O comentário da semana


Pedro Correia,

«Este texto toca ao de leve numa questão que me parece de toda a importância: muitas vezes são as próprias mulheres que, conscientemente ou não, vão transmitindo e perpetuando a discriminação através dos filhos. Seja porque nunca questionaram os princípios que lhes foram incutidos, porque os acreditam verdades universais, ou por simples inércia.
Já ouvi da boca de mulheres que “elas” são piores condutoras. Já vi mulheres que ensinam as tarefas domésticas às filhas, mas permitem aos filhos uma distância inquietante às mesmas. Dois exemplos num mar de possibilidades quase intermináveis.
Dou aulas numa escola primária, e há poucas semanas meninos do 1º ano (sim, 1º ano de escolaridade no ano de 2015), ficaram chocados quando, num tom informal e a propósito de um trabalho sobre peças de roupa, sugeri a possibilidade de lavarmos roupa na sala de aula: “Nem pense, professora! Isso é trabalho de mulher! Não pense que vou fazer isso, elas que façam!” Entre outras coisas verbalizadas com tal agressividade que me garantiram muitas horas a pensar no assunto.
O princípio fundamental da igualdade de género ainda não chegou a muitas mulheres. Quando isso finalmente acontecer, estaremos no bom caminho: a apenas 18 anos de distância de uma nova geração de adultos que sabem que o potencial de qualquer ser humano se mede pelas suas ambições, pelos seus valores e pela sua determinação, e não pelas suas características sexuais (ou cor, ou idade, ou classe social…)»

 

Da nossa leitora Susana A. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. Não me parece que haja grande problema nalguma especialização em certas tarefas de acordo com o sexo. Pode haver vantagens.
    Dou um exemplo que aconteceu comigo. Há dias estávamos com pressa para apanhar um comboio e havia duas coisas a fazer antes. Arrastar para a despensa um saco de 60 quilos e amamentar a criança. Eu e a minha mulher temos (ou tínhamos) a mania da igualdade absoluta dos sexos. Vai daí tratei do biberon e ela tentou arrastar o saco. Resultado: perdemos o comboio. Uns tempos mais tarde o cenário repetiu-se. Não fomos em cantigas: em poucos segundos peguei no saco e zás ficou no sítio. Ela rapou da mama e alimentou o garoto. Fomos para a estação descansados e felizes tomámos calmamente meia de leite, fomos comprar os bilhetes e sentámo-nos nos lugares à espera que o comboio partisse.
    Aprendemos a lição. Tenho mais exemplos mas fico por aqui.
    Homens e mulheres são iguais em dignidade. Fora disso há imensas diferenças que devem ser aproveitadas. Já não vamos em cantigas.

    1. Sim, há diferenças físicas e hormonais evidentes (vejam-se os resultados no desporto). Diz-se muita tolice e há muito oportunismo nas quotas. As quotas são uma vergonha porque toda a gente percebe o objectivo, não enganam. Querem ir para a administração de empresas, lugares de topo, à custa das quotas, para lugares baixos e mal pagos não interessa. Ou para postos políticos. E para mineiros, deve haver quotas?
      Estou de acordo que o que importa é a igualdade em dignidade (o conteúdo deste conceito levaria tempo a explicar). O resto é oportunismo. Como é disparate desvalorizar a maternidade.

    2. Vantagens em explorar diferenças subjacentes? Certamente. Não duvido que o anónimo, sendo do sexo masculino, tenha mais massa muscular do que a sua mulher, e nem vou abordar a questão da amamentação. Estamos a falar de questões básicas da biologia de cada género, com diferenças que são óbvias e indiscutíveis. Já a perícia para tratar de roupa ou para a orientação no espaço (como refere um leitor mais abaixo) é que não sei em que gene residem. Sendo eu arquitecta e partindo loiça de cada vez que a tento lavar (já para não falar na minha incapacidade quase total para engomar bem uma peça de roupa), só posso supor que saí ao meu pai.

  2. Hoje esses exemplos já são a excepção à regra. Essas excepções, existirão sempre porque, por muito que queiramos mudar mentalidades, há sempre aquelas que resistem a essas mudanças. Já não existem escolas primárias, mas sim, escolas do primeiro ciclo. Aqui está uma mudança que as pessoas insistem em não mudar.

    1. Caro anónimo, desconhecia que a nomenclatura desempenhasse um papel assim tão significante no conteúdo. Longe de mim querer ser força de bloqueio, pelo que não incorrerei novamente em tal “insistência”.

  3. “Já ouvi da boca de mulheres que “elas” são piores condutoras.”

    Natural, as mulheres têm mais dificuldade espacial, a maioria compensa com mais cuidado e consciência…

    1. Não sei se o que diz é verdade. Mas note que, muito provavelmente, a autora do comentário não admite diferenças hormonais etc. Dizem os entendidos que o cérebros feminino e masculino não se organizam da mesma maneira.

      1. Cara Clotilde, não sei onde quer chegar com o seu raciocínio. Agradeço apenas que não deturpe aquilo que eu escrevi, nem faça suposições abusivas.

        1. As mulheres terão de facto a mesma capacidade e vontade para liderar?
          A maior parte do políticos que se notabilizaram como ditadores são homens. Haverá um dia tantas ditadoras como ditadores?
          Quando vejo um par de motocicleta é praticamente sempre (não me lembro de ter visto excepção mas claro que pode haver) o rapaz que conduz e a rapariga que vai no outro banco. Porquê? Deveríamos aqui aplicar as quotas?
          Se calhar metade homens e metade mulheres nos lugares de topo da administrações de empresas não está bem. Se não forçarmos as coisas e criarmos antes as facilidades necessárias, com as quotas se calhar acabarão por ter 20 por cento de mulheres e 80 por cento de homens. E em educadores de crianças será ao contrário. As quotas são uma arbitrariedade e foram definidas em grande parte por mulheres que, na política, querem ter facilidade em subir.
          Lido muito mal com as quotas porque já ocupei lugares de relativo relevo e se calhar há quem pense que fui chamada para satisfazer as quotas e não por mérito.
          Por que é que no sexo o homem desempenha o papel activo? Algumas tontas até querem proibir o piropo…para proteger as incapazes das mulheres. Detesto o paternalismo.

          1. Mas quem é que falou em quotas? Em momento nenhum as defendi. Mais – sou contra elas. O que me revolta é que ainda se parta do princípio (e ainda se eduquem crianças nesse sentido) de que algumas características, em nada relacionadas com a biologia humana, estarão mais ou menos presentes em alguém por causa do seu género, quando na sua génese estão factores ambientais e culturais. Mostrem-me estudos científicos sérios que demostrem a relação entre, por exemplo, aptidão para a condução de veículos ou para o raciocínio matemático e os diferentes géneros, e eu acreditarei.
            É que os mais recentes, não sei se está a par, apenas nos falam de profecias auto-realizáveis (tanto se diz à Maria que ela vai conduzir mal, que ela fica nervosa e acaba por… conduzir mal). Psicologia no seu estado mais básico.

            Dois links para se entreter um pouco:

            http://news.sciencemag.org/math/2014/03/both-genders-think-women-are-bad-basic-math

            http://www.ionline.pt/artigos/portugal/mulher-ao-volante-afinal-nao-perigo-constante

          2. “Mas quem é que falou em quotas? Em momento nenhum as defendi. Mais – sou contra elas”. Eu quero aplaudir.

          3. “Mostrem-me estudos científicos sérios que demostrem a relação entre, por exemplo, aptidão para a condução de veículos ou para o raciocínio matemático e os diferentes géneros, e eu acreditarei.”

            Há vários estudos é só procurar.

          4. “Mostrem-me estudos científicos sérios que demostrem a relação entre, por exemplo, aptidão para a condução de veículos ou para o raciocínio matemático e os diferentes géneros, e eu acreditarei.”

            Os mesmos estudo também encontram mais aptidãos das mulheres na fala/linguagem.

          5. Lucklucky, esses estudos existem, mas os mais recentes apontam para uma causa cultural/ ambiental e não inata. Ou seja, a educação para o estereótipo cria o efeito.

  4. lavarmos roupa na sala de aula: “Nem pense, professora! Isso é trabalho de mulher!

    Lavar a roupa não é trabalho de mulher nem de homem, é trabalho de máquina de lavar. E parece-me ridículo estar a sugerir a crianças que lavem a roupa na sala de aula, quando elas sabem perfeitamente que lavar a roupa não é trabalho que seja, nem que deva ser, normalmente feito por humanos.

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