«Eu não tenho dinheiro. A não ser pontualmente. Trabalho sempre que posso e vou sobrevivendo. Depois, dá-me o amok e desalmo estrada fora, viajo. Sem dinheiro ou quase. Vou biscatando aqui e ali e aguento-me, com a ajuda extraordinária de grandes amigos e de pessoas que nunca me viram mais gorda, que já fui. É uma escolha de vida. Não me sinto pobrezinha e abandonada, embora achasse que seria mais confortável ter uns cobres certitos por mês. Utilizo as bibliotecas públicas e privadas assim como as livrarias para ler, já desisti há muito de ter uma biblioteca, não tenho dinheiro nem casa certa. Visito museus ou galerias de arte gratuitos ou em dias de entrada gratuita. Ouço música na internet, raramente, e ao vivo: às vezes pago para isso, e é um festim. Teatro, ópera ainda são ainda mais raros.
Em contrapartida, tenho muitas horas de silêncio e muitas horas de conversa, aprendo a natureza, eu que sou uma citadina, e conheço pessoas fantásticas. Não falo de artistas, cientistas ou intelectuais, falo de gente, digamos “na norma”, gente rica e gente pobre, gente boa e gente má, inteligente e estúpida, generosa e avara, culta e analfabeta, sociável e misantropa, todas as misturas e gradações que estas e mais coisas permitem – e vou aprendendo. Sobre mim, sobre o mundo.
Quando ouço os despautérios de certas pessoas, neste caso de Madame Christine Lagarde, fico altamente perturbada. Queria o reitor da universidade do Porto que nos reduzíssemos ao silêncio, mas enfim, silêncio era o que esta senhora deveria guardar. Já não falo da Grécia, muita gente falou, mas as crianças africanas pobres não lhe deram mandato para defendê-las, e a pobre da Madame Lagarde não saberá que de amigos como ela está o inferno africano, que é o inferno de todos os pobres, cheio.
Quanto a mim, que me vejo grega para perceber o cruzamento de gente que foi necessária para produzir a minha família, espero que essa senhora e eu não tenhamos nenhum antepassado comum, coisa que me seria extremamente desagradável.»
Da nossa leitora Graça. A propósito deste texto da Helena Sacadura Cabral.


Fantástico.
Grace and freedom cannot be without one another:
… “Look,” said God. “I wanted you the way you are and no different. You were a wanderer in my name and wherever you went you brought the settled folk a little homesickness for freedom. In my name, you did silly things and people scoffed at you; I myself was scoffed at in you and loved in you. You are my child and my brother and a part of me. There is nothing you have enjoyed and suffered that I have not enjoyed and suffered with you.” …
Herman Hesse, Knulp (mesmo no final – do livro e da personagem)
No entretanto… o milagre das Rosas…
“Sócrates faz pausa escolar em Lisboa”
…” Sem depósitos a prazo, à ordem ou qualquer plano poupança reforma declarado, o ex-primeiro-ministro mantém uma vida de luxo em Paris, com uma despesa que ascende a 15 mil euros mensais”
in Correio da Manhã 04-06-12
estou de viagem e vi só agora os comentários ao comentário e que este tinha sido escolhido como comentário da semana o que suscitou mais comentários. obrigada pelo acolhimento, fiquei muito sensibilizada. um abraço a todos e especialmente à Helena Sacadura Cabral.
Não tem que agradecer, Graça. Mas se quiser deixe-nos o endereço do seu blogue para ficar aqui a hiperligação.
aqui vai o endereço do blog (http://www.desabalo.blogspot.pt/)
e mais uma vez obrigada. até breve.
Será feita a ligação. Eu é que lhe agradeço. E parabéns pela qualidade da sua escrita.