O comentário da semana


Pedro Correia,

«A promessa da Tecnologia era aliviar o fardo do Homem (material e espiritual). Mas este anda cada vez mais dobrado (física e animicamente).
Existe uma desadequação do nosso organismo à pressa dos tempo modernos (estar sempre disponível), evidente, hoje, na quantidade abstrusa de doenças do foro psiquiátrico – num futuro próximo os perturbados serão tantos que será tarefa homérica aos sãos provarem que o são – a definição de doença terá de ser revista.

Aproximámo-nos (contando com as deslocações), desde os finais do século XX, aos horários laborais do final do século XIX (em que se trabalhava cerca de 12 horas/dia, e com o local de trabalho mais próximo ao de residência). Paradoxalmente, ao passo que estes lutaram contra esse abuso – pois o sábado foi feito para o Homem – hoje, os contemporâneos medem-se, como homens de virtude, pelo tempo que passam no trabalho (o ócio, uma vergonha escondida; mas é pelo ócio que se formam cidadãos. Que nos formamos como “animais” políticos; não existe política sem tempo para o ócio; veja-se o que dizia Aristóteles no seu Tratado de Politica).

Hoje o homem moderno é um ser unidimensional – Marcuse – (vive no trabalho, e para o trabalho). E por essa unidimensionalidade surge a sua ignorância – somos hoje ignorantes profissionais. Espantoso é orgulharmo-nos disso. Dessa ignorância.

Contudo sinto um “mau estado geral no ar”.

As pessoas sabem o que está mal, porque estão mal, mas sentem-se impotentes para mudar – entretanto vão sendo felizes, comprando – já não o sabem ser de outra forma: é feliz quem consegue comprar; hoje a felicidade é um cartão de débito.

O clima é semelhante ao vivido no prelúdio da I Guerra Mundial, em que todos ansiavam pela guerra, pois só esta tinha a capacidade de gerar a mudança. A guerra vista como uma vacina para a decadência.»

 

Do nosso leitor Conde de Tomar. A propósito deste meu texto.

15 comentários em “O comentário da semana”

  1. A série, cujo título patenteia, foi das melhores britânicas, que passaram em Portugal. Tal, como séries british, são educativas e instrutivas, no sentido da responsabilidade, urbanidade, conviver socialmente correcto. Igno a verdade de tudo isto, mas aprecio a estética da correcção elegante e de fair-play. Viver honestamente, não prejudicar o próximo, dar a cada um o que é seu. O mínimo.

    1. Também o é.
      Gosta muito de quem é chamado “Líder Histórico” em vez “Ditadores”.
      Também gosta de coisas que são chamadas de “Revoluções” em vez de serem chamadas de “Golpes”.

      Tudo pelo Newspeak.

      1. Causas da Decadência dos Povos Peninsulares:

        “Foi dito que a Câmara dos deputados, composta por imbecis e ladrões, não representa a maioria dos votantes. Isso é falso! Pelo contrário, uma Câmara formada por deputados que são idiotas e ladrões representa perfeitamente os eleitores que vocês são. Não protestem. Uma nação têm os líderes que merece!”

        Atenção!! Não atribuível a Quental.

      2. Concordo consigo que o fascismo e o socialismo ortodoxo apenas chegam ao poder pelo golpe ou, mais ou menos democraticamente, pela cisão entre os grupos do chamado arco da governação (aconteceu isso em Itália, na Alemanha, na Espanha e em Portugal) que surgem, frequentemente, nas chamadas crises do sistema – veja-se ainda o governo actual, em Portugal , onde o BE e o PCP “sentam-se à mesa do poder” pelas desavenças entre PS e PSD.

        Sim, Socialismo e Fascismo compartilham um ideário revolucionário, sendo a democracia, para ambos, uma forma degenerada e medíocre de governação. A forma burguesa.

        A democracia burguesa tem como única visão eterna o chão que pisa. A vida baça, que embaça. Da meia medida. Do “nim”. Da proporção das formas pequenas. A democracia vive através e pelo medo – morte, doença, velhice. A democracia viça apenas a cobardia. A democracia tranca-se ao sonho e à nobreza do Ideal (o ideal que comanda a vida).

        O fascismo e o socialismo viram os olhos para o céu. Para longe. Os seus modelos são as escalas imperiais, a obra desmesurada -a proporção das formas gigantes. Têm como modelo Nimrod. Querem levar o homem pelas alturas. Falar com os deuses. O seu discurso é por isso emocional, antirracional (sobretudo no fascismo, onde a mitologia/ocultismo estão muito presentes). Brutal, ao mesmo tempo Religioso. Cultuam a Morte, pois é pela morte que a Vida ganha dimensão (o epitáfio é uma Ode à Vida).

        Louvo no fascismo essa tentativa de desconstrução do projecto humano democrático. Desse humano anão, que se arrasta calçado, e que contempla, como Templo, uma carteira de papel – esse burguês que só consegue fixar o dedo quando se lhe aponta uma estrela.

        Mas para mim vejo esses projectos – socialismo e fascismo- de modo diferente:
        O fascismo é militarista, nacionalista e burguês (pois da burguesia lhe vem o financiamento; o fascismo é o antidoto do comunismo). O fascismo visa o confronto.
        O Socialismo é internacionalista e popular (“demos”). O comunismo visa a cooperação pacifica.

        Quanto à Estaline não o vejo como um Socialista, mas como um ditador da craveira de Hitler (a admiração era mútua). Admiro Trotsky e a previsão que ele fez sobre a falência do ideal socialista, sob o Estalinismo.

        Hitler para mim não conta, nem antes, nem durante a guerra. Era um lunático. Os oficiais de carreira das Wehrmacht sabiam-no. E Hitler sabia o que dele pensavam. Daí a necessidade das Schutzstaffel.

        Quanto a Mussolini era o que os ingleses chamam um “poser”.

        “Farei de minha vida uma Obra Prima!” – talvez mais a sua morte se tenha parecido com isso. Uma obra prima do Grotesco, em que só faltavam os corvos sobrevoando-lhe o cadáver, esvaziando-lhe os olhos.

        “Regime Fascista não pretende estatizar ou, pior, funcionalizar a economia da Nação”. Em contradição clara com “All within the state, nothing outside the state, nothing against the state”.

        E por último esta última citação que revela a verdadeira força motriz que sempre conduziu Mussolini:

        “O meu programa é simples: quero governar”

  2. O melhor dos comentários que me foi dado ler até agora, isto na minha opinião, aquela que vale o que vale. Está tão bom que se bebe de uma só vez. E não se esquece. Só por isso é que acho que ler algumas pessoas só nos enriquece. Não sendo presidente de coisa alguma arrisco deixar uma nota de 1 a 20. Vinte, pois está claro.

  3. “Contudo sinto um “mau estado geral no ar”.”

    Subscrevo mas:

    “A guerra vista como uma vacina para a decadência.”

    Só se for por aqueles que não a conhecem a guerra… E na situação actual não lhe chamaria vacina mas sim consequência da decadência.

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