O comentário da semana


Pedro Correia,

«Se há coisa que gosto de fazer é revisitar a gaveta do passado, cheia de cédulas pessoais, diplomas de exames, licenças de isqueiro… fazem-me sorrir e relembrar situações e pessoas que enriqueceram os dias que já foram.
O meu pai emprestou-me a sua Sheaffer preta de aparo dourado para o exame da quarta classe; era daquelas que já se podiam encher e levava comigo um tinteiro Quink novinho em folha. Primeiro que tudo, qual artista de origami, tinha que dobrar a folha de trinta e cinco linhas de modo que a pestana do lado direito ficasse absolutamente direita e impecável. Depois pegava na folha do mata-borrão cor de rosa e colocava-a paralelamente às linhas da folha da prova, de modo a que nela pudesse apoiar a minha mão para não borrar a escrita. Começava então o desenho artístico das letras, numa caligrafia bonita e certa, que aprendera exaustivamente num caderno de duas linhas… Tive 20 valores. Deram-me beijinhos e fomos à Veneziana dos Restauradores comer cassata.
Falar de livros é emocionante e ao mesmo tempo triste. Poucos são os que exultam perante um livro novo, com cheiro a papel e a tinta de impressão. Os e-books ocupam menos espaço, não precisam de marcadores e, se se tornam chatos, chama-se a resenha.
O prazer da leitura é algo que se conhece vagamente. Há demasiada informação. Não que eu prefire que se soneguem informações, mas há que separar o trigo do joio e informação demais chega a raiar a desinformação totalitarista.
Aborrece-me ler jornais. Longe vai o tempo em que lutávamos e desordenávamos as páginas das notícias. Presentemente 50% é lixo publicitário, 20% opiniões subjectivas, 10% informações de serviço público e por fim algo legível e interessante, que se perde num apontamento ou num pequeno editorial.
Por fim, Camilo é fantástico de ler.
Com uma historiadora em casa, ler textos de Paleografia também dá um certo gozo.»

Da nossa leitora Maria Dulce Fernandes. A propósito deste meu texto.

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. Poucos, seguramente bem poucos, jovens (e quando, por estes anos, se deixa de ser social e administrativamente um jovem?), conhecerão a descoberta que existe em, com uma simples faca – mesmo mais apressadamente, e arriscando o desastre, um dedo -, separar as folhas unidas de um livro novo.

    Mesmo, e se calhar ainda mais, se antigo de muitas décadas.

    Costa

    Ps: escrevi coisa parecida há minutos, mas julgo que por minha azelhice consegui que não ficasse registada no blogue.

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