«As chamadas Redes Sociais, criadas com a finalidade de sociabilizar (vulgo engatar gajas), há muito que perderam a inocência, o propósito do convívio, da proximidade, até mesmo da amizade.
São campo de caça de predadores sexuais, de fanáticos ideológicos, de inescrupulosos manipuladores de consciências, até de criminosos e assassinos.
À consciência de multidão basta uma pequena faísca para uma simples rixa convulsionar num motim cuja escalada se torna imprevisível. O verniz que prende a irracionalidade estala ao primeiro eflúvio do sangue derramado e a partir daí é a consciência de manada que agrega todos em um, com perda total dos sentidos da percepção excepto o da sobrevivência da espécie, o do animal cruel que nunca deixámos de ser.
Não pode haver leviana presunção de que às ex-inocentes redes sociais não deve ser dado grande crédito. Muito pelo contrário. Movem, seduzem, reduzem, angariam, armam milhões. Mobilizam mais adeptos para uma qualquer função, que 10 partidos políticos em campanha eleitoral conseguem juntos levar a votos.
Estamos à beira da pré-calíptica era Mad Max, que sucederá à dos Hunger Games, mais próxima no tempo do que se crê.
Lamento a perda daquela família cujo ente querido saiu para “ir à Bola”. Podia ter sido a minha.
Lamento ainda mais a vida que se perdeu. Para ele tudo acabou num fim que não significará nada.»
Da nossa leitora Maria Dulce Fernandes. A propósito deste meu texto.

Há uns anos, depois de um jogo em que o FCP foi derrotado, ouvi um fulano dizer a outro que não sofreu tanto nem quando o filho esteve hospitalizado. Desde então, nada mais me surpreendeu.
Agradeço. 🙂
Acho sempre extraordinariamente curioso que as redes sociais tenham costas tão largas. Em primeiro lugar porque a maioria das pessoas que escreve “redes sociais” na realidade quer dizer Facebook. E depois, porque quando alguém escreve sobre redes sociais está a dizer mais sobre a utilização que dá a estas plataformas, do que às plataformas propriamente ditas.
No Facebook e sobretudo no Twitter, escolhemos o conteúdo a que queremos ter acesso. Filtramos de acordo com os nossos gostos.
As redes sociais são tão “campo de caça de predadores sexuais, de fanáticos ideológicos, de inescrupulosos manipuladores de consciências, até de criminosos e assassinos” como o mundo lá fora. A diferença é que aqui podemos (enfim, moderadamente) escolher.
Se alguém perdeu “a inocência, o propósito do convívio, da proximidade, até mesmo da amizade” é porque escolheu fazê-lo.
Eu continuo a usar as redes sociais (Twitter, Facebook, etc.) para conviver, para me aproximar de quem está longe, para debater e trocar ideias com pessoas às quais, de outra forma, seria difícil o acesso.
Como qualquer ferramenta social, estão cheias de humanos, estão cheias de erros, imperfeições e até abominações. É natural. Estão cheias de humanos.
Mas as nossas ruas também.
Caro Pedro Correia,
Este tipo apocalíptico, digamos, é um pouco exagerado. Montecchios e Capuletos aconteciam nas melhores famílias. No século XIX, já nos seus finais, era perigossíssimo viajar de Sevilha a Granada (leiam Washington Irving). Quanto ao senhor que saiu para “ir à bola”, desculpem o meu cinismo, mas parece que não era só para ir à bola que ele saía, mas isto é o que ouvi dizer. É claro que tudo isto é uma besteira porque está cheio de bestas, mas daí a culpar as redes sociais e dizer que estamos à beira do mad max, ou a engatar gajas, então é caso para dizer que sempre vivemos à beira dele! É que andar “à porrada” ou a “engatar gajas” foi sempre uma constante.
Ah não que não são para “engatar gajas”. Raramente envolvem boas intenções e o dia-a-dia diz-nos isso.
Eta, malta ressabiada ! Cumué que mecês num cumentaram lá no texto hein?
E isso das opinião, cumpadis? Si fosse tu a escrevê tava tudo bão, num era?
Daqui cum acordo, a vê se mecês acorda, sô.
Leio por aqui que o tom é algo apocalíptico e que as redes sociais não são, como se diz das armas, dos automóveis – enfim de quase tudo -, em si mesmas más: mau é, ou pode ser, o uso que delas se faz.
Quanto a isso, e aceitando que de uma conta no facebook (que por alguma razão se confunde com “rede social”…) se pode fazer um uso inofensivo e perfeitamente bem intencionado, a verdade é que desde logo e mesmo nesses usos tidos por inofensivos e bem intencionados, essas coisas têm largamente servido para a destruição – de um culto de bom uso, formal e substantivamente, pelo menos; reduzindo-a a mera ferramenta, e má – da língua (uma perda cultural – um retrocesso civilizacional, para usar locução tão na moda – que só a mais arrogante e dominante ignorância pode desprezar) e para a destruição massiva e auto-infligida de uma noção de recato, de privacidade, de vida íntima que, suspeito, um dia poderá ser dolorosamente lamentada por tantos daqueles que hoje a tomam por anacrónica e por anacrónicos os que a invocam e defendem.
Bate tudo certo, infelizmente, se atendermos ao que nos é dado testemunhar nesse tipo de programas de televisão de devassa absoluta da vida privada e seus participantes – e sua exuberante cobertura por certa imprensa, imprensa que por certo ofenderá aqueles que do jornalismo guardam uma réstia de brio e dignidade -, absolutamente inqualificáveis sem o recurso a palavras que não usarei por aqui.
Desgraçadamente há-de ser esta a geração dominante nas redes sociais, no facebook. A seu tempo, no país. Porque gosta de se afirmar perante tudo e todos, tem essa necessidade de se revelar triunfante e desafiadora: vácua, inculta, mal-educada, arrogante no seu mau gosto, boçalmente triunfante sobre o trabalho, a educação, o esforço, a civilidade, a arte, a cultura, bizarramente vestida e calçada, preguiçosa até à medula, inundada de direitos adquiridos, desprezando a autoridade, pasto fácil da (de ainda mais) estupidez. Ou de muito pior.
Uma lástima que o futebol, de origens bem mais louváveis e que já cá estava antes de tudo isto, esteja também a cair inexoravelmente no domínio dessa gente e até, pelo comportamento de tantas das suas estrelas, mais do que cair esteja a contribuir para este, até ver imparável, triunfo dos bárbaros.
Um exagerado, eu, bem sei.
Costa