«Não há aldeia, vila, ou cidade de Portugal que não tenha uma Santa Casa da Misericórdia; uma Casa do Povo; uma Associação disto ou daquilo; um Centro da Cáritas; um movimento da Paróquia; serviços de Acção Social das Câmaras; um agrupamento de escuteiros; os próprios serviços de Segurança Social do Estado; um Lar de idosos; Lions; Rotários; Mulheres disto, Jovens para aquilo e o "diabo a sete", enfim… capelinhas e mais capelinhas e mais capelinhas!
Sabem (excepção a muitas dessas entidades que funcionam bem, diga-se), muitas vezes, para que é que são criadas e para que servem?
Para sorver dinheiro ao Estado (directa ou indirectamente a "fonte" acaba por ser essa), para justificar uma sede, órgãos sociais, um departamento administrativo, que alberga filhos e enteados, recursos e logísticas, ao serviço dos interesses dos capatazes, por sua vez "feitos" com a necessidade de proteger as suas "clientelas e fregueses", e por aí fora…
Isto tem que ser dito! Não sejamos hipócritas!
E "isto" é o País!
Não estou a pensar em cidades como Lisboa e Porto, (a complexidade é diferente, embora o enredo seja o mesmo – só não se nota tanto porque se dilui mais, dada serem mais populosas, onde as pessoas não se conhecem todas) mas sobretudo ao nível da "província", das Autarquias Locais.
No "País real", o caso também é muito bicudo. Importaram-se os males dos maiores centros e perderam-se as virtudes dos pequenos. Os miúdos também não comem sopa, são alimentados a refrigerentes, batatas fritas e ‘Bollycao’. Os idosos também estão cada vez mais isolados e a passar necessidades. As toxicodependências, para lá do álcool, deixaram de ser um fenómeno urbano e germinam como girassóis. O planeamento familiar é de gargalhada. A higiene tresanda. O individualismo tomou conta da comunidade, que perdeu a consciência colectiva. Os professores vão dar aulas "à rasca", com medo dos pais, etc, etc.
E isto, porquê?
Por que andamos todos a fazer de conta. A providência social caiu, definitivamente, nas mãos de caciques da pior espécie que pensam assim, "vamos criar uma instituição porque, depois, isso dá direito a protocolos com a Autarquia e o Estado e é uma maneira de sacar dinheiro".
Depois, o Estado, demissionário, vem com a lógica do "descentralizar", e toca a distribuir e a "adubar". Na paga, de quatro em quatro anos, as "instituições da sociedade civil" lá vão movendo as suas influências para arranjar votos para o "cavalo certo, em que apostam".
Resumindo:
A raiz do problema está em duas coisas – dinheiro e votos.
O "verniz" do problema está numa coisa – o "pregão da solidariedade" que, com tantos meios afectos, nunca foi uma meta tão vã como agora.»
Excerto de um comentário do nosso leitor Ricardo Alves Gomes. A propósito deste texto da Leonor Barros.


Um comentário muito sugestivo, Pedro. Não o tinha lido ainda.
O que subjaz à perspectiva do comentador Ricardo Alves Gomes deixa-me em estado de perplexidade. Desde criança que participo e participei sempre em trabalho associativo (não-religioso e religioso) de escala local, e sei (é das poucas coisas em que tenho absoluta convicção) que a força daquilo a que a agora se convencionou chamar “sociedade civil” está no que neste texto se chamam “capelinhas”. Capelinhas!? Gente que se insinua junto de instituições para ganhar preeminência social sempre houve, mas isso é nada perto do trabalho de base que é feito por todos os grupos ditos “capelinhas”, que em muitos casos são centenários, antecedem a segurança social, a saúde e a escola como as conhecemos, estão profundamente enraizados junto da população e proveram sempre e sozinhos ao seu bem-estar. A ideia de que uma sociedade se constrói a partir de cima, do abstracto aparelho de Estado, e que a sociedade deve passivamente e à distância esperar pela mecãnica administração da providência, é o contrário do que uma sociedade viva e saudável é. É uma ideia tristíssima, de desconfiança total no concidadão. Há aproveitadores e arrivistas? Claro que há. Mas é ofensivo para milhares de pessoas quem trabalham décadas voluntariamente, sem qualquer protagonismo nem dividendos, a cobrar quotas, a pintar paredes, a escrever artigos de jornal, a lavar casas de banho e cuidar das crianças e velhos da sua terra, chamar às suas instituições “capelinhas”. Nos EUA ou no Reino Unido os “grassroots movements” são espectaculares. Cá são “capelinhas”.
[Errata]
mecãnica, i.e., mecânica
quem, i.e., quê
Como eu compreendo este comentário…