O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«A Califórnia há muito que está falida, tal como o estado da Nova Gales do Sul, na Austrália, e ninguém fala do iminente colapso do dólar americano ou australiano. Ambos são estados numa federação, têm governo e capacidade de endividamento próprio mas não têm moeda própria. Penso que será o mesmo caso dos estados no Brasil e na Alemanha na altura do marco.
Diria mesmo que a falácia do “ai Jesus, se a Grécia vai à falência, o euro vai à vida” é uma das grandes razões para a actual fragilidade do euro. Infelizmente o que resultou da opinião pública e políticos europeus engolirem a propaganda de que o resgate do governo grego era fundamental para a protecção do euro foi o aumento da exposição dos bancos europeus à dívida grega. Agora sim, se a Grécia não paga, vemo-nos todos gregos. O peso da Califórnia para a economia americana é muito maior que a Grécia e Portugal, maior do que a Espanha e só ligeiramente menor do que a Itália em relação à Zona Euro e, como disse antes, ninguém anda para aí a dizer que o dólar vai desaparecer. Até à altura em que a Srª Merkel obrigou os bancos alemães a resgatar o governo grego, não havia razão para ir nessa conversa.
Quanto à ideia de que a moeda única é incompatível com uma Europa a duas (ou mais) velocidades, ou pelo menos com o desenvolvimento dos países menos desenvolvidos, duas palavras devem chegar: “reunificação alemã”. Nem a absorção da Alemanha Oriental afundou o marco, nem o problema do leste da Alemanha pré-euro era ter a mesma moeda que Munique/Frankfurt/Dusseldorf.
Em resumo, nem a dívida de alguns estados-membros é condição suficiente para a morte do euro, nem a existência de uma moeda única partilhada por economias a velocidades é uma aberração (quase todos os países tem economias a velocidades diferentes).»

 

Do nosso leitor Vasco Baptista Mendes. A propósito deste texto do Luís Menezes Leitão.

7 comentários em “O comentário da semana”

  1. è pena que este seja o comentário da semana, porque apresenta um conjunto relevante de erros e falácias para supoertar uma “teoria”:
    1) Não é o peso da economia da California que é relevante, mas sim a divida que o estado detem.

    2) Nos EUA quem segura os bancos quano é preciso é o orçamento federal não o da Califórnia

    3) Nos Eua existe um conjunto relevante de despesas locais que são suportadas pelo orçamento federal.

    4) A Alemanha Oriental não temia o marco porque recebeu investimentos massivos da Alemanha ocidental. O que não parece estar a ser oferecido á Grécia

    5) Existe um conjunto muito relevante de despesas dos estados da aintiga alemanha oriental que são suportados pelo orçamento federal.

    E..pronto. Em resumo, quem escreveu o artigo vê com naturalidade as assimetrias entre estados que partilham a mesma moeda. Esquece de forma conveniente (ou propositada) que os exemplos que dá pertencem a paises organizados como federações de estados.
    Não sei se é preciso escrever…mas não é o caso da zona euro.

    miguel

    1. Sobre as duas Alemanhas falta ainda acrescentar que a antiga RDA está em processo de desertificação, que o ressentimento e a falta de perspectivas nessa região são razões fortes para o renascer das ideologias de extrema direita, e que o processo de reunificação dos dois grupos de alemães está longe de ter terminado com sucesso.

        1. Integração? Penso que foi mais anexação e assimilação, ou até aquisição.

          Os valores da RFA foram impostos às pessoas da RDA. Parece-me que a única concessão que a nova Alemanha reunificada fez à antiga RDA foi alterar a lei do aborto (que era proibido numa e prática corrente na outra). E alargar o “homenzinho do semáforo” a Berlim ocidental, e introduzir a “seta verde” que permite virar à direita mesmo se o semáforo está vermelho. Em compensação fecharam as creches e mandaram as mulheres para casa, para criar os filhos. E a seguir ao fim-de-semana em que trocaram as moedas, as pessoas acordaram num país diferente: segundo me contaram, na segunda-feira de manhã encontraram as lojas cheias de produtos ocidentais. Os habituais, da RDA, desapareceram de um momento para o outro (fala-se disso no Goodbye Lenin, quando o filho procura frascos de conserva de pepino no caixote do lixo).

          Voltando ao assunto do post: não se pode dar o exemplo da unificação alemã para argumentar que o euro pode funcionar bem em economias diferentes. Não se pode esquecer que as economias são diferentes, mas o sistema político foi unificado. Isto é um país, uma federação com constituição e parlamento comuns.

    2. Miguel, um dos critérios para a selecção do comentário da semana é o facto de esse comentário poder suscitar polémica. Foi o caso, aliás confirmado pelo seu comentário ao comentário.

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