O comentário da semana


Pedro Correia,

«Precisamente: [ph é “antigo” apenas em Portugal e noutros países com iguais ou superiores índices de analfabetismo] iguais ou superiores índices de analfabetismo.
Ou de devastadora incultura, mesmo entre os alfabetizados. E de penosíssima falta de amor-próprio, coisa típica de um povo para quem o patriotismo se revela (e extingue) no fervor por uma “selecção” que no caso da de futebol nem carece dessa precisão; a coisa é presumida. E se exterioriza pela bandeira nacional exibida na varanda a pretexto do pontapé na bola – mesmo que colocada invertida… – e nada mais.
Um povo que não lê – a não ser os três jornais diários (!) de futebol – e as revistas de (perdoem-me a palavra) “sopeiras”. Donde, um povo para quem a única visão que interessa do idioma que falam é a funcional: entende-se o que se diz? Óptimo! Escrever não é problema, porque não se pratica. E para uma comunicação apenas rudimentar, uma fala ou escrita embrutecida serve muito bem. 
E sempre é “pogresso”, num país onde o antigo é “velho” (donde a abater, demolir, substituir).
E é por isso que bem temo que o Acordo Ortográfico paulatinamente vingue. É o que este povo merece.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste meu post.

10 comentários em “O comentário da semana”

  1. O director da escola onde trabalho lê A Bola e escreve “contatos”. Até passou a dizer “contatos”, vejam lá. E também anda de calções e chinelos. É um programa de modernidade? Será por ser retornado? Não. É apenas estupidez e imbecilidade profunda.

    1. Estupidez e imbecilidade profunda, mas alimentadas por uma campanha de desinformação nunca vista em Portugal – à altura do inédito do crime.
      Para a alfabetização nunca houve nenhuma.

  2. Por falar em futebol:

    Esta preciosidade da nossa correspondente da RTP, Drª Veloso, em Madrid:

    …” Mourinho despensa o futebolista português Carvalho…
    portanto, irá acabar a carreira ou em França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Italia… ou quem sabe em Portugal…!

  3. Li ontem numa legenda, nem me recordo em que canal televisivo, a palavra “exeção”. Juro. Eu nem queria acreditar nos meus olhos – e mesmo estando numa frase, levei um bom par de segundos a convencer-me de que aquilo era suposto ser “excepção”. Parafraseando Passos Coelho, isto é ir além da idiotice.

  4. A substituição do ph pelo f (por exemplo em ph/f/armácia):
    1. Só aconteceu em países com elevado analfabetismo? Ena, tantos países analfabetos por essa Europa fora!
    2. Para um País sem patriotismo, é impressionante como os Portugueses conseguiram ser o único povo da Península a resistir a Castela ao longo de tantos séculos.
    3. O povo lê pouco, é um facto. Lerá muito o americano comum?
    4. Entender o que os outros dizem/escrevem é bem bom. Infelizmente, não me parece assim tão comum…
    5. Essa do “pogresso” só pode ser a gozar com o nosso mais alto magistrado. Brincalhão…
    6. Bem verdade, antigo é sinónimo de velho, que por sua vez significa caduco, ultrapassado. Mas é só em Portugal?
    7. “É o que este povo merece”. Sentença bem azeda…

  5. Dez anos depois, dessa falta de cultura (pior, desse militante desprezo pela cultura; em regra afirmada em nada mais do que alegados festivais etnográficos – de básico folclore repetido – e de gastronomia – sardinhas, febras, entremeada, frango assado e mau tinto -, em festas de aldeia) pouco há a dizer: está robusta, é orgulhosa, arrogante. Essas revistas parecem multiplicar-se e os jornais da bola cá andam, umas e outros brilhantes e, como agora se consagra, “resilientes” representantes da imprensa portuguesa. Do uso da bandeira nacional como orgulhoso capacho desse fervor simiesco por uma selecção que nem é necessário dizer de quê, nada a dizer: está bem e recomenda-se.
    A fornada geracional que se segue à “mais bem preparada de sempre”, essa, já está formatada integralmente pelo AO90. E escreverá ainda menos que a anterior. Escreverá e lerá. Quando o faz é nos louvabilíssimos tik toks e afins (o facebook consta que já é para “cotas”, coisa largamente do passado: “velho”, cá está e talvez até demasiado sério, denso, para as nossas mentes só futuro) e, com AO90 ou sem AO90, em verdadeiras criptografias da estupidez.
    De modo que, de forma muito natural e fervorosamente desejada, entre Poder e Povo, a coisa vingou paulatinamente. Ainda há, é certo, uns “irredutíveis gauleses” (expressão cujo significado será já largamente ignorado).
    Mas a aldeia, temo, vai envelhecendo.

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