«Dê graças a Deus (ou a quem preferir) por não ser economista! De repente, as pessoas começaram a achar que a economia era uma ciência exacta e quem a exerce deveria resolver e prever todos os problemas da humanidade. Temos pena, mas não é. É uma ciência social com todas as incertezas e imprevisibilidades que tal acarreta.
Vou tentar responder primeiro ao seu segundo ponto:
1) A diminuição da TSU vem responder à inexistência de um outro instrumento, a desvalorização da moeda. Uma como a outra, visam obter maior competitividade dos bens transacionáveis, produtos nacionais susceptíveis de serem comprados e vendidos, através da diminuição do seu custo. A baixa da TSU visa unicamente aumentar a competitividade diminuindo o custo do trabalho unitário.
2) A versão clássica passa pela diminuição da TSU sobre as empresas e a subida do IVA (para compensar a diminuição das contribuições). O que acontece? Primeiro os preços dos produtos nacionais descem e, em simultâneo, o preço final de todos os bens (nacionais e estrangeiros) sobem. Conclusão: os preços dos bens nacionais ficam mais baixos em relação aos bens importados. Apesar do aumento generalizado dos preços, há um efeito de substituição favorecendo os produtos nacionais. Isto no mercado interno. Nas exportações os nossos preços ficam mais competitivos. O rendimento disponível mantém-se mas, na generalidade, o consumo diminui e é substituído por bens nacionais.
3) Se a descida da TSU para as empresas, for compensada pelo aumento da mesma para os trabalhadores por conta de outrem, a competitividade das empresas aumenta na mesma, o efeito substituição por produtos nacionais também se mantém, as empresas exportadoras são igualmente beneficiadas, mas o rendimento disponível dos trabalhadores decresce.
4) Comparando o consumo:
a) Ocorre diminuição de consumo nos dois casos (no primeiro caso, em virtude do aumento generalizado dos preços e no segundo caso em virtude da diminuição do rendimento disponível); b) Contudo, a diminuição de consumo é maior com o aumento do IVA. Porquê? Porque o universo da procura interna (consumidores) é bem maior do que o consumo dos trabalhadores por conta de outrem. Inclui reformados e pensionistas, trabalhadores independentes e outros consumidores que auferem rendimento predial, capital e/ou outros. O aumento do IVA é mais gravoso na diminuição da procura interna.
5) Se for através do IRS, não saberemos muito bem para onde irão os nossos rendimentos (mas esse exercício é bem menos controlável e imprevisível)
Quanto ao seu primeiro ponto, com estes contornos, Portugal é o terceiro país do mundo a viver este tipo de realidade, pelo que não vejo mal algum em ser o primeiro com esta alteração da TSU. Isto digo eu, que não fiquei cristalizado no PREC…
(desculpe-me os erros e a má semântica: fiz o que pude em 10 mins)»
Do nosso leitor Paulo Abreu e Lima. A propósito deste texto do JAA.


Quem se propõe recuperar a economia baixando os salários não resolve os problemas estruturais que impedem que essa economia se mantenha em ciclos de pobreza (baixa de salários> recuperação> crescimento??> subida de salários> nova insustentabilidae > solução: nova baixa de salários). A Alemanha cresce há 50 anos seguidos? Não querem perceber porquê? O problema aqui é toda a mentalidade que domina a sociedade portuguesa e que normalmente é a de um escravo submisso. Há escravos insubmissos, note-se bem.
errata: onde se lê “se mantenha em” leia-se “rompa com os”
As sociedades não são monolíticas, Vasco.
A nossa parece – continuamos sem base industrial e as opçãos políticas parecem querer transformar isto na manufactura da Europa. Ora, eu acho que seria preferível que o impulso empreendedor nascesse aqui em vez de vir de fora.
Vasco:
É verdade; desvalorizar, seja por que forma for, não é normalmente uma boa solução. Mas analisem-se as crises de outros países ou a nossa de 1983 e chegar-se-á à conclusão de que a desvalorização (normalmente cambial), tendo efeitos negativos no imediato (a queda do PIB tende a ser muito superior à que estamos a experimentar), ajuda na recuperação. O problema passa mais pelas políticas implementadas durante os períodos em que não existe crise, que tornam inevitáveis ciclos consecutivos de desvalorização. É este processo que a Alemanha evitou durante décadas (mas na última, para manter a competitividade num mercado globalizado, até aceitou alguma desvalorização no poder de compra dos alemães, tendo, por exemplo, introduzido reformas no mercado laboral que limitaram fortemente a subida de salários). Na nossa situação actual, tornar os produtos importados mais caros e os nacionais mais baratos poderia ter efeitos positivos. E, já que não podemos mexer na moeda (a menos que saiamos do euro mas aí a desvalorização seria brutal e a perda do poder de compra também), este tipo de exercícios é a única forma que nos resta de procurar fazê-lo.
Uma coisa é baixar os custos do trabalho indirectamente (através da desvalorização da moeda no seu confronto com outras divisas e através do jogo entre importações e exportações), outra coisa é desvalorizar directamente os salários, que também tem efeitos psicológicos directos na produtividade e no bem-estar social. Enquanto que no primeiro caso, aliás, a inflação regula e controla automaticamente o valor do trabalho mas permite que os indivíduos, internamente, mantenham um nível aceitável de interacção económica, no segundo caso estamos a estimular directamente a poupança e a retracção.
Não sou economista, sou uma jurista que, em tempos, aprendeu umas coisas (poucas) de Economia. O meu único “trunfo” é o conhecimento objectivo que tenho da realidade económica portuguesa pelo facto de trabalhar com ela. Por isso atrevo-me a perguntar: que bens nacionais são esses cujos preços se espera que, desta forma, desçam? Confesso que não estou a ver…
Boa pergunta, Nicolina.
Viva, João! 🙂
Cara Nicolina Cabrita,
Não só trabalho com a realidade económica portuguesa, como trabalho nela. Assim sendo, atrevo-me a responder: Tenderão a descer todos os bens nacionais transacionáveis. O que são os “bens transacionaveis”? São todos aqueles que são transacionados num mercado concorrencional. Bens exportados e importados que, mesmo que não o sejam, são susceptíveis de o serem. Com a descida do custo do factor trabalho, com a diminuição do rendimento disponível dos trabalhadores por conta de outrem e com a concorrência intestina que se verifica no mercado externo e interno, as empresas tendem a baixar os preços por forma a não perderem quotas de mercado. Quem não o fizer, verá as suas vendas a decair em detrimento das outras. O consumidor, perante dois produtos iguais, mas com preços diferentes, optará pelo mais barato.
Não sei em que realidade económica vive, provavelmente nunca ouviu falar de cartelização.
Provavelmente já. Alguma questão…?
Desculpe insistir, Paulo Abreu e Lima, mas “todos os bens nacionais transacionáveis” parece-me um pouco vago. Há que concretizar. Em que produtos está a pensar? Agrícolas? Vestuário? Calçado? Acha mesmo que a TSU vai baixar o preço das batatas e das couves, das roupas e dos sapatos? E essa redução vai ser suficiente para compensar o aumento da TSU? hp?template=SHOWNEWS_V2&id=578923&pn=1
E ainda que o preço baixe, acha que os resultados vêm a tempo de compensar a quebra imediata do consumo? Ou, por outras palavras, tem a certeza que ainda existirão pequenas e médias empresas (que são as genuína e inequivocamente portuguesas) na altura em que os preços começarem a baixar?
Finalmente, serão os patrões portugueses uma cambada de idiotas? Estou a referir-me, por exemplo, a esta notícia: http://www.jornaldenegocios.pt/home.p
Nicolina Cabrita,
Não tem por quê pedir desculpa pela sua insistência. Na maioria de todos esses que referiu mais na couve roxa 🙂 Contudo, há produtos que têm comportamentos diferentes face à diminuição da procura. Um exemplo? Os famosos bens de giffen cuja alteração da procura é directamente proporcional ao seu preço (o pão é o mais referenciado). Outro exemplo de comportamentos diferentes? Os bens de luxo. Vai-me desculpar, mas vou ser mauzinho e remetê-la, a propósito destes bens, para a notícia que escolheu ao perguntar-me se os patrões são uma cambada de idiotas: a dinâmica de procura/preço destes bens de luxo é muito própria, pelo que é insignificante o embaratecimento via TSU do factor trabalho neste caso. A rigidez da procura é de tal forma que não altera o preço, logo podem-se dar ao “luxo” (cá está) de se armarem em bons patrões e repercutir migalhas em margens monumentais. Antecipando outra sua possível pergunta, então porque oficialmente a CIP também está contra esta medida? A Marcolina, como jurista, sabe que quem fica mal no retrato negocial é o governo se avançar com esta medida, logo só enrubustece o poder negocial do patronato ficar contra esta medida. Uma espécie de economia processual, se me fiz entender. Claro que depois existem os sectores energéticos, mas estes são regulamentados por entidades externas que participam na formação dos preços por indicação dos governos. O sector bancário é regulado pelo BdP e por aí fora. Quanto à cartelização? Existem em oligopólios e se já antes as entidades reguladoras da concorrência nunca conseguiram provar cartelização, esta prática manter-se-á. Por último, quero lembrar uma inevitalidade: tal como as pessoas, as empresas também nascem e morrem…
Não faço ideia o que é um “bem de Giffen”, mas felizmente há sempre o dr. google para resolver minimamente as dúvidas de ignorantes como eu 🙂
Assim, e se bem entendo, depois de uma breve consulta à Wikipédia, não faz mal que o preço do pão e de outros bens essenciais aumente porque, ainda assim, os pobres vão passar a consumir mais pão, na medida em que vão deixar de ter dinheiro para comprar comprar carne ou peixe.
Por outro lado, os bens de luxo podem ser mais caros que não será por isso que os ricos deixarão de consumi-los.
O seu raciocínio pode ser economicamente brilhante mas – desculpará – não me convence. Não é para isto que eu pago impostos: para os pobres ficarem mais pobres e os ricos na mesma. O governo tem obrigação de encontrar outra solução. Esta não serve. Não foi para isto que votei neles.
Tem razão, Anónimo, ainda existe esse … detalhe 🙂
Os ”erros e a má semântica’’ estão desculpados, Paulo, o português e a inteligibilidade não são claramente o seu forte. E claro que tem razão, quem discorda da baixa da TSU, ou, pura e simplesmente, não consegue perceber esta sua tortuosa justificação, só pode estar ‘’cristalizado no PREC’’ (adorável, essa flor de retórica). Agora a sério, quem quiser ler uma defesa pelo menos inteligível e totalmente insuspeita da medida, vá ao Causa Nossa ler os posts do Vital Moreira, ex-comunista e delfim de Cunhal no PREC, hoje euro-deputado socialista e amigo pessoal de Sócrates. Não há ali ‘’wishful thinking’’ nenhum, nem vontade de defender o governo. Só realismo, ‘’bipartisanship’’ a sério e alguém que sabe pensar pela sua própria cabeça, sem preconceitos tribais. Ele, sim, pode dizer que não ficou ‘’cristalizado no PREC’’. Vamos ver se os jovens neo-liberais ferverosos de hoje vão conseguir aprender, como ele, a desconfiar dos dogmas.
André sem acento,
Tente manter uma certa serenidade ou, pelo menos, uma serenidade inteligível, caso contrário compromete definitivamente a sua capacidade de concentração e, sem ela, lê o que não está escrito e começa a acreditar realmente no que acabou de escrever. Agora a sério, o eminente jurista Vital Moreira (que não é economista, mas, como diz, é amigo pessoal do Sócrates, este sim, profundo conhecedor de finanças públicas) acabou de escrever, no blogue que menciona, isto: «Por outro lado, é de prever que a descida sigificativa da contribuição social das empresas (quase seis pontos percentuais), tornando mais leve o custo do trabalho, reforce a sua capacidade de enfrentar a crise, reduzindo as suas necessidades de financiamento, aumentando a sua competitividade e travando a subida do desemprego (supondo que a descida da procura não neutraliza esse efeito). Ora, pior do que perder rendimentos é perder o emprego. Sem dúvida, a medida é muito penosa para quem a sofre, mas pode não ser tão má como parece nos seus efeitos.» De facto, um realista que até consegue concordar com “jovens neo-liberais ferverosos de hoje”. Serenidade, André sem acento, serenidade.
Exactamente, meu caro, eu também li. Ele concorda consigo e defende a baixa da TSU, apesar de estar à esquerda do governo. Era esse o ponto. Mostra “bipartisanship’’ e independência intelectual, inspirando confiança em quem lê. Você, pelo contrário, diz o mesmo que ele, mas acrescenta serenamente que quem discordar vive no PREC. E ajunta agora que, claro, o Sócrates era ‘’um profundo conhecedor de finanças públicas’’ (subentendido: era um animal). Com essas jóias de retórica, inspira automaticamente desconfiança e nunca vai conseguir convencer ninguém que não partilhe das suas antipatias tribais. Isto é, vai passar a vida toda a pregar apenas para conversos, o que me parece um bocado inútil. A escolha é sua.
Abraço
André,
Com franqueza, vim aqui, a este blogue, tentar responder a algumas perguntas estritamente económicas do JAA, não fiz qualquer consideração política, nem tomei partido por nenhuma opção económica e você, sumariamente conclui que:
1) faço parte de uma tribo;
2) exercito retóricas;
3) defendo que quem não concorda com a baixa da TSU vive no PREC;
4) ando a tentar convencer pessoas
Você vê muito, André, muito além do que escrevo, ou apenas aquilo que você queria que eu realmente dissesse e não escrevi?
Cumprimentos
Obrigado por ter deixado cair a história do acento, Paulo. Estava-me a chatear.
Abraço
“(…) quem quiser ler uma defesa pelo menos inteligível e totalmente insuspeita da medida, vá ao Causa Nossa ler os posts do Vital Moreira.” LOL. André, pela minha parte, agradeço o seu fantástico sentido de humor – mas acho que estamos todos aqui a tentar ter uma discussão séria.
Vasco, estou a tremer. A seriedade isenta desse comentário foi demolidora.
Abraço
Sempre às ordens. Um abraço.
Igualmente. Abraço.
Caro João Carvalho,
Grato pela referência, embora me pareça injusta. Não por falsas modéstias, mas este meu supra comentário só faz sentido complementado com os subsequentes comentários que no referido post tive oportunidade de dar.
Por isso os ‘links’ acrescentados ao seu comentário, Paulo, a permitir que as pessoas vão ao lugar certo (re)pescar tudo quanto lá está.
“Quem se propõe recuperar a economia baixando os salários não resolve os problemas estruturais que impedem que essa economia se mantenha em ciclos de pobreza (baixa de salários> recuperação> crescimento??> subida de salários> nova insustentabilidae > solução: nova baixa de salários). A Alemanha cresce há 50 anos seguidos? Não querem perceber porquê? “
Precisamente a questão certa, não querem perceber porquê.
No fundo o melhor exemplo do português são Marcelo Rebelo de Sousa e Mário Soares, ou seja não passam das tricas e táticas. O mais afoito que conseguem ser é proporem-se membros de um clube de ricos na esperança de o virem a ser também por simpatia…na verdade subsídios… parodoxalmente isso impede outras tricas de que tanto gostam como imprimirem dinheiro.
E não querem perceber porque isso implicava terem de mudar. E mudar implica mudar a estrutura de poder da sociedade portuguesa.
Um colega meu (vou mantê-lo no anonimato) teve uma idea genial, que se pode vir a revelar a panaceia para o deficit e, simultaneamente, para o populismo (uma vez que é mais populista que o pópulo): O salário de altos cargos da administração pública (isto é, a partir de chefe de serviços), deve ser indexado anualmente ao volume de poupança sectorial atinjido ano anterior.
A ideia é interessante.
(Pópulo é o nome de uma bela e ampla praia na ilha de São Miguel, mas isso não é tão interessante…)
Ouvi dizer que o governo tinha substituido a descida da TSU por mais 1/2 hora diária de trabalho, pelo fim das pontes e pela eliminação de 4 feriados, entre outras ideias luminosas.
Mas os meus ouvidos andam cheios de cera, só pode ser isso.
Dou graças à macacada que por cá anda, pois nunca acreditei que a economia fosse uma ciência exacta.
1º A diminuição da TSU não é igual a dividir o valor da TSU .
A maior desvalorização da moeda, tivemos em 2001, com a entrada do Euro, o que se fez com ela? NADA
2º A única vantagem que agora se apresenta é a da diminuição das importações, E, os portugueses que compraram casas e contraíram empréstimos em 2001 ou 2002 e agora deparam-se com um cenário de perderem 11 anos de trabalho, entregando estes a um qualquer banco.
3º É muito bonito falar assim, quando se recebe 1000 ou 2000 ou mais euros de salário, e quem recebia 600 ou 700?
Eu respondo: São muitos, e a vontade deles é cortar a cabeça dos filhos da puta que os empurraram para um falso sonho.