«Um exercício de memória que honra as figuras heróicas da Segunda Grande Guerra. Aprecio histórias de coragem. A coragem é a virtude que mais me agrada porque julgo não ser, particularmente, audaz. Deste modo, a perseverança do bem contra o mal sempre me fascinou. É uma luta constante, que tanto deflagra dentro de nós como pode ser ateada no contacto com os outros. É uma luta interna e externa que define o nosso carácter. As questões do bem e do mal exigem permanente vigília, como se estivéssemos sempre à prova. Quantas vezes somos confrontadas com a ignomínia, e achamos que devemos intervir e não o fazemos? Quantas vezes um simples gesto nosso poderia prevenir filistrias que prejudicam pessoas que nos são próximas? Quando questionas se valeu a pena este acto de justiça do povo checo perante um facínora, a minha resposta é um indubitável sim. Os nazis destilaram o mal que subsiste dentro de nós, até obterem um resultado compacto de uma pureza vil. Os justos não poderiam ficar quietos, mudos e paralisados perante essa gente, e mesmo que isto viesse a custar milhões de vidas, estas perdas não foram em vão.
Não é possível fazer uma análise contabilística de um acto de justiça desta natureza. É simplesmente impossível porque para vencer o mal absoluto temos que nos socorrer de males menores ou relativos. O mal corrompe os justos de uma forma indelével, obriga-os a fazer coisa impensáveis. Um assassinato é sempre uma iniquidade, mas não se pode fazer um juízo moral lúcido e clarividente se estamos a falar do assassinato de um ser infinitamente cruel e insensível, um bruto que só trouxe miséria e sofrimento à vida de muitos inocentes. Quando dizes que o monstro tocava violino e apreciava as artes, era um bom pai de família, vêm-me à memória Arthur Koestler, infelizmente muito esquecido, e o seu livro O Fantasma da Máquina. Koestler, à luz dos conhecimentos da época, diz que o nosso cérebro está dividido em três partes, sugerindo que o córtex frontal, a área do pensamento elaborado, poderá facilmente tornar-se refém dos instintos primários, ficar sujeita a perturbações reptilianas, dadas determinadas condições. Numa sociedade sem princípios e sem valores até o mais plácido cidadão pode tornar-se num criminoso. Os totalitarismos atomizaram as sociedades para que os laços, os elos, as empatias se desvanecessem e assim os homens ficassem permeáveis à manipulação através do ódio racial, xenófobo, abjecto, dando lugar ao réptil que ainda vive nas profundezas do nosso cérebro.
Dizem que a história se repete, sabemos que as sociedades contemporâneas assentam em equilíbrios frágeis, o que pode ressuscitar aberrações totalitárias, mas a evocação da coragem, patente no teu texto, é uma forma eficaz de ganharmos alento para que estes retornos às trevas sejam mais difíceis.»


Obrigado. 🙂
Um abraço, Bruno.
Abraço.
Destaque totalmente merecido.
Bom comentário para um excelente texto, JAA.
O comentário deve muito ao teu texto, não foi resultado de geração espontânea.