O comentário da semana


Pedro Correia,

«Em tempos filipinos, só havia um sonho para os alfacinhas (assim chamados porque usavam a moda espanhola – mangas de camisa espalhafatosas, em forma de alface).
Esse sonho era o de que Lisboa, e não Madrid, fosse a capital de Espanha.
Assim, a tentativa de D. António para sublevar Lisboa contra o poder castelhano foi assim uma paródia alfacinha, com pouca vontade de ajudar insurrecções vindas de Peniche.

Como conjugar isto com alguns nomes a votos (Passos, Portas, António Costa, Catarina Martins, e Jerónimo)?

A incursão de D. António não foi pela Costa do Castelo, onde Martim ficou entalado na Porta.
Não, a incursão de D. António foi por Portas de Santa Catarina.
Chegado ao Alto de Santa Catarina, D. António ficou a ver navios (de Drake) na Costa ao largo dos Jerónimos, e abandonou a tentativa.

Passos seguintes foram a total acomodação à soberania filipina, tendo sido mesmo feitos 20 monumentais arcos do triunfo para receber o imperador.
Sempre houve grande tolerância nacional à sabujice alfacinha.

Quanto à escandalosa frase do MRPP – “Morte aos traidores” … só foi cantada umas décadas depois, num certo dia 1 de Dezembro, que por certos Passos e Portas travessas, é feriado politicamente incorrecto, regressado o glorioso tempo dos sabujos do poder imperial.

Bibliografia: (para quem da dúvida faz dívida)
Dicionário espanhol-português (pg. 1004) de Manuel Mascarenhas Valdez (1864)

– Alfacinha (Lechuguilla): certo género de cabeções e de punhos de camisa muito grandes e bem engomados, frisado com ferro em forma de folhas de alface, e que se usavam muito no tempo de Filipe II de Espanha.»

 

Do nosso leitor daMaia. A propósito deste texto do Rui Rocha.

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. Resta-nós por enquanto imaginar quem será o Miguel de Vasconcelos, que reza a lenda, saiu pela janela.
    Gostei de saber que a minha árvore genealógica é bem mais folhosa do que poderia pensar 🙂

    1. Eu tenho pena que não sejamos espanhóis, numa Espanha que não se confunde com Madrid nem com os castelhanos.
      Numa Espanha que foi Hispania, que cresceu à escala mundial pela diferença e rivalidade que sempre impôs a si própria, e não pelo conformismo e ruína de poder instalado, que levou à sua ruína.

      A união ibérica não foi só o início da decadência de Portugal, foi muito mais o início da decadência de Espanha. Portugal até teve ocasião de reerguer-se com D. João V, mas sucedeu-lhe o desastre que foi o filho, com o Marquês facínora patrocinado por cozinhados externos.

  2. Ah, amigos de Peniche é o que é… a darem destaque a uma nota de rodapé histórica sobre os alfacinhas!
    Está bonito para quando for a Lisboa…
    Cruzes credo, ainda por cima li agora que repeti “assim”, “assim”, coisa tão descuidada da minha parte.

    Mas aproveito a vossa simpatia, para a propósito do nome Vilhena, que nos deixou ontem, lembrar a Marquesa da Atouguia (vila ao lado de Peniche).

    Filipa de Vilhena foi protagonista pelo lado feminino, como Luísa de Guzman, ao armar os filhos cavaleiros e destiná-los a lutar pela independência nacional.
    Os Guzman, convém não esquecer favoreceram ao mesmo tempo revoluções na Catalunha e Andaluzia, que permitiram a independência portuguesa.

    A casa da Atouguia, de Filipa de Vilhena, ficou célebre nesse episódio de patriotismo, tanto quanto depois, quando foi condenada morrer e desaparecer no Processo dos Távoras.

    Porque se “traidores” é hoje palavra inócua, ao longo dos tempos teve a força de colocar os seus no patamar mais alto das rotundas e praças lisboetas, e reduzir os outros ao mais atroz sofrimento.

    Pela minha parte, só considero que Portugal voltará a ser o que era, quando fundirem o bronze da estátua de D. José, e do seu cavalo, o Marquês, que está colocado no pedestal, agarrado à cláusula leonina que pôs o povo como bois a puxar carros.

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