O comentário da semana


Pedro Correia,

 

"A causa tibetana não tem sido particularmente beneficiada pelos muitos chefes de Estado que receberam a visita de um líder ‘divinamente escolhido’. Essa causa beneficiaria muito mais de contactos diplomáticos de baixo nível entre vários países e a China.

Além disso, esta questão do Tibete faz-me sempre lembrar o diálogo em The Life of Brian em que se pergunta «O que fizeram os romanos por nós?».

Por outro lado, um chefe de Estado deve sempre receber quem entenda, especialmente se não for uma pessoa culpada de crimes (perante o ponto de vista do mundo civilizado, não dos chineses). Isto é ainda mais verdade quando se fala do Presidente do país mais poderoso do mundo. E ainda mais verdade é quando os presidentes recebem frequentemente outros presidentes que têm mais sangue nas mãos que um funcionário de um matadouro."

 

Do nosso leitor João André. A propósito deste texto do José Gomes André.

15 comentários em “O comentário da semana”

  1. Caro Pedro,
    Se bem entendo, Obama , para além de nutrir alguma admiração pelo Dalai Lama, com esta atitude, que ele sabe que irrita solenemente a liderança chinesa, quer mostrar a Pequim que é ele quem marca a sua própria agenda.
    Mais, estará a deixar a mensagem a Pequim que, para que haja maior apoio americano à política de uma só China, a liderança chinesa tem que se comprometer muito mais do que tem feito até aqui em questões fundamentais para os americanos (Iraque, Afeganistão, Irão, Myanmar).

    Essas eternas desculpas, tão asiáticas, da neutralidade e não – ingerência, começam a deixar de surtir efeito.

    1. Obama demonstra maior coerência com os princípios que defende do que uma certa classe politica portuguesa, que preferiu encontrar-se às escondidas com o Dalai Lama na última passagem do líder tibetano por Lisboa.

      1. Onde é que foi buscar a ideia de que o Tibete é um “país” ?
        Os Estados Unidos consagraram a integração na China (contra vontade, eu sei) e a República Portuguesa também. Os tibetanos vivem muito melhor dentro da China do que “independentes” sujeitos aos apetites de tiranetes e de “potências amigas”. Porque vc tem interesse na independencia ficticia do Tibete? Não deviamos começar por perguntar aos tibetanos? Os quais não ligam importância nenhuma ao Dalai Lama, o qual há 50 anos se vendeu aos interesses americanos?
        Receber o Dalai Lama é inócuo do ponto de vista político, ele não representa nada. Mas é um erro diplomático, uma fanfarronice da parte dos Americanos. Muito haveria a contar, mas penso que o Amigo não terá paciência para mais.

          1. Tibete, país? Reconhecido por quem? Por si, e quem mais?
            O Tibete, e bem assim a Formosa, são reconhecidos, por todos os países que têm relações diplomáticas com a China, como parte integrante da China, por mais voltas que os “falcões” americanos queiram dar.
            Você também quer dar independência a Olivenza ? Vamos nessa! Defender a independência do Tibete contra os desejos dos tibetanos só lembra a certas pessoas, que me abstenho de classificar. O mesmo se passa com os Oliventinos . Estão muito bem (e sentem-se muito bem) assim.

          2. Qualquer resposta que pudesse dar-lhe, depois dos consistentes argumentos que acaba de fornecer, seria um insulto à sua inteligência. Sem mais, portanto, cedo-lhe a última palavra nesta questão que tanto o faz vibrar.
            Cumprimentos.

          3. Procure a história milenar do Tibete. Diga-me quando (em que época) é que foi um país soberano. Também gosto de aprender.

          4. Pois então aprenda, meu caro. Podia até dar-se o caso de o Tibete ser ou ter sido uma independência peculiar, como o Mónaco, o Liechtenstein, Andorra, Malta, San Marino ou o Vaticano. Mas não é.

            O Tibete foi um reinado desde 127 a.C. e, ainda no século VII d.C., tinha-se tornado uma nação poderosa (que chegou a ser império, como a China).

            A China cobiçava o país há muito e, no século XVII, declarou-o unilateralmente parte integrante do seu território. Seguiram-se dois séculos de lutas e o Tibete conseguiu readquir a sua independência em 1912.

            Em 1950, a República Popular da China invadiu o Tibete e anexou-o como província, estipulando-lhe um estatuto de região pretensamente autónoma a partir de 1965, contra a vontade da população tibetana.

            Embora sem êxito, as conversações iniciadas em 1993 entre as autoridades chinesas e representantes do Dalai Lama servem para confirmar que a causa da independência do Tibete não está encerrada.

            Desejo que se sinta mais esclarecido, Júlio Reis. Não sei por que motivo não foi aprender sozinho, mas espero que a sua formação seja elevada o bastante para voltar aqui, a fim de se manifestar pelo que acabo de lhe dirigir.

          5. Meu Caro João Carvalho: Tá visto que temos opiniões muito diferentes àcerca do assunto. Permita-me, no entanto, que de improviso eu lhe responda ao seu lúcido comentário. E ia dividi-lo em duas partes: a primeira para tentar “corrigir” a sua versão da História do Tibete (sabemos bem como a História é fácil de manipular) e a segunda parte para lhe tentar demonstrar, ainda que empíricamente , que o Tibete-País hoje em dia não faz sentido.
            No século XVIII as relações entre a China e o Tibete “azedaram”. No processo as forças chinesas tomaram conta do Tibete, embora tivessem dado aos Lamas uma autonomia considerável. Não houve, por isso, “dois séculos de luta”.
            Por alturas de 1900 a Inglaterra dominava uma parte considerável do território chines. Em 1904 invadiu o Tibete a partir da Índia, então sua colónia. Depressa viu que a conquista do Tibete do ponto de vista militar era insustentável (a menos que mantivesse em permanência um exército numeroso) e ,do ponto de vista económico, ficar no Tibete era ruinoso. Por isso, em 1907 tratou de o devolver à China, reservando para si uma parte, de quase 90.000 Kms.2 de território Tibetano, que anexou à India , situação que ainda hoje se mantém. Em 1910 Sun Yat Sen proclama a República na China. Da guerra civil e da confusão que se seguiu aproveitaram os Lamas para declararem unilateralmente a sua independência. A Mongólia que estava com o mesmo problema tomou posição idêntica. Como resultado Tibete e Mongólia reconheceram-se uma à outra, perante a indiferença do resto do Planeta. Com o fim da guerra civil chinesa o governo central tomou conta do Tibete, sua provincia. Durante a segunda guerra mundial a China, sem um verdadeiro poder central (Mao efectua a grande marcha sem oposição), os Lamas aproveitam-se da situação e actuam como se fossem donos do território. Mais uma vez, e após o fim da guerra e o estabelecimento do comunismo em 1949, a China foi ao Tibete para integar a região no sítio onde pertencia, ou seja dentro da China. Não se pode dizer que tenha havido uma invasão, porque o Tibete era chinês; também não se poderá dizer que a reintegração foi feita contra a vontade do povo, se tivermos em conta que o povo tibetano vivia em regime de servidão. Foi contra a vontade dos religiosos, isso foi, os quais em 1951 assinaram um “Pacto de Libertação Pacífica do Tibete” no qual ficou acordada a governação conjunta entre o Dalai Lama e o Governo Central Chinês. Tibete passa a Região Autónoma, situação que ainda hoje se mantém.
            Em 1956, por influência da CIA começa a haver agitação nos conventos. Em 1959 perante a ameaça americana o exército chinês entra em força no Tibete e vai a procura de armas. Encontra em alguns mosteiros autênticos armazens de armas e de munições (americanas, claro). No seguimento da operação o Dalai Lama é expulso, junto com centenas de seguidores seus. Os americanos não perdem o Tibete de vista e forjaram um Prémio Nobel da Paz para o Dalai Lama, em 1989 (salvo erro, não tenho a data presente). De qualquer forma o Dalai Lama já não representava na altura, qualquer poder. Tinha instalado em 1960 um “Governo Tibetano no Exílio” que não foi reconhecido por ninguém, nem pelo “amigo americano”.
            Em 1993 os americanos pediram ao governo chinês para ouvir o Dalai Lama. Os chineses ouviram-no, o encontro não valia a pena, e ninguém estava à espera que daí surgisse alguma coisa.
            No século XXI o Tibete, região autónoma da China, conhece um grande desenvolvimento. Chega o avião, o caminho de ferro (o Transtibetano), barragens, pontes, reorganização agrícola, o turismo. Embora haja um grande caminho a percorrer nunca os tibetanos viveram tão bem. A língua e a cultura tradicional são respeitadas, o tibetano ensina-se nas escolas, há televisão em língua tibetana a emtir 24 horas por dia.
            Nem tudo são rosas: Em matéria ambiental os desastres são muitos: a desflorestação e a presença de resíduos nucleares chineses no território, são exemplos.
            Meu caro João Carvalho: Estou a gostar desta nossa conversa mas agora tenho de ir almoçar. Prometo continuar amanhã, para tentar demonstrar-lhe que um país chamado Tibete, no século XXI, seria inviável. Até amanhã.

          6. “Tibete-Livre”, um país no Século XXI
            Antes de mais, temos que ver o que é o Tibete: Uma região enorme, 13 vezes maior que Portugal, uma população de pouco mais de 3 milhões de pessoas. Solo pobre, chuva escassa, clima inóspito. Um relevo muito acidentado, altas montanhas, vales profundos, etc.
            Se… os tibetanos tivessem vontade e possibilidade de transformar o território num País, o primeiro problema seria o controlo das fronteiras. Vários milhares de kilómetros. Atendendo à orografia, seria necessário um exército muito numeroso e tecnologicamente bem equipado. Instalar tal exército custaria uma fortuna incalculável. Mantê-lo, outro tanto. Acontece que a débil economia e os fracos recursos do país não suportavam tal despesa. Não se consegue manter um país sem fronteiras seguras e estáveis, exército capaz de conter uma eventual ameaça externa. Como os Tibetanos não conseguiam sustentar tal força militar teriam de pedir a ajuda a uma potência estrangeira (estamos a falar dos Estados Unidos, quem mais?). E os tibetanos deixavam de depender do Irmão Chinês, para dependerem da Águia Americana. Portanto as pessoas que advogam a “indepência” do Tibete, de facto, estão a defender uma nova, e muito perigosa, depência.
            Mas será que os americanos quereriam, ou poderiam, colonizar o Tibete? A resposta é não.
            A América foi outrora uma grande potência. Económica em primeiro lugar, militar depois. Acontece que o poderio militar americano já não é sustentado pela economia. Os Estados Unidos tornam-se na actualidade o país mais endividado do Planeta. E o seu principal credor é a China. Os americanos não se iriam meter nisto. Os tibetanos sentem-se bem como estão. O relevo do país é propício à guerra de guerrilhas e faz lembrar vagamente o Afeganistão.
            Por outro lado a proposta do Dalai Lama é conduzir de novo os tibetanos ao feudalismo. E eles já usam telemóvel.
            Perante esta situação os Americanos recebem o Dalai Lama. É o máximo que podem fazer. Os chineses fingem-se indignados. A “indignação chinesa” serve para tranquilizar os tibetanos.
            Os tibetanos sem a China não têm futuro. Com a China têm um futuro promissor, que eles vêem diáriamente a concretizar-se em melhor nível de vida, melhores infraestruturas, etc.
            Eu (e penso que o João Carvalho também) quero que os tibetanos tenham um óptimo futuro. E o futuro já chegou ao Tibete. Deixou de ser uma esperança, é uma realidade dos nossos dias.

          7. Com o seu desfecho, o que se adivinha é também aquilo que se sabe: um Tibete sem tibetanos.

            O seu esforço foi notável, meu caro, mas eu não me perdi em considerações e apreciações a cada passo. Fui à História que V. pedia e fiz uma súmula sem quaisquer ‘nuances’.

            É tudo, Júlio Reis.

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