O comentário da semana


Pedro Correia,

«Lembro-me bem dos “retornados”… Devia ter 10/11 anos naquela altura e lembro-me de não compreender certas coisas naqueles anos, de não compreender porque diziam que os “retornados” queriam roubar os empregos, de não compreender por que razão eles viviam em pensões, de não compreender pura e simplesmente… Tive a sorte de ter uma mãe professora, que gostava de ensinar e por cujas mãos passaram algumas das crianças e que ela acarinhava particularmente… Acho que ainda levei um estalo dela por ter insultado um dos meus colegas, chamando-lhe retornado…

Foi bem dado e serviu-me de emenda.

Lembro-me também de a partir de certo momento a palavra retornado ser quase um sinónimo de qualidade, no sentido de que determinada coisa ou produto eram bons porque tinham sido feitos por pessoas que tinham vindo de Angola ou Moçambique, com técnicas novas ou com esta ou aquela inovação.

E ainda ontem, em conversa familiar, referi este caso como exemplo de acolhimento de refugiados e do dever que temos enquanto país em acolher quem precisa.»

 

Do nosso leitor Nuno Antunes da Costa. A propósito deste texto do Rui Rocha.

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  1. Ainda hoje muita gente madura torce o nariz quando alguém ao seu lado se diz Retornado.

    Retornado era no tempo do PREC e seguintes, simbolo de: explorou os pretos em Angola (Moçambique…), vem roubar os empregos dos que cá estão, politicamente era reaccionário, fascista e nas pensões do IARN saiam caros porque gastavam muita água, imaginem tomavam banho todos os dias.

    Os Retornados também eram culpados da guerra do Ultramar, porque os nossos filhos foram para a guerra de África, morrer, para lhes guardarem as costas.

    Os Retornados e os militares conscientes daquele tempo, têm quase obrigação de gritar aos quatro ventos, que tudo fizeram em contra-corrente daquele tempo, para que África não fosse abandonada como foi por todos os impérios coloniais.

    Devemos gritar que foram aquelas independências irresponsáveis africanas na hora errada, que levaram à criação do arame farpado em Ceuta e Melila contra os milhares de jovens africanos que fogem daquelas capitais infernais.

    Ali, onde nunca tinha havido fome, e havia respeito pela vida humana, em que os Retornados testemunhámos e ajudámos a criar lindas cidades, hoje os jovens deambulam aos milhões sem qualquer perspectiva de vida.

    Cidades como Luanda, Brasaville, Bissau, Kinshassa, Lagos na Nigéria, Serra Leoa, etc. etc., albergam a maioria dos jovens dos seus países, sem qualquer espécie de futuro.

    E sabendo isso, estão tentando aproximar-se aos milhões do Mediterrâneo para entrarem na Europa.

    Nós os Retornados sabíamos que ia tudo correr muito mal, só não sabiamos que ia ser tão mau.

    E eramos obrigados a calar, porque se não nós ou os nossos filhos corriamos o risco de sermos catalogados e marginalizados.

    Os Retornados devem malhar sobre aquilo que sabiam e calaram, porque foi tudo pior do que imaginavam.

    Embora os Afro-asiáticos que hoje vêm pela Grécia e Hungria para a Europa, estejam a fazer esquecer os africanos de Ceuta e Melila e Sicília, estes nunca pararam há 40 anos de fugir das suas terras para a Europa, clandestinamente, com os maiores sacrifícios.

    Os Retornados e os militares que lutaram em África, contra as independências, sabiam que ia ser tudo muito mau, mas a Guerra Fria e a ONU deram cabo de tudo e a Europa velha e caduca vai pagar “com juros”, aquele abandono.

    Os Retornados não devem ser confundidos com refugiados ou com emigrantes ou com clandestinos, devem dar a cara como heróis, em memória daqueles que sucumbiram pela idade ou pelo abandono ou pelo desgosto de ver a vida familiar desfeita.

    Cumprimentos

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