O comentário da semana


Pedro Correia,

«A passagem dos jornais para o digital não é, em si, um problema. Antes pelo contrário; é melhor que não se gaste tanto papel. O problema é que ainda não se encontrou um “modelo de negócio” que torne os jornais digitais como eram dantes os em papel. A publicidade não rende tanto e tem sido difícil habituar os leitores a pagar, uma vez que têm notícias de graça nos chamados “agregadores” – sites que vão buscar as notícias aos jornais, em papel ou não. Mas o Wall Street Journal e o Financial Times já conseguiram fazer essa passagem; o New York Times tem 500 mil assinantes digitais.
Quanto à qualidade dos jornais – portugueses, neste caso – só em parte é responsável pela quebra de vendas; no Estado Novo os jornais eram piores (por causa da censura) e vendiam bem. O que determina a quebra de vendas é que as pessoas tomam conhecimento das notícias pela rádio, tv e internet – tudo instantâneo e movido a electricidade. Os hábitos e a tecnologia estão a matar os jornais em papel.
Quanto às revistas (ainda em Portugal), ao contrário do que alguém diz aqui, não têm muitas assinaturas. Nos Estados Unidos há o hábito de assinar as revistas que se lêem regularmente, mas aqui não. Passarão ao digital, mas lenta, mas inexoravelmente.
Então a qualidade do jornalismo é pior agora do que há, digamos, vinte anos? É. Toda a gente vê isso. Mas não tem a ver com papel e digital; tem a ver com uma menor exigência dos leitores. É triste, mas é verdade. Por exemplo, mesmo numa revista, a ordem é para não escrever artigos muito longos, se não as pessoas não lêem. Talvez porque se habituaram à televisão, querem mais imagens e menos texto.
Isto é mau? É. Mas não vale a pena chorar; há muitas grandes tecnologias/técnicas e artes que desapareceram, substituidas por outras, num trade-off – as vantagens das novas por alguma razão superam as das antigas. Por exemplo, entre milhares: o ferro forjado produziu peças lindas, como as balaustradas das varandas, portões, etc. Foi substituido por alumínio trabalhado à máquina, que não se compara em peso e aspecto. Hoje já é difícil encontrar quem conserte os ferros forjados dos edifícios do final do século XIX. Mas o alumínio, desenhado por um bom arquitecto, tem a sua beleza… Tanta coisa que desapareceu assim: fotografia analógica, música de câmara… Fica sempre um culto, mas só para alguns persistentes.
Voltando à imprensa, ela está a passar por uma mudança dolorosa, porque são sempre dolorosas, mas vai renascer com outra forma. Talvez as opiniões não sejam tão fiáveis, mas há acesso a dezenas e o leitor é que tem de distinguir…»

 

Do nosso leitor José Couto Nogueira. A propósito deste texto da Patrícia Reis.

Um comentário em “O comentário da semana”

  1. Em grande parte certeiro. Eu acho esta transição uma espécie do cinema mudo ao cinema sonoro.

    Mas há outra coisa. Eu estou muito melhor informado do que estava quando tinha que gastar dinheiro no afamado “Público” ou no enorme Expresso. E, outra coisa: para ler textos longos há milhares de livros acessíveis (e agora com o digital nem se fala). Lembro-me que nos anos 90s deixei de comprar o Expresso não só por ser desinteressante, por ter imensa política de PAssos Perdidos, por ter imenso papel que ia directamente para o lixo, por ter um internacional vácuo (o que sempre caracteriza a imprensa portuguesa). Mas sobretudo porque gastava imenso tempo do fim-de-semana a ler sobre … em vez de ler.

    Em suma, isto de ler coisas curtas e ver imagens não é défice, como se pode subentender neste comentário içado a texto.

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