O comentário da semana


Pedro Correia,

«Em maré de citações, acrescento uma:
“Eloquence after Auschwitz would be a kind of obscenity”, escreveu George Steiner num pequeno ensaio intitulado «The Long Life of the Metaphor: An Approach to the “Shoah”».
Para o velho professor, diante do Holocausto a única reacção apropriada era o silêncio, concebido como protesto moral e como metáfora contra a “minimização” pela linguagem já que qualquer tentativa de abordar ou interpretar a natureza do evento tropeçaria na ausência de uma “forma”, de um “estilo” ou de um “modo de articular” adequados à “expressão inteligível” dos factos. O resultado final do esforço empreendido, advertia, não poderia evitar a simplificação e, com ela, a profanação do retrato do horror.
Steiner estava certo. Confirma-o o ruído boçal destes dias em que ninguém – desde os mais altos dignitários (ou candidatos a tais) à habitual plêiade de eminências e “especialistas”, passando pelos “tudólogos” de serviço que afanosamente se vão sucedendo nos estúdios de televisão – se furta a emitir a sua prédica, a oferecer as suas ponderadíssimas razões, a estabelecer as mais inusitadas teorias causais. Uma tagarelice penosa que nem a sequência de rostos compungidos consegue manter aquém do limiar do bom gosto.
O rodopio mediático, mesmo quando convencido da sua pertinência, equivoca-se se julga contribuir para explicar coisa alguma. Paris, como Auschwitz, está para lá do que pode ser dito em linguagem humana.
E ontem como hoje a barbárie não requer eloquência. Requer, antes do mais, silêncio e pudor.»

 

Do nosso leitor Luís Froes. A propósito deste meu post.

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. A verborreia é um problema para o qual não existe terapêutica capaz de o dominar, quiçá, erradicar.
    Entretanto, fiquei presa nas palavras de George Steiner. Logo a seguir, raciocínio loquaz e pertinente.
    Boa noite.

  2. Gostei de ler, no entanto o autor parte do principio que a inacção, estupefacção e “contemplação” são opções viáveis, e não são, nunca poderão ser.
    O problema maior será quando estes actos de guerra (embora praticados por um exército irregular ou de guerrilha) se tornarem “banais” devido aos erros no seu combate partindo do principio que haverá um combate que não se limite a uns bombardeamentos esporádicos.
    A estratégia para combater o EI deve residir num planeamento a médio prazo (3 a 5 anos) e assentar (na minha modestíssima opinião) em dois vectores essenciais : 1º Garantir que o regime de Assad se mantém como único interlocutor da Síria nesse período salvaguardando-o contra todos os opositores que de forma militar pretendam o seu derrube, 2º permitir que os Curdos não sejam atacados pelos Turcos e apoia-los (de forma condicionada) militarmente.
    Será um enorme erro pôr tropas ocidentais no chão de modo ostensivo e visível, isso criaria no curto prazo um enorme afluxo de voluntários para a esfera do EI vindos de todas as partes do Mundo e é precisamente isso que o EI pretende.

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