O comentário da semana


Pedro Correia,

«Somos educados historicamente com o exemplo de regressões civilizacionais, sendo a mais mencionada a ruína do Império Romano, perante os seus bárbaros invasores.

Não há nenhum decreto natural que garanta que uma civilização mais avançada se sobrepõe às restantes, tal como uma maior potência física dos dinossauros não os livrou da extinção.

Porém, se a força material não suprime a força espiritual, também a força espiritual é vazia sem concretização material.

Esses movimentos de retorno a ideologias primárias, estão ligados a um defeito principal da civilização ocidental, que é o seu negacionismo histórico primário, e uma certa ideia de contenção e exploração da barbárie fora das suas fronteiras, tal como fizeram os romanos.

A ideia de que se pode construir um muro que coloque o bom de um lado e o mau do outro, é uma cegueira que esconde a inevitável contaminação do problema global.
O problema é que ou se procura resolver tudo, ou se afunda tudo no não resolver nada, e o meio termo não existe, porque o meio termo é o não resolver nada.
A civilização ocidental deve começar por dar o devido lugar à verdade histórica, e acabar de vez com as histórias da carochinha. Caso contrário, os fantasmas do passado estão aí para cobrar o futuro.»

 

Do nosso leitor daMaia. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. Então da Maia – e parece que o Delito – apoia a colonização e certamente apoiou a missão democratizadora no Iraque de Saddam.

    De outra maneira não faz sentido..

    1. A colonização de ideias faz-se apenas pelo convencer e não pelo vencer. O vencer é apenas uma imposição material, e é tão redutor pensar que uma barriga cheia muda a mentalidade, quanto pensar que uma faminta não altera o pensamento.

      A observação mais curiosa, acerca da implantação de um racionalismo comum, é notar que o Extremo Oriente incorporou mais facilmente esses ideais do que o Médio Oriente, apesar da maior proximidade e contacto. Esse maior ressentimento do Médio Oriente é histórico, pelo cozinhado da narrativa conveniente pelas potências europeias. A paciência é mais característica chinesa do que árabe.

      Podemos acordar numa língua comum, mas dizer coisas diferentes. Isso é o mínimo do entendimento, que salvaguarda a diferença.
      Se fizermos apenas a apologia da diferença, entramos numa segmentação caótica.
      Tal como se fizermos apenas uma apologia unificadora, caímos numa redução unanimista.

      Curiosamente, isto tem um correspondente térmico – a agitação caótica é o extremo calor, assim como o congelamento numa opinião unânime, é o extremo frio.
      São ambas versões de infernos dantescos.
      Eu prefiro climas temperados.

      1. Para, uma e outra, e outra vez mais, dar um grande bem haja ao caríssimo da Maia!! Neste caso pelo assombro, que será meta-prudência!!
        O lucklucky tem, contudo ou também, um grande ponto!! “…porque o meio termo é o não resolver nada.”
        Há aqui muitíssima coisa, caríssimo da Maia!! O seu comentário, como saberá bem melhor que eu, abre portas a discussões complexíssimas!! Há leituras assombrosas possíveis!! A solução total implica muita coisa. Se a história tivesse real significação não se repetia nem se inventava!! (a la Zizek: Nós sabemos muito bem o que estamos a fazer e continuamos a fazê-lo. Ou, nós não sabemos o que estamos a fazer mas continuamos a fazê-lo. A coisa e a mesma coisa.)
        Um abraço,

        1. Mais uma vez, obrigado.

          Compreendo, mas há uma diferença entre problema global e solução global.
          O problema existe e deve ser reconhecido, não como uma soma independente de problemas locais, mas sim como um problema global que afecta todos.
          A solução penso estar completamente fora do nosso alcance a curto, e mesmo a longo termo.
          Não acho que haja uma solução ao alcance, mas pode sim haver ideias coerentes, com o que sabemos e podemos antever, visando uma resolução global, e não uma soma desconcertada de soluções particulares e locais.

          Achar que podemos encontrar uma solução é tão inibidor quanto pensar que não podemos. Ambos levam normalmente à desistência face à complexidade. Por isso, convém não embarcar em utopias, nem desistir delas. Fazer o melhor possível, não implica conseguir o melhor possível, mas uma coisa depende de nós e outra simplesmente não sabemos.

          Sabemos, isso sim, que sem actuar sobre o problema global, ele não se resolve sozinho, e resolver problemas locais não é integrador. A separação em problemas locais induz uma desagregação contagiosa. Primeiro isola-se um grupo, depois não chega, e dentro desse grupo isola-se outro, depois ainda não chega, e a certa altura a sociedade está simplesmente a desintegrar-se em grupos de interesse cada vez mais pequenos.

          Por isso, visar uma solução global é apenas definir as palavras numa linguagem de entendimento comum, não significa depois que todos sejam forçados a dizer a mesma coisa.

      2. “A colonização de ideias faz-se apenas pelo convencer e não pelo vencer.”

        A história está cheia de exemplos das duas maneiras. E de grau.

        Sobre o grau: na Segunda Grande Guerra a Alemanha Oeste e Japão foram ocupadas.
        Mas a Alemanha de Leste, Polónia, Roménia, Bulgária, Checoslováquia etc também. Com resultados diferentes.

        Quanta cenoura e quanto pau?

        Mas o fundamental é que a História não acaba : as pessoas são volúveis ao “ar do tempo”, ou seja demasiado sociais. Com poucos ou nenhuns valores perenes.
        Barro maleável ao desenho político.
        Em 20 anos Hitler transformou os Alemães em Nazis, bastaram menos dos dedos de uma mão em anos para os Portugueses que encheram praças a Marcelo Caetano passarem a declarar o seu fervor Revolucionário. Do dia para a noite desapareceram os “fascistas”.

  2. E para o da Maia deixo ainda mais um exemplo da destruição civilizacional e humana, objectivo de sempre da Esquerda Marxista*.

    Is having a loving family an unfair advantage?

    http://www.abc.net.au/radionational/programs/philosopherszone/new-family-values/6437058

    “One way philosophers might think about solving the social justice problem would be by simply abolishing the family. If the family is this source of unfairness in society then it looks plausible to think that if we abolished the family there would be a more level playing field.”

    ou

    “I don’t think parents reading their children bedtime stories should constantly have in their minds the way that they are unfairly disadvantaging other people’s children, but I think they should have that thought occasionally.”

    *Que como disse hoje está sediada nos média e no complexo político-educativo. E com mais força nos países anglo-saxónicos.

    1. Pois, seguindo o que escrevi antes, esse é o caminho gelado da unificação.

      Já agora, aproveito para responder aqui ao teu apontamento sobre os “saltos altos” – tinhas então tu razão. Pensava que tinha sido um incidente isolado. Sendo sistemático, parece ser de facto outra coisa.

  3. Parece o Bandarra ou Zizek. Pega-se numa notícia superficial já ideologicamente formatada ao gosto do tempo (a culpa do homem branco) e Zás sai uma teoria com recurso a termos como ideologia, retorno, contaminação e o caneco. Depois cai em armadilhas do tempo de Giambattista Vico, como chamar ideologia primária a uma teocracia e coisas do género. E depois na solução final tão apreciada pela burguesia liboeta e nova iorquina: temos de resolver isto porque isto é inadmissível.

    1. Pois, eu sou o primeiro a considerar que aqui no Delito me estragam com mimos. Claramente despropositado este destaque.

      Entre Bandarra ou Vico e o Zizek, vão muitos séculos, mas agradeço a capacidade sintética. Afinal uma mão e um pé também têm 5 dedos, mas curiosamente não servem o mesmo propósito.
      Há quem considere que sim, mas esses ainda andam aos saltos… nas árvores.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *