«Há um certo fatalismo na forma como encaramos a vida e suas transformações.
“Na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma”. A lei de Lavoisier aplica-se também aos regimes.
Parece-me que não nos apercebemos da grandeza das transformações que estão para ocorrer, e que se iniciaram precisamente com o fim de um ciclo em que as massas eram controladas e/ou direccionadas para estruturar seus comportamentos por uma espécie de mimetismo.
Entretanto, com o fim do referido ciclo, entramos numa era em que a informação começou a ser em quantidade tal que as massas, elites e não elites, reagem quase que de forma paloviana.
Significa isto que este excesso de informação desestabiliza a mente, porque carece de julgamento e discernimento.
Para se poder viver e sobreviver é necessário ter uma razão para viver. É no meio de todas estas transformações, e por ausência da reflexão, que nos daremos conta que há um fundamento perdido, melhor, esquecido. Este fundamento é exactamente o mesmo que os alicerces de uma habitação, não se vêem mas seguram-na e tornam-na sólida. É simples reconhecer este alicerce: leva por nome ética.
Não necessitamos compreender e conhecer Aristóteles para aplicar a ética, para distinguir o que devemos ou não fazer para superar as desigualdades e contrariar as tendências que criam uma massa de esquecidos, para contrariar a institucionalização da pobreza e a exploração que desta se faz.
Esta ética, ainda que esquecida, já habita o Homem. É também conhecida por “regra de ouro”; e está traduzida nas mais diversas constituições que deviam reger e equilibrar as relações de um povo e entre os povos. Foi inicialmente escrita numa pedra ou tábua: “Ama o próximo como a ti mesmo”, isto é, “não faças aos outros o que não queres que te façam”.»
Do nosso leitor Vento. A propósito deste meu post.

Excelente comentário do Vento, como aliás é usual. Tenho o prazer de estar muitas vezes em desacordo com ele mas mais ainda de os ler.
No entanto, eu não diria que a ética está esquecida. Está ou transfigurada (sob formas “republicas”, que a equivalem à Lei, quando a lei deriva da ética e não o inverso) ou, e parece-me mais correcto, a corrente ética que tem vencido provém dos ensinamentos do Sr. Bentham e, levado ao extremo, é uma mistura tóxica de individualismo exarcebado e letargia pública.
Se, e seguindo os príncipios utilitaristas “básicos”, a ideia é maximizar o bem agregado comum e, em termos individuais, o nosso bem próprio, acaba-se a idolizar quem consegue – sem olhar a meios -, quem é “melhor”, mais famoso, mais rico. Por outro lado, esperamos dos outros que existam para nos conceder os benefícios que merecemos, pelo simples facto de termos nascido. Não existe uma noção de serviço – salvo serviço pelo benefício próprio – e não existe uma noção de socidade integral. Passamos de uma sociedade com classes, mas que exigia por isso mesmo um pacto entre as diversas classes (noblesse oblige), para uma sem classes formais mas com categorias informais: os de sucesso, a quem os louros são merecidos, e os outros, que não conseguem, culpa deles – trabalhassem mais, fossem mais inteligentes, tivessem pais ricos.
No entanto, nós no fundo revoltamo-nos contra isso. Vai contra a nossa natureza humana e o pensamento da “polis”, da sociedade, de viver de acordo com os outros e não só por nós mantém-se. Como se mantém a regra de ouro.
Obrigado, Carlos.
Também concordo com a perspectiva que aponta sobre a transfiguração. Eu não sou republicano, sou cristão. Ser cristão é procurar viver Cristo, sem impor Cristo. A Transfiguração, na tradição cristã, é uma revelação que ocorre no topo de uma montanha. Mas é necessário não só escalá-la (a montanha) como trazer alguém a ver. É um testemunho.
O que devemos equacionar é a dita evolução. O Homem levou cerca de cem mil anos, talvez muito mais, para fazer a descoberta do fogo e até mesmo da roda. No fundo descobriu o progresso.
Os ciclos deste progresso foram sendo continuamente reduzidos. Hoje em dia uma tecnologia de vastíssima complexidade pode tornar-se quase que obsoleta em menos de dois três anos.
Acontece que o progresso material, intelectual e do saber não foi acompanhado pelo desenvolvimento moral e espiritual. Encontramos uma enorme décalage nestas duas vertentes. Significa isto que este saber, que não passa de um mero saber funcional, não é capaz de construir a tão almejada busca da Felicidade. E é assim mesmo, os factos provam que o Homem em busca desta funcionalidade não só criou exclusões como se excluiu a si mesmo daquele outro Sabor que deriva da palavra Sapere, e escraviza-se para a manter (a funcionalidade).
Muitos sábios têm feito a apologia do retrocesso. É discutível, eu prefiro que o progresso continue até que o Homem constate o caos definitivo. É aqui, na dor e no sofrimento, que cada um de nós é capaz de compreender a razão individual e colectiva de viver. A Universalidade é o que garante a certeza da manutenção das diferenças, direccionando-as para um bem comum.
Por último, a equidade é bem diferente do que nos diz Passos Coelho e outros tantos, isto é, que todos participam para um não sei quê. Esta “equidade” que hoje se vive em Portugal e no mundo compara-se com a seguinte figura que usarei:
Coloque 4 pessoas saudáveis e mais outras quatro paralíticas diante de uma enorme árvore. O capataz diz: “Trepem todos aquela árvore. Mas os que são paralíticos ainda devem tirar os sapatos e as luvas”. Os últimos ficam piores.
Ora bem, é esta paralisia cerebral, quer sob o ponto de vista intelectual, quer do ponto de vista moral, quer do ponto de vista espiritual que é necessário curar. E a única forma de a curar, para além de deixar que os resultados falem, é proporcionar-lhes a descoberta que afinal em matéria de saber e utilitarismo se transformaram numa nulidade.
Porém, se muito do que vai escrito não se aplicar a cada um de nós (os que lemos o texto e os que poderão vir a ler) fica incompleta esta reflexão.
Abraço
Mais um Lamentável texto de Vento. É incapaz de sair das contradições da Revolução Francesa, parece-me que nem sequer as percepcionou.
Por isso não entende as implicações desta frase:
“não faças aos outros o que não queres que te façam”.
É o contrário do que defende.
O meu amigo lucky é sempre benvindo ou bem-vindo nas suas propostas.
As contradições que eventualmente queira apontar-me colocar-se-ão, certamente, no plano de sua retórica e não de facto. Venham daí exemplos.
A revolução francesa é um facto que tem norteado os seus comentários, mas não me use para a abordar. Faça-o com o pleno uso de sua liberdade, isto é, sem necessidade de inventar um pretexto.
Há uma revolução que se iniciou e que ainda não acabou, melhor, que ainda não está implementada. Teve início há 2014 e ainda hoje é denominada de loucura. Veja se é capaz de se situar nesta. Esta faz do próprio Homem objecto de sua luta, uma luta individual; e o resultado é a descoberta da ética que o habita e de uma consciência que ultrapassa o saber.
Mas as tensões continuam a produzir-se e as lutas perpetuam-se.
“Há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens”, e enquanto houver estes encontrará sempre muitas revoluções.