O comentário da semana


Pedro Correia,

«A norma, bem ou mal, fez-se em 1911. A questão deveria ter ficado terminada aí; não ficou porque o Brasil, com o seu habitual chauvinismo, não gostou de ser excluído de tal questão por um país soberano que estava a legislar sobre assuntos internos. Desde então se tenta fazer o impossível, isto é, unificar a ortografia de dois países que continuarão a mudar a ritmos diferentes e que têm díspares níveis de alfabetismo, com todas as consequências que isso causa na estabilidade da norma – no caso do Brasil, com um vertiginoso nível de analfabetismo funcional, onde se escreve como se ouve, isso significa que a ortografia será sempre mais instável do que num país razoavelmente alfabetizado como Portugal, pelo que nenhuma norma pode servir ambos países ao mesmo tempo.
Todos os acordos desde o de 1911 têm sido inúteis e nocivos; apenas resultam na obsolescência de manuais escolares e livros e em gastos de actualização de milhares de palavras em montras, repartições, estabelecimentos, ministérios, etc., pelo país fora. Quanto se gastará, por exemplo, a converter cada Direcção-Geral numa Direção-Geral? Quem fez estudos sobre isso? Qual será a factura? Alguém quer saber, alguém se interessa por isso?
Melhor teria sido se cada país tivesse aceitado que, estando separados geográfica, política, cultural e economicamente, as suas normas seguirão por sendas diferentes, a ritmos diferentes e ao sabor dos condicionalismos que cada um tem de enfrentar, e que não havia nada a fazer senão respeitar a diferença de cada. Nada mais justo, nada mais tolerante. Mas justiça e tolerância não são virtudes estimadas pelas elites políticas luso-brasileiras.»

 

Do nosso leitor Miguel. A propósito deste meu texto.

7 comentários em “O comentário da semana”

  1. Falta agora saber se o ilustre destacador do comentário em epígrafe concorda com a tese do comentarista.

    De que é chegado o tempo do divórcio amigável, de que é hora de deixar a língua brasileira fazer soar o seu grito do Ipiranga, de que sai demasiado caro tentar travar a acção inter-continental da fonética e de que se deverá aceitar que esta dite o curso dos acontecimentos linguísticos nas lusofonias.

    1. Tenho destacado muitos comentários dos quais discordo. O critério fundamental não é a minha anuência pessoal.
      Os critérios dominantes são outros:
      – Presença assídua nas nossas caixas de comentários
      – Originalidade do comentário
      – Qualidade da escrita
      – Potencial de polémica do respectivo conteúdo

    2. Há muito tempo, meu caro, que se deveria ter aceite a formação de uma nova língua: o brasileiro. Correspondendo aliás a um movimento intelectual que parece ter por lá existido. E admissivelmente existirá ainda. Uma língua algo semelhante ao português, mas que despreza crescente e militantemente – havendo decerto excepções meritórias – o português, baseando-se em dois terríveis critérios que nunca serão sinais de mérito e rigor: a facilitação pura e dura e o volume de falantes. Em suma, o nivelamento por baixo.

      Uma língua que na verdade os portugueses até compreendem com facilidade, chegando rápida e servilmente a integrar algum do seu vocabulário. Com o mesmo lamentável fascínio apatetado – é triste, mas as coisas são o que são – com que absorvem as novelas televisivas, sorvem caipirinhas e exibem os pés mal cuidados em chinelas com a bandeira do Brasil, sentindo-se muito na moda e imaginando-se (em plena Brandoa ou Caparica) algures num idílio tropical.

      Era a melhor forma: o Ipiranga da língua. Sem mais cedências (massivamente unilaterais e a nosso desfavor, aliás, e parece que nunca suficientes) e sem mais mal-estar. Enquanto nos entendêssemos, eles em brasileiro e nós em português, muito bem. Quando o afastamento o impedisse, haveria sempre o inglês.

      Goste-se ou não ainda é a língua franca. E a ser alguma vez destronada nesse papel, parece-me que muito mais facilmente o será pelo mandarim do que pelo português (que não tem que ter qualquer vergonha por isso, nem que embarcar em megalomanias insustentáveis).

      Costa

  2. Permitam-me já agora esta remissão:

    http:/ http://www.rtp.pt play p1550 e153549 /livre-pensamento

    O livro, li-o quando publicado. Esta entrevista encontrei-a por acidente, ontem pela noite, já hora tardia, claro, num canal que “ninguém” vê, evidentemente, enquanto o país, muito lucidamente, se entregava em entusiasmos abnegados, em honras que se impunha lavar e em eruditos e preclaros raciocínios, ao debate das incidências (encanta-me, este “incidências”, desde que pela primeira vez o ouvi) do Benfica – Sporting.

    O tema não é o AO90 . Mas é-lhe afim e fatalmente cai nele (o tal acordo só podia ser filho do estado de coisas que é relatado; estado de coisas que não é novidade). Com uma conclusão lapidar.

    Costa

    1. Encontrei a entrevista através do Facebook , é duma lucidez estarrecedora e horripilante: pobres crianças, pobre sistema nacional de ensino. Maria do Carmo Vieira pinta um terrível quadro do que se passa nas escolas e das pessoas ignóbeis que controlam os métodos de ensino. Como é que esta gentalha obteve tanto poder? Porque é que os políticos lhes prestam atenção?

  3. A questão do nível de literacia dos países nada tem a ver com o debate. Em Portugal também se escreve como se ouve e o analfabetismo funcional é alarmante (para não falarmos da iliteracia propriamente dita, muito superior a de vários países do chamado Terceiro Mundo). A questão é de ordem etimológica e histórica. Seria razoável que houvesse, sim, um acordo ortográfico, mas respeitando estes pontos essenciais do debate. Ou ao menos algum ponto, já que os artífices deste acordo não obedeceram a qualquer critério. O ideal, neste caso, é a desobediência civil.

    Cumps

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