O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«Querida Helena

Compreendo-a tão bem. Eu sou um pouco mais jovem do que a Helena, isto é, mais jovem no Cartão de Cidadão (confesso que Bilhete de Identidade é bastante mais poético) e partilho o mesma admiração, paixão, encantamento, o que for, pelo Robert Redford. Conheci-o numa matiné de um cinema de província, o meu Cinema Paraíso, conheci-o e comecei a sonhar. Aquela era a figura acabada do príncipe encantado. Procurei-o por todo o lado e foi numa página de O Século Ilustrado que o encontrei. Recortei-o – um bocadinho de papel que comigo amareleceu, esgaçou, perdeu a cor das letras e, por fim, com muita pena minha, se desfez, também o “meu” Robert Redford já era uma mancha muito borrada num papel de má qualidade. Vi – quase – todos os seus filmes. Cresci com Dois Homens e Um Destino, de mãos dadas com a minha Avó, tremi com as minhas amigas nas Brancas Montanhas da Morte e com o meu pai numa das muitas conversas que tive e ainda tenho, discuti sobre o Bem e o Mal, depois de termos visto A Golpada, claro que a música também não nos deixou indiferentes. Mas foi com o Great Gatsby e no “escurinho do cinema”, com o meu príncipe de então, que eu me rendi – alma e coração – ao belíssimo Gatsby – (Ai! Leonardo Di Caprio, muito pão com côdea ainda terás tu de comer!).

Eu já gostava do Jay, confesso, mas o Robert Redford deu-lhe um brilho maior. Sempre com lágrimas nos olhos já vi não sei quantas vezes África Minha. Sozinha e com os meus filhos. Isto, só para citar “os” filmes que não são da minha vida – nunca percebi muito bem esse conceito – fazem parte da minha vida. Cresceram comigo e com as minhas memórias, recordações, fantasias. Tudo isso. O senhor tem muitas e belas rugas, continua a fazer filmes, a realizar filmes, a ser um garboso actor de cinema que ainda faz sonhar muitas raparigas. Como nós. Não, o coração não envelhece, porque felizmente ainda há um ou outro príncipe que nos consegue montar num qualquer cavalo encantado e levar para mundos distantes. Só nossos. Não morras ainda, Robert – fazes cá muita falta.»

 

Da nossa leitora Linda David. A propósito deste texto da Helena Sacadura Cabral.

 

Imagem: Robert Redford em O Grande Gatsby (1974)

5 comentários em “O comentário da semana”

  1. Linda e Pedro
    A ambos um obrigada.
    À Linda, pelo comentário, belíssimo. Só quem alguma vez se apaixonou por um actor, entende que ele até pode, aos nossos olhos, envelhecer, porque no nosso coração a sua imagem será sempre a mesma.
    Ao Pedro, pelo destaque devido que deu à palavras lindas da nossa Linda!

  2. Muito obrigada pelas vossas palavras, fico muito feliz por terem escolhido o meu comentário para comentário da semana.
    Continuarei leitora fiel do Delito de Opinião e comentarei o que por aqui for dito, quando achar – veleidade das veleidades – que tenho alguma “coisa” para dizer.
    Boa semana.

  3. Percebo-a, Linda. Tenho medo de ir ver ete novo Gatsby por causa disso mesmo: melhor do que o primeiro (ou mesmo tão bom como ele) é impossível, e o Redford é o principal responsável por isso. 🙂

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