses nascidos em Angola ” E o que apetecerá aos que não sendo portugueses nasceram em Angola?
O que apetece dizer aos angolanos? Talvez dizer, escrever o que quiserem. E a mim, apetece sobretudo lê-los.
Julgo que é assim que a coisa funciona num espaço livre.
Isabel