«Confesso: oito anos e meio a viver na Holanda (igualmente repartidos por duas cidades diferentes, Enschede e Maastricht) e concluo que não gosto dos holandeses. Não é que sejam porcos, feios, maus, estúpidos ou outra coisa qualquer. Tudo o que sejam funciona na sua sociedade. Aliás, individualmente tenho tanto contra eles como tenho contr portugueses, espanhóis, alemães ou tibetanos: gosto de uns e não de outros. É da sociedade que não gosto.
Primeiro ponto: a Holanda não é Amesterdão. Segundo ponto: Amesterdão não é Amesterdão. Ou melhor, Amesterdão, a verdadeira Amesterdão onde mora tanta gente, não é aquele espaço compreendido entre a Estação Central e a Praça dos Museus, delimitada a leste pela Casa de Rembrandt e a Oeste pela Casa de Anne Frank. Essa é a Amesterdão turística, onde se ouve tanto inglês como holandês.
A verdadeira Holanda tem uma mentalidade ainda fortemente calvinista (mesmo quando as pessoas não o são), muito crítica e moralizadora dos outros e fortemente directa. Pessoalmente vejo-os como rudes e com pouca capacidade de encaixe (curiosamente, para um povo tão directo). Também são pouco dados a intimidades com outros, ao contrário dos “frios” alemães (os primeiros são mais fáceis no trato inicial mas a relação não se desenvolve muito, ao contrário dos segundos). É curioso, aliás, que os holandeses se pareçam muito mais com a imagem que temos dos alemães do que os próprios alemães.
São, por outro lado, altamente tolerantes. Só que aqui o conceito de tolerante é isso mesmo, tolerância. Convém lembrar que as drogas leves não são legais, antes são toleradas. O mesmo em relação a muitas outras facetas da sociedade. Muitos dos aspectos que imaginamos serem livres e perfeitamente integrados na sociedade são apenas tolerados, mas julgados frequentemente como indesejáveis.
Seja como for, quem se incorpore facilmente na sociedade (e aprenda a língua, factor fundamental ao contrário do que os holandeses muitas vezes dizem), pode ter uma vida agradável. Sem correrias, sem preocupações de maior e vivendo de forma semelhante à dos seus vizinhos. Cerca de 90% da população (contas minhas) é completamente indistinguível, trate-se de porteiros ou gestores de empresas. Pessoalmente não gosto do estilo, mas para quem dele goste, a Holanda é um paraíso (fora o clima).
Já agora, se me perguntam por que razão ainda cá estou, a resposta é simples: razões familiares e profissionais. Por minha vontade ter-me-ia ido embora.
PS – Abril, pelo menos desde que cá estou, é frequentemente o mês com o clima mais agradável do ano. Tem habitualmente muito sol, algum calor (claro que um holandês faz saltar do armário as sandálias quando o termómetro chega aos 20 graus) e pouca humidade (ao contrário de Junho e Julho). É de longe o meu mês preferido, o oposto do de Novembro.
PPS – Os holandeses aceitaram graciosamente as críticas de Rentes de Carvalho, mas ficaria por saber o quanto é o livro conhecido no país. Igualmente se Rentes de Carvalho terá uma boa amostra da reacção ou se falará de pessoas ao redor de Amesterdão (e possivelmente do seu círculo de amigos) que poderão ser mais cosmopolitas e cultas. por outro lado há uma questão geracional: as pessoas em 1971 poderiam ser bastante mais afáveis que as gerações posteriores. Tenho muitas vezes essa impressão.»
Do nosso leitor João André. A propósito deste texto da Leonor Barros.


Boa escolha, Pedro.
Bom comentário, naturalmente suscitado pelo teu texto onde voltas a revelar uma notável capacidade de observação, muito acima da média. É uma característica que muito prezo, Leonor. Até por ser bem mais rara do que por vezes supomos.
O ‘holandês’ João André, que já é repetente nesta galeria, merece o destaque igualmente por outro motivo: é um dos nossos mais antigos, regulares, persistentes e acutilantes comentadores.
Obrigada, Pedro. Essa capacidade de observação não será um eufemismo de ‘cusquice’? Estou a brincar claro. Muito obrigada pelo comentário. Quando estava fora andava sempre entretida com tudo à minha volta. Um Gémeos vê sempre muito 🙂
Quanto a isso, não tenho a menor dúvida…
Obrigado pelo comentário caro pedro. Seja como for, sem o excelente post da Leonor, o meu comentário nunca teria surgido. O meu comentário foi apenas uma reacção, o post foi uma belíssima reflexão.
OK, acho que fiz asneira. Há um par de horas pensei ter aprovado um comentário de J. Rentes de Carvalho (o próprio) mas agora não o vejo em lado algum. Ainda por cima ele não tem endereço de correio electrónico no “Tempo Contado” (e o botão “Email” do sítio dele não funciona) para eu lhe pedir desculpa e que o escreva de novo, se assim o entender. Assim sendo, resta-me fazê-lo aqui. Em minha defesa, posso apenas garantir que sou um apreciador (prova: http :/ delitodeopiniao.blogs.sapo.pt 3432108.html ) e que fiquei tão nervoso que devo ter clicado no sítio errado.
Caramba, hoje não acerto uma. O link é: 32108.html
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/34
De novo, as minhas desculpas, caro Rentes de Carvalho.
E agora vou sentar-me no sofá e ficar quietinho.
E era um comentário ao meu texto, jaa? Se era, estás perdido :))))
Er… não.
Vai em paz então 🙂
Caro João André,
Se lê holandês basta ir ao Google e procurar Waar die andere God woont, título das edições holandesas (actualmente catorze) de Com os Holandeses. Qualquer holandês com hábitos medianos de leitura o informará sobre o conteúdo. Que o livrinho continua a ser abundamente e elogiosamente citado garanto-lho o eu. Junto em complemento este site: 07/February/Speech_by_Prime_Minister_Jan _Peter_Balkenende_Festival_der_Bestuursk unde_Eindhoven_8_February_2007
http://english.minaz.nl/News/Speeches/20
Cordialmente,
J. Rentes de Carvalho
Caro Rentes de Carvalho (tratei-o por José, coisa que fica dos holandeses), obrigado pelo comentário e pelo e-mail. Pontos importantes, sem a menor dúvida. Se injustiça lhe fiz, foi indevida e involuntária. Apenas quis deixar um testemunho de alguém que chegou mais recentemente ao país e para uma parte da sociedade possivelmente diferente (fora de Amesterdão e num meio com muitos engenheiros).
Cumprimentos.
João André