O comentário da semana


Pedro Correia,

«Também eu sou um devoto da literatura policial – não só da literatura, mas mais do universo do livro policial em geral, mesmo de tantos e tantos livros que nunca teríamos o desplante de considerar como obras literárias – e espero que, neste ou noutro contexto, venhamos a ter tempo e espaço para discutir o assunto com a atenção e o fervor que ele merece. De qualquer maneira e fazendo um esforço por esquecer, momentaneamente, as muitas pistas que o seu texto apresenta, permito-me, pelo menos, referir, entre os clássicos, cinco nomes que não menciona e que me causam sempre uma agradecida emoção:

Émile Gaboriau, escritor francês de meados do século XIX, considerado por muitos como o pai do romance policial, tido como o inspirador de Arthur Conan Doyle e de Maurice Leblanc e dos seus, respectivamente, Sherlock Holmes e Arsène Lupin, criador da figura de Monsieur Lecoq, autor de quem me lembro, em especial, de L’ Affaire Lerouge, de Le Crime d’Orcival e de Le Dossier nº113.

Nicholas Blake, pseudónimo do consagrado poeta irlandês Cecil Day-Lewis, professor em Oxford e Harvard, activista político e, já agora, pai do actor Daniel Day-Lewis, criador do detective Nigel Strangeways e autor do que é, para mim, um dos melhores romances policiais de sempre, The Beast Must Die – A Fera Tem de Morrer, na edição portuguesa da Colecção Vampiro.

Este livro está na base do argumento do extraordinário filme de Claude Chabrol, Que La Bête Meure – Requiem Para Um Desconhecido – de 1969, com Jean Yanne, Caroline Cellier e Michel Duchaussoy.

Eric Ambler, escritor inglês cuja vida passou por quase todo o século XX, conjugou o romance de espionagem com o romance negro e deixou-nos também, em minha opinião, um dos melhores exemplos do género, sem cair na facilidade de ultrapassar os seus limites (estou-me a referir aos limites do género, cujo esquecimento, tão frequente em alguns autores, muito ajuda a sua produção literária), The Mask of Dimitrios – A Máscara de Dimitrios, na edição portuguesa da Editorial Século, a cuja belíssima colecção Mistério e Acção o policial, em Portugal, muito deve igualmente.

 

Frank Gruber, fertilíssimo escritor americano, também conhecido pelos seus westerns, teve, quanto a mim, uma produção muito, mas mesmo muito, irregular, tendo publicado dezenas de livros de baixa qualidade.

A série de aventuras dos seus heróis Johnny Fletcher e Sam Cragg faz-me, no entanto, perdoar-lhe quase tudo. São histórias hilariantes, passadas em ambientes que podemos descrever como pertencentes a uma América profunda, mesmo, paradoxalmente, quando têm lugar em Nova Iorque ou Chicago, histórias em que os ambientes mais modestos, os hábitos e valores da gente humilde do campo e dos meios operários são descritos com impiedosa precisão e os costumes urbanos são violentos e pouco sofisticados.

São livros policiais excelentes, que, em português, encontramos, principalmente, na colecção Vampiro e de que, assim de repente, destaco Ossos do Ofício, A Raposa Que Ri e O Relógio Falante.

 

Ed Mc Bain, um dos vários pseudónimos de um escritor americano, também conhecido pela sua obra, produzida sob o nome Evan Hunter, Sementes de Violência na edição portuguesa que conheço, da colecção de bolso da Europa-América. Este livro foi adaptado ao cinema, com o título The Blackboard Jungle, de Richard Brooks, com Glenn Ford e Sidney Poitier. Como escritor do género policial, ficou justamente famosa a sua extensa série sobre o dia a dia de uma esquadra de polícia, a do Distrito 87, situada numa cidade imaginária que corresponde, quase exactamente, a Nova Iorque. A série é claramente uma antecessora, não sei se voluntariamente por parte desta, de Hill Street Blues, que, muitos anos depois, viria a ter grande êxito na televisão.

Em Portugal, encontra-se basicamente publicada na colecção Enigma, da editora DH, que foi, ao que julgo saber, propriedade de Andrade Albuquerque, que refere no seu post e que obteve algum êxito com o pseudónimo Dick Haskins.»

 

Do nosso leitor João Paulo Palha. A propósito deste meu texto.

3 comentários em “O comentário da semana”

  1. Li um ou dois policiais de Frank Gruber e gostei. Tem uma escrita seca, directa mas bestial para a atmosfera que quer criar e sobretudo boas tramas. Nunca percebi se alguma rudeza não era também das más traduções, às vezes feita por dois ou três caramelos diferentes.

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