O comentário da semana


Pedro Correia,

«Nos dias mais frios, sem televisão, nem Foxes Lifes, nem nada disso, apenas a manta em cima das pernas – ainda que fosse por breves momentos – a hora mais esperada, principalmente, por mim, que não comia nada, absolutamente nada, era a hora do lanche, era a hora da reconciliação com a comida, não com a comida toda, essa chegaria mais tarde, reconciliava-me com a tolha branca, as chávenas, o açucareiro, os guardanapos de pano – punha a mesa do lanche.

“Uma menina tem de saber fazer tudo”, teria, eu só percebia a utilidade de pôr a mesa para lanchar, ou melhor, para comer torradas. Amarelas de pão “que já não prestava para acompanhar o jantar, pão do almoço”. Algumas ficavam mais acastanhadas, rijas, estalavam quando as trincava. Pingavam manteiga pelos buracos “da alma do padeiro”, besuntavam-me as mãos, a boca, as mangas do vestido e até a pose – felizmente – besuntada de manteiga. Vinham do fogão directamente para a mesa. “Estão quentes, espera um bocadinho”. Não esperava. Torradas, manteiga e faca caíam-me das mãos.

Os gestos eram muito apressados, desajeitados, eu só pensava no momento em que enchia a boca com uma enorme fatia de pão a transbordar de manteiga. Estalavam dentro da boca, quando os dentes trincavam a parte mais dura da torrada amarela, ainda não amolecida, nem pela saliva, nem pela manteiga, estalavam os sentidos todos. Os dentes todos a fazer “música” com a torrada que não me deixava comer de boca fechada, “Tem maneiras”. Não tinha: aquele era o momento em que comer tinha, para mim, algum significado e condescendia ficar sentada à mesa, a abanar as pernas na cadeira alta, enquanto houvesse t o r r a d a s para comer, estalar na boca e, depois, uma a uma comer as migalhas amarelas, castanhas muito escuras, negras que ficavam espalhadas em cima da toalha que momentos antes tinha sido branca.

Ah! Aquelas torradas eram o único alimento que eu achava que deveria ser comido. Mastigado. Saboreado. O cheiro era, igualmente, delicioso. Toda a casa ficava a cheirar a torradas. Felizmente, fazia frio, por isso, não era necessário abrir as janelas. Cheiro, cor, estalidos e um sabor que justificava sentar à mesa e comer. Enquanto comia torradas era um exemplo de sossego e tranquilidade.

Ainda hoje, sem muito esforço, consigo imaginar o lanche, a torradeira de alumínio e cabo de madeira, que se punha em cima do fogão, ainda hoje consigo imaginar as torradas a estalar e a escorrer manteiga. Quando apareceram as torradeiras – um electrodoméstico muito útil e sofisticado, que até se podia pôr em cima da toalha branca – as torradas deixaram de ter o mesmo sabor, o mesmo cheiro. Aquele utensílio era perigoso e o traço de luz encarniçada que lá estava dentro era, afinal, um inimigo da minha curiosidade. Continuei a comer e a lambuzar-me de manteiga e torradas, mas torrada que é torrada vem do fogão, dentro de um prato de loiça branca, directamente, para a mesa.

Acabei por me habituar e hoje até lancho, pacificamente, uma torrada numa pastelaria, mas terei sempre a nostalgia dessas torradas à hora do lanche.

 

Da nossa leitora Linda David. A propósito deste texto da Ana Vidal.

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