O comentário da semana


Pedro Correia,

«Em 1990 discutia eu com um amigo sobre a esquerda da direita e as densificações gestionárias de uma e de outra. Concluímos, na altura, que o Governo de Mota Pinto estava à esquerda de Cavaco. Hoje, concluo, que Cavaco estava à esquerda de Guterres, que Guterres estava à esquerda de Sócrates e que Sócrates estava à esquerda de Passos Coelho.
A marca deste governo, de Costa, é claramente de esquerda em, pelo menos, um ponto (as políticas de incremento de rendimento ou de recuperação de poder de compra são apenas matérias gestionárias do liberalismo burguês – o catálogo de direitos sociais não foi alargado nem comprimido, razão pela qual José Pacheco Pereira (JPP) não tem razão. Se repor rendimentos não é de esquerda, aumentar impostos e retirar rendimento não são de direita. A ortodoxia monetária é conservadora mas não é política do Governo Português, não há moeda nacional apenas moeda com curso legal o que JPP ainda não percebeu.). À esquerda de Mota Pinto e de Soares. Leiam-se as palavras do ministro da Educação e do primeiro-ministro, que revelam concepções filosóficas sobre o indivíduo e o sistema de ensino (não sei se serão deles, ou se alguma coisa sabem sobre a coisa, uma vez que, e no melhor pano cai a nódoa, as palavras, ontem, do PM revelaram uma ignorância avassaladora de contexto e de coerência ideológica quando cede ao mais abjecto utilitarismo que nenhum pensador de esquerda subscreveria – sobre o que de inútil teve que empinar – Um programa utilitário, é o que resulta da coisa. A perspectiva que queria defender, o PM, era a da aversão ao utilitarismo ou instrumentalização do ensino como direito face à comprovação de aprendizagem e produtividade na apreensão de conhecimentos, coisa que, manifestamente, demonstrou não saber fazer. Se se referia à escolha dos saberes que a teoria marxista pode justificar e que o movimento socialista tradicionalmente empregou como autodidacta, foi demasiado inábil para aí se poder escudar). A marca é de esquerda, os agentes parecem-me improváveis para sustentar qualquer coerência filosófica e ideológica socialista.
Aguardemos por novas no direito do trabalho .
E mais e muito mais haveria para aduzir mas a coisa já vai longa, pelo que me penitencio.»

 

Do nosso leitor Justiniano. A propósito deste texto do Sérgio de Almeida Correia.

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