O comentário da semana


Pedro Correia,

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«”No último ano foram criados 60 mil empregos, o que dá cerca de 5 mil por mês. É suficiente? Não.”

Não é, de facto, e qualquer que seja a posição política de cada um perante o actual governo e as actuais oposições, outro factor há que não pode ser ignorado: o que significam esses novos empregos? Como se comparam perante aqueles que foram destruídos?

Não posso prová-lo com dados objectivos, mas estou firmemente convicto de que a generalidade, a vasta generalidade, das pessoas que, atingidas pelo desemprego, regressaram ao mercado de trabalho o fizeram com uma bem severa (meço e atenuo as palavras que uso) redução da remuneração auferida pelo trabalho prestado. Com todo o cortejo de graves problemas, que me dispenso de elencar, que isso acarretará.

Seja porque foram levadas a aceitar trabalhos para os quais se apresentam, sem outra escolha, sobre-qualificadas; seja porque, tendo conseguido reconquistar um lugar na actividade e no grau (ou comparáveis) em que laboravam até perder o emprego, essas mesma funções ou equiparadas valem hoje bem menos do que há uns, poucos, anos. Do que valiam quando com base nelas se assumiram responsabilidades que não foram atenuadas, nem remotamente, em semelhante proporção.

Há ainda o caso das pessoas levadas, seja pelo “encanto” próprio da perspectiva em causa, seja pelo intenso incitamento nesse sentido promovido pelo estado, seja pelo desespero (pela ausência demonstrada de outra possibilidade), a ingressar na categoria de empresários – ou empreendedores, como por estes dias parece ser politicamente correcto chamar-lhes -, sem preparação, sem vocação, enterrando tudo o que lhes resta em negócios afinal inviáveis.

Meses depois, como se sabe, nem uma camisa podem ter em seu nome, o seu nome está irreversivelmente na lama e provavelmente arrastaram nessa sorte familiares e amigos de quem obtiveram ajuda (a segurança social encarregar-se-á, implacavelmente, de reaver o subsídio pago de uma só vez, por exemplo).

Ou seja: haverá uma recuperação e ainda bem; admissivelmente o caminho não poderia ser outro e o empobrecimento geral uma inevitabilidade (pena que tantas e tantas vezes implicando a perda da honra, do bom nome, às mãos da máquina do próprio estado).

Mas isto custa e custou terrivelmente a milhares e milhares de cidadãos honestos, cumpridores, moderados, prudentes.

Quanto à oposição, não guardo ilusões; nem enquanto tal nem se o destino lhes devolver ou conceder o poder.

Do governo gostava de constatar uma atitude mais humilde; a de quem tendo feito o que havia inevitavelmente a fazer – a ser essa, de boa fé, a sua firme convicção – se apresenta perante o soberano (o povo, enfim), sob cujo mandato administra, a prestar contas do que parece ser o fim do princípio. Mas não mais do que isso. Um tempo melhor, talvez, mas não tanto assim, ainda; construído na devastação do valor do trabalho (e do próprio trabalho), o mais evidente sucesso do “reajustamento”, e à custa de baixas terríveis.

Já se terá feito muito, mas muito faltará ainda fazer – num esforço de décadas – e os custos são já pesadíssimos em inocentes desonrados e/ou profundamente empobrecidos. É sobre os despojos destes (e não acho a linguagem excessiva) que a recuperação se produz e esta nunca compensará os danos sofridos.

Respeito, uma palavra de respeito por esses, e contenção, humildade – porque a recuperação só o é perante a devastação a partir da qual se produziu – deveriam ser mais praticados perante os cidadãos.

 

O tempo não é de festivos anúncios de vitória.

Se o governo está a fazer bem o seu trabalho, este é – deveria ser – o momento de interiorizar que ninguém poderá ufanar-se de fazer bem esse seu trabalho. É por estes dias um elementar dever, muito longe de completo e que muito já custou a tantos.

O exemplo daquele senhor inglês que fumava e (consta) bebia copiosamente, e foi primeiro-ministro em tempos de outra bem pior devastação, anda muito esquecido. Suponho que a noção de “homem de Estado” o anda…»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto do Luís Naves

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. Mais uma vez a visão de o Governo como o centro criador de tudo, quando na verdade qualquer Governo no estágio em que estamos de desenvolvimento do Estado é um destruidor de emprego. A única questão é se destroí mais ou menos.

  2. Sem dúvida merecido este destaque !

    Houve-se mais bom senso como o que este autor explana nos seus comentários e estariam os Portugueses melhor.

    O que se precisa é bom senso e melhores exemplos.

    1. Por onde andam esses empregos que ninguém vê? Que fez este governo a não ser criar insolvências e mais insolvências e com elas o desemprego? Desenganem-se aqueles que pensam que agora, tudo vai melhorar. Eram estes senhores aqueles que nem queriam saber de eleições e agora, tudo fazem para lá continuarem! Abstiveram-se a muito custo do autoritarismo que lhes é tão peculiar porque estamos em ano de eleições, passadas as mesmas, vamos ter mais do mesmo se tivermos o azar de estes senhores continuarem. Como acredito que o povo ainda não enlouqueceu de todo, resta a esperança que alguma bonança poderá aparecer, no mínimo para reformados e funcionários públicos, gente essa que sofreu na pele as agruras da austeridade como ninguém.

      1. Lamento desiludi-lo mas parece-me que quem está por lá vai ficar !

        Os funcionários públicos já devem ter aprendido a lição, depois do engenheiro os ter aumentado em 2.9% em ano de eleições quanto já não perderam eles desde essa altura… e os restantes que foram na cantiga, quantos já não emigraram, quantos não ficaram desempregados, quantos não apostaram tudo em negócios virados para o mercado interno de rastos.

        O que oferece o PS a não ser mais clientelismo com a habitual dança das cadeiras que se segue ás eleições, quais as propostas NOVAS do PS, quais as caras novas do PS, quais as propostas sólidas que não dependem de factores incontroláveis, qual a forma nova que reside no respeito pelo próximo e por quem está.

        Nada no PS é novo, é tudo recauchutado, a minoria que votará nestas eleições tem medo do PS e dos sonhos, prefere o certo pelo incerto e digo minoria porque uma vez a abstenção vencerá.

        De certo você não gosta daquilo que escrevo mas eu penso por mim e obviamente não votarei PSD / CDS mas também me cumpre alertar que não é com o PS que lá vamos, aliás se só pudesse votar PS ou na coligação votaria na coligação mesmo sabendo que não é de fiar e que assim que assegurar a vitória voltará ao mesmo pois as ordens vêem de FORA (essa será a desculpa para tudo) mas com o PS seria pior PORQUE cederia sempre mais ao amiguismo , ás clientelas, além de que lhe falta arcaboiço interno para fazer trabalhos difíceis , a história prova-o.

        Desengane-se quem acha que tudo terminou, temos mais 20/30 anos disto (ou pior) pela frente e se os Gregos até tinham razão e até esses meteram o rabinho entre as pernas que faremos nós se não o que nos mandarem, não existe outra alternativa.

        P.S. – Em Espanha o governo PP está a usar a táctica de aumentar os funcionários públicos e baixar o desemprego artificialmente como cá e parece-me que lhes vai render bons votos.

        1. Dou-lhe razão, em algumas coisas, noutras não. Não estou de acordo que entre votar PS ou PSD, votaria PSD. O PSD tirou-nos o couro e o cabelo, outra legislatura, arrancar-nos-ia a pele toda porque concluiriam que afinal, os portugueses estão com eles. Aí, seria mais justo o voto em branco, para lhes mostrar que nenhum, faz aquilo que deve ser. Quanto ao PS olhar ao amiguismo o mesmo se passa com o PSD e em relação ao PS, não ter arcaboiço para trabalhos difíceis, até pode ser, mas menos tem o PSD que o único que tem feito, tem sido vender, vender e vender tudo a preço de saldo. A história prova isso em relação ao PS, PSD e CDS, pois foram os únicos que estiveram na governação e não nos podemos esquecer que o CDS tem andado sempre a servir de muleta nas coligações, esquecendo-se do que apregoa junto dos mais frágeis, quando anda em campanha. Basta recuar uns anos, até Cavaco Silva e verá que começou aí, a destruição da agricultura, pescas…e dos dinheiros vindos da então CEE que iam para tudo, menos para as formações. Foi a época dos ferraris. Esqueceu-se disso? Eu tenho-o bem presente.
          Acha que os gregos, nós, os espanhóis, vão aguentar isto, por mais 20 ou 30 anos? É muito crente na acomodação dos povos. Não acredito e não vai durar muito, para que os povos se revoltem com tudo o que se passa. Paciência tem limites e ela esgota-se e caso não tenha notado ela está muito próxima da saturação. Quanto a Espanha, o PP, até pode fazer isso, mas os espanhóis estão a acordar e bem. Ando por Espanha, neste momento, falo com eles e ouço o que se fala por aqui e o descontentamento é muito e já não se deixam enganar tão facilmente como nós. Baltazar Garzon disse esta semana que a justiça em Espanha e a nossa sofre do mesmo mal, está altamente politizada e tal tem de acabar, caso contrário será muito mau. Repare que em Portugal só há presos do PS, os do PSD, andam todos livremente, como se fossem anjos. É como no futebol só há um preso Vale e Azevedo que paga por todos os outros que são todos muito sérios, seríssimos.

          1. Antes de mais devo dizer que penso saber quem (o nick ) que escreve por trás da palavra ANÓNIMO e compreendo as razões por que o faz embora não concorde, você ou eu ou outros por aqui como por ex. o autor do post em destaque valemos pela nossa isenção e é essa couraça que nos protege dos ataques dos verdadeiros avençados que normalmente (e agora ainda mais) pululam entre os vários blogues contra ou a favor do estado actual das coisas e prevejo que com os resultados de Outubro o ruído será ainda maior apesar de alguns quererem mudar de figurino para parecerem respeitáveis.

            1- Quando referi a minha escolha entre PS / coligação referia-me obviamente a existirem somente essas duas opções pois o voto branco (nulo / abstenção) infelizmente não tem efeitos vinculativos, infelizmente.

            2 – O PS não tem arcaboiço para trabalhos difíceis , já o que o PSD está a fazer é ditado de fora e seria o que o 44 e sus muchachos fariam sem hesitar caso tivessem vencido as eleições de 2011, o que relevo é que a actual politica seguida é mais fácil de executar para um falso PSD como o actual mas seria sempre a seguida pelo “antigo” PSD pois a mesma é ditada de fora, disso ninguém tenha dúvidas.

            3 – Cavaco entrou ao leme do barco já em velocidade de cruzeiro, tudo já tinha sido “negociado” previamente como decerto sabe e tal como até hoje sempre á revelia do povo.
            Sim lembro-me dos ferraris e do oásis apesar de ser muito mais novo que você mas isso era só a face visível de um certo novo-riquismo típico de empresários com a quarta classe e seriam penauts em comparação com outras negociatas feitas nesse tempo e até aos dias de hoje por gente encostada na teta do estado e dos “fundos estruturais” mas que foi inteligente o suficiente para não dar nas vistas e aí é que foi o grosso do guito.

            4 – Se os gregos já aguentam há 5 anos e ainda está para durar os outros vão aguentar igual e o problema é esse, as pessoas preferem ajustar-se e tentar (a todo o custo) passar pelos pingos da chuva, é o chamado egoísmo, isto na minha opinião está para durar ainda nem sequer atingiu o seu pico.

            5 – A justiça não está politizada, está é refém dela mesma, da sua complexidade que obviamente serve sempre aos poderosos, tenho para mim que as leis deveriam poder ser facilmente percebidas / interpretadas por quem tivesse a 4ª classe antiga e por aqui me fico.

            6 – Compreendo as suas palavras neste e noutros post ´s mas nada há fazer enquanto nós vivermos apenas para nós próprios e não agirmos de modo altruísta , não soubermos pôr-nos no lugar do outro / próximo e olhe que egoísmo é que hoje não falta por aí, quase que transparece no olhar das pessoas digo-lho eu.

    2. Sabe (o seu comentário não é o único, ou sequer o primeiro, nesse sentido; permita-me que lhe responda por todos), criados ou não com o – à custa do – bolso dos contribuintes, foram empregos. E na sua vasta maioria, atrevo-me a pensar, não foram criados para apascentar lautamente “boys”. Alguns tê-lo-ão sido, sem dúvida, e sem dúvida perfeitamente vácuos de conteúdo e generosíssimos de rendimentos. Suspeito que esses estão em larga medida preservados. Em si mesmos e no que proporcionam.

      Mas largamente, muito largamente, foram empregos tomados por pessoas que de boa-fé a eles acederam e com base neles construíram o seu mundo. Seriam, terão sido, artificiais, mas essa artificialidade não se deve a quem os ocupou. Mesmo que possa ter gerado sentimentos – num sinal ingénuo de agradecimento – de muito útil devoção por este ou aquele dirigente partidário, por este ou aquele partido. Que se serviram dos votos assim garantidos (no fundo, o que conta) para ao longo de anos praticar – por acção ou omissão – as iniquidades que se conhecem.

      E em todo o caso os empregos criados com o dinheiro do contribuinte e não directamente destinados de forma mais ou menos descarada ao usufruto das clientelas partidárias de elite, terão sido, por definição, criados no chamado sector público. E, é certo, também em empresas que sendo juridicamente privadas, algumas apenas desde há bem pouco tempo, são substantivamente de regime (e terão até regimes de proteccionismo de facto)

      Parece-me que permanece ainda – e até quando? – largamente intocada essa massa de emprego no sector público, mesmo que seriamente reduzida a remuneração que proporciona. Do que se sabe – creio não estar errado – o desemprego alastrou como fogo em mato seco no outro sector: o (verdadeiramente) privado.

      Outros, bem mais qualificados do que eu, demonstraram já (e disso nos relembram regularmente), é bem certo, que a classe média em Portugal formou-se e sustenta-se à custa do estado. Não é de agora, nem, parece, deste regime (que terá “apenas” metodicamente agravado essa dependência). Mas não se confunda essa classe média, que não tem culpa de o ser e que acedeu aos seus empregos porque eles, afinal, estavam disponíveis – alguém lhos disponibilizou -, com a elite parasitária – perdoe a contradição – que à custa do estado floresce, criando carinhosamente para si e à custa desse estado, de generosa sinecura em descarada sinecura.

      Ora parece desde há uns anos que a regeneração do estado (veja que sempre o vou escrevendo com “e” minúsculo; é deliberado e manifestação do – pouco – respeito que me merece), implica inevitavelmente o ataque metódico e a sangria insaciável dessa classe média. Ou, mais latamente, dela para baixo, numa particular perversão do tal “elevador social” que parece existir em alguma linguagem de economia. Mas não, é bom de ver, uma similar sangria dessa “elite”.

      Se assim tem que ser, se tal é inevitável, mostre-se um mínimo de respeito pelos sacrificados, os caídos nesse afinal patriótico desígnio de que desgraçadamente não é privilégio ser-se objecto ou sujeito. E não se acuse sem mais um desgraçado que perdeu o emprego, ou viu os seus rendimentos caírem brutalmente, de pertencer à isquerda crechi-mentista “. É que essa está muito bem, muito obrigado, mesmo quando não no poder, voando em círculos à espera da sua vez (e, claro, prometendo mais emprego). Os seus sacerdotes e acólitos estão muito bem. São é insaciáveis.

      Costa

  3. Mais humildade do governo só se for roubada nos cartazes do PS. O tempo pode não ser de festivos anúncios, mas o que não se pode permitir é a indecorosa falta de respeito pelas pessoas abusivamente utilizadas.

  4. Em 2005 o desemprego já estava acima dos 6% e desde então nunca mais parou de subir, mesmo quando o governo socialista despejou milhares de milhões de euros na economia sem nenhum resultado. Depois veio o PAEF e as medidas recessivas a ele associadas e Portugal chegou a percentagens de desemprego nunca vistas pelo menos desde os anos 40-50 de século passado. Apesar de estar a diminuir, o desemprego na casa dos dois digítos veio para ficar. Discutir esta realidade é o debate politico vigente.
    Mais uma vez, os portugueses preferem debater o aparente óbvio, e esquecem-se de ir ao fundo da questão: porque é que desde 1998 a economia portuguesa deixou de crescer, porque é que começou a divergir das medias europeias, mesmo a 27, e porque é que praticamente só cria emprego nas cafetarias e restauração e na construção e obras publicas.
    E a explicação é simples: porque não há investimento! e porque é que não há investimento? pois essa é a questão principal que quer os responsaveis politicos, pelo menos os que querem governar o país, quer os diversos organismos da sociedade civil, Universidades e associações empresariais entre outros, deveriam estar a discutir.
    Mas não, em vez disso e de cada vez que são publicados numeros sobre o desemprego ou sobre o crescimento das exportações, os partidos politicos entretêm-se a discutir o sexo dos anjos, espectáculo que os media em geral e as tvs em particular promovem com grande satisfação.
    Este governo teve um ministro chamado Álvaro Santos Pereira, que teria certamente os seus defeitos mas soube colocar a questão correctamente: as empresas desmamem do estado, programem e façam os seus investimentos, e o estado fará o seu papel, que é acabar com a burocracia e facilitar a instalação e a regulamentação do funcionamento das empresas. Todos sabemos como é que esta história acabou.
    Para terminar deixo uma pergunta: que futuro poderá ter um país onde o estado consome mais de 50% da riqueza criada, e a maioria da população acha que assim é que é bom?

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