O comentário da semana


Pedro Correia,

«Entretanto, no outro lado da rua:
Outra mulher olhou o seu homem demoradamente. Escorria também ele pelo sofá abaixo, descomposto, de comando na mão e olhos fixos no écran da televisão. Parecia um ursinho de peluche que apetecia mesmo abraçar! Jogava o Sporting com uma qualquer equipa estrangeira. “Se algum dia deixar de te amar, é porque morri.” Afirmara ele um dia, pomposo, príncipe encantado. Quantos anos passados? Tantos, tantos. Não sabia porque se lembrara agora daquilo. Olhou-o de novo e, ainda que condoída, não resistiu ao maquiavelismo do teste. Sentou-se ao lado dele e abriu o baile, com voz doce:
– Qual é a minha cor preferida?
– O quê? – a surpresa da pergunta fê-lo deixar cair o comando. Olhou-a nos olhos.
– A minha cor preferida. Perguntei-te qual era.
– Azul! Azul igual ao dos mares rasos do Pacífico onde mergulhámos de mão dada na lua de mel.

Com um sorriso doce, puxou-a e sentou-a no colo.
– Hummm… – encostou-lhe os lábios à orelha e sussurrou:

– E o meu prato preferido?
– Açorda de marisco… servida numa carcaça de pão, com um ovo cru no topo, porque gostas de ser tu a misturá-lo.
– Qual é o perfume que eu uso? – continuou, segurando-lhe a mão que já se atrevia por baixo da blusa.
– Mas o que é que tu queres com essas perguntas tolas? – ele começava a impacientar-se.
– Nada de especial. Sabes qual é o nome do perfume ou não?
– O que usas agora? Ora bem, o 212 Ice da Carolina Herrera é o que nunca te pode faltar, mas tu gostas de variar, desde que sejam aromas suaves, cítricos, frescos…

Encosta-lhe o nariz ao pescoço e inspira ruidosamente:

– Cheiras-me sempre tão bem!
– E qual é…

A pergunta foi serrada ao meio por uma gargalhada dele.
– Mas tu deixas-me em paz com essas merdas? Diz o que queres, de uma vez por todas. Poupar-me de ver o Sporting perder outra vez?
– Pronto, já acabei. Não te maço mais. E não, não, até ouço dizer que o Sporting, contra clubes estrangeiros, joga muito bem. Queria só ter a confirmação de uma suspeita.
– Qual suspeita?
– A de que continuo a ser a mulher mais amada do mundo. Queres que te traga uma cerveja?
Só no dia seguinte é que ele soube, pelos jornais, que embora jogando muito bem, o Sporting não se tinha apurado para a final da Liga Europa.»

 

Do nosso leitor Pedro Barbosa Pinto. A propósito deste texto da Ana Vidal.

2 comentários em “O comentário da semana”

  1. Caro Pedro Correia,

    Atraído pela imagem do “Sporting Amor Eterno”, comecei a ler – “entretanto do outro lado da rua” -, a frase soou-me estranhamente familiar – “outra mulher…”
    Olhei o título do post e de repente dei por mim, velho de 55 anos, sentado sozinho numa sala em frente a um écran de computador, a corar! – “Aquilo não era um comentário” – pensei atrapalhado!

    Creia-me grato, do coração, pela distinção, mas os louros devem ser entregues à Ana Vidal, afinal a verdadeira autora do texto. Eu limitei-me, num momento nostálgico (que saudades dos desafios da dupla Ana Vidal/Luísa Correia no “Porta do Vento”), a despi-lo daquela fatalidade tão portuguesa com que a Ana nos provocou, e a trajá-lo de gala para uma milésima segunda noite das arábias.

    Obrigado e um abraço

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