«Não duvido que o AO [Acordo Ortográfico] provoque algumas confusões, lexicais ou outras. E concordo em que tem coisas bizarríssimas, como as que derivam da eliminação de alguns acentos e de hífens. Além disso, por exemplo, o arbítrio na manutenção ou não do “h” inicial nalgumas palavras é altamente discutível.
Dito isto, e como sabe, sou globalmente favorável ao AO, por razões de natureza estratégica que é difícil sintetizar em poucas palavras. E – deixe-me que lhe diga! – acho-o absolutamente irreversível, com ou sem CCB ou juízes de Viana. Basta pensar que todas – mas TODAS – as escolas do país já o seguem para se perceber que está aí a criar-se, através de milhares de praticantes, aquilo que é a “geração do AO”.
Já agora, valeria a pena que o Delito anotasse o que disse o SE da Cultura ao último “Expresso”, pelo menos com o mesmo destaque (para utilizar um hábito jornalístico) que deu às suas anteriores (e já corrigidas) declarações sobre as “adaptações” a introduzir no AO.
Convença-se, meu Caro, a vossa luta contra o AO é uma causa perdida (embora com a graça de outras “causas perdidas” que, nesse estimado blogue, encontram regular acolhimento).»
Do nosso leitor Francisco Seixas da Costa. A propósito deste meu texto.


Já que se está a perder PORTUGAL, que se perca também a língua!
Com toda a consideração que tenho pelo Embaixador Seixas da Costa, não estou nada de acordo com ele. Tenho esperança de que esta loucura linguística ainda arrepie caminho, pelo menos nos disparates mais gritantes.
Pelo percurso anterior dos vários AO’s que já ocorreram na nossa língua, o embaixador Seixas da Costa pode afirmar, quando muito, que, pontualmente, algumas coisas ‘deste’ AO irão ser assimilados e integradas na língua (por nós, portugueses, não falo dos restantes países, onde o mais certo será que cada um faça como entende).
Não é, pois, um acordo – nunca será.
“acho-o absolutamente irreversível”
Provavelmente. De que forma é que isso serve de validação? Há tantas e tantas coisas de que só nos podemos arrepender…
Concordo plenamente. E não é pela questão do facto consumado. O que escangalha mesmo a língua é a má (péssima) sintaxe que por aí se vê, em que predicado e e sujeito se odeiam mais do que concordam. Ou a extravagante utilização de preposições e conjunções. Ou os neologismos desnecessários. Ou a invenção espúria de mais advérbios em “-mente”. Ou a língua de pau corporativa. Tudo isto parece-me bem mais letal e essencial do que a queda de um punhado de consoantes mudas na forma como escrevemos. Pronto, disse e não volto ao assunto.
Os advérbios não são inventados. Qualquer adjectivo se pode transformar num. Pior é retirá-los como fazem nas televisões, onde se diz rápido em vez de rapidamente. Esta frase, aliás, diz tudo: “sou globalmente favorável ao AO, por razões de natureza estratégica que é difícil sintetizar em poucas palavras”. No fundo, a síntese é esta: nada disto tem a ver com a língua, uma vez que sabemos que este acordo apenas tenta normalizar (pela força cobarde que emana do parlamento – essa enorme tertúlia de investigadores e sumidades intelectuais) a má dicção.
Não é uma causa perdida – é uma causa nobre como há muito não havia nenhuma. Ou querem abandalhar o País ainda mais do que já fizeram até aqui? Será que não percebem a falta de brio, de cuidado, de estética que tudo isto implica? Não admira que tenhamos chegado aos dias de hoje com cidades feias e descaracterizadas, dominadas por oportunistas do cimento (da mesma família dos oportunistas da língua e dos valores simbólicos): são governadas pela mesma gente bruta que destrói tudo para obter ganhos circunstanciais que, pouco depois, se transformam em evidentes e vergonhosas derrotas.
A ser assim, não vale a pena investir nesta terra. Não vale a pena ter filhos aqui. Mais vale procurar outro sítio. É destino dos Portugueses com coluna vertebral terem de se exilar, não é?
Totalmente de acordo, Vasco.
Caro Vasco,
Infelizmente, não posso estar mais de acordo consigo. E digo infelizmente por que tenho pena, tanta, de ter nascido e de viver num país assim. Isto nunca aconteceria numa Inlgaterra. Nunca. Pela simples razão de que o seu povo jamais consentiria em tamanha barbaridade. Nem nunca jamais os países anglófonos se lembrariam de uniformizar o inglês. Eles entendem-se, como nós nos entendíamos perfeitamente entre os países em que o Português é a língua oficial, sem qualquer tipo de acordo, sobretudo este absurdo que nos querem impôr. A riqueza de uma língua está das especificidades que cada região, cada povo, cada país vai introduzindo na base comum. E isso não se uniformiza. Por mais que retirem consoantes mudas à nossa ortografia nós nunca vamos escrever como os brasileiros nem utilizar as mesmas palavras para designar as mesmas coisas.
Este acordo é tanto mais triste quanto na sua génese não estiveram questões linguísticas ou patrióticas, mas tão só uma vontade cega (e para todos nós muito humilhante) dos nossos (des)governantes e outras cabeças pensantes de satisfazer outros interesses que muito lesam o nosso país. Falam do que já se investiu para implementar esta coisa que ainda por cima na verdade não existe e não pode ser implementada? E o custo de converter tudo o que está em bom português nesta vergonha? Quem vai ganhar com isso?
O pior é que entre o querer impôr e a aceitação dessa imposição vai uma grande distância e isso eles não vão conseguir. Porque em vez de uniformização o que vamos ter cada vez mais é confusão. E o argumento de que é irreversível porque nas escolas já está a ser aplicado não colhe. Porque com excepção dos alunos do primeiro ano do primeiro ciclo, todos os outros aprenderam bom português. Todos. Por isso se houver vontade e coragem política esta vergonha nacional é facilmente reversível.
Espero que seja.
Susana Bastos
Queira Deus e o bom-senso.
A Inglaterra é uma Democracia e o país do Rule of Law.
E tem zero de analfabetismo.
Nós temos 20% de analfabetos e o resto é a condizer.
O acordo é um prova do nosso atraso e das sombras longas do fascismo.
E isso, meu caro VSC, faz toda a diferença do mundo, não concorda?
Cumprimentos,
Susana Bastos
Belíssimo comentário. Bravo, Vasco. Os meus pensamentos são os teus pensamentos.
Mas de que modo é que o acordo ajuda a evitar essas questões? Por outras palavras: o que tem uma coisa a ver com a outra?
Nada, meu xará. Por isso o meu ponto: o acordo? je m’en fous. O importante é outra coisa.
Podes, evidentemente (desculpa lá o advérbio), estar-te nas tintas. Tens, aliás, a companhia de cento e tal milhões de pessoas. Mas sinto-me forçado a dizer-te que o argumento me incomoda. Serviu, serve e servirá para desculpar muitas coisas. Os políticos, por exemplo, usam-no diariamente (bolas, outro advérbio). É que quase sempre se consegue arranjar qualquer coisa mais importante (ou afirmá-la como tal) e, deste modo, desculpar quase tudo.
Disparate. Uma coisa nada tem a ver com as outras.
Tenho grande admiração pelo nosso Embaixador em França, cuja “casa” virtual frequento diariamente. Mas na questão do AO estou com a Ana. E nada é irreversível. Só a morte.
Se assim não fosse ainda estaríamos hoje debaixo de certos jugos…
… e os impostos, Helena. E os impostos.
Eis um diplomata que se curva caninamente perante uma iniquidade para lá de repugnante; perante interesses que de culturais nada terão. Sob o elaborado, robusto, preciso, decisivo fundamento do facto consumado.
As políticas de “appeasement” devem ser seguidas com muito cuidado, como será de crer (será?) que um embaixador saiba. É que deram no que se sabe, num passado não excessivamente distante.
E não, não exagero. Não é preciso matar milhões para se criar um horror.
Costa
Ora aqui está uma das falhas do Acordo: não prever nenhum capítulo sobre a boa educação e a urbanidade tolerante na escrita.
Não deixa de impressionar as exaltações um pouco histéricas, como se estivéssemos perante o fim da língua, à roda de uma questão de somenos. E a indiferente sonolência perante o achincalhamento diário da gramática. Eles deviam de, na medida em que realmente, pois efectivamente.
1. A classificação de “somenos” é tua, não uma verdade insofismável.
2. Quem assim o pensa talvez pudesse evitar agir, na prática, como defensor do acordo (pois se lhe é indiferente…).
3. Nada no texto do comentador (um tudo-nada agressivo para o meu gosto) justifica o remoque sobre “a indiferente sonolência perante o achincalhamento diário da gramática”.
4. Pelo que será então uma observação genérica, não suscitada pelo comentário, e tenho de perguntar novamente: de que modo é que uma questão invalida a outra? Neste mesmo blogue já foram publicados muitos posts chamando a atenção para esse achincalhamento. Mais: se tiveres ideias para o combater, podes contar comigo para ajudar. E provavelmente com o comentador também.
“…um tudo-nada agressivo”.. Isso não sei, mas paternalistazinho é de certeza.
É disto que eu gosto: limpinho, jaa!
é isso mesmo. 🙂
O José Navarro e o Francisco Seixas da Costa são muito susceptíveis. Já têm idade para bem mais capacidade de encaixe.
Em relação a paternalismos de pessoas que não conheço e se apresentam embuçados em pseudónimos jurássicos não me darei ao trabalho de ser susceptível, mas sempre vou suspirando de desconsolo por me ver sujeito a tal ordinarice, pelo simples facto de ter uma ideia discordante. Somos tu cá tu lá como os caldeireiros para o sr. (ou sra.) me apontar o dedo à idade? Como se diz na minha terra: aonde já chegou a cúnfia?
Homem, chamo-me Joaquim Carlos da Rocha Santos.
Quanto a cúnfias, somos ambos da espécie humana. Não lhe devo qualquer salamaleque especial nem o excelentíssimo sr. Navarro mo deve a mim.
Ou deverei ter medo?
questão de somais – a língua, a diversidade, a nação – esta como qualquer outra mutilação.
Não se deve dar demasiada importância aos «bitaites» do Sr. Embaixador de Portugal em França, e em especial neste tema do AO. Quanto muito, ele pode proporcionar… algum divertimento:
http://octanas.blogspot.pt/2011/07/obser vacao-o-frances-e-arcaico.html
O senhor embaixador não apresenta um argumento que demonstre a bondade, a superioridade, do alegado acordo ortográfico sobre a forma presente de escrita da língua portuguesa. Remete sim para razões estratégicas não identificadas e que indica de difícil síntese.
O senhor embaixador, com isso, não invalida (nem sequer opõe, demonstrando-as, razões superiores e que, numa colisão de valores justamente imperassem) as críticas de ordem científica e cultural que abundantemente revelaram já a deplorável aberração em que consiste o “AO”.
O senhor embaixador invoca como facto decisivo a adopção pelas escolas desse aleijão ortográfico.
O senhor embaixador, no seu texto, não apresenta, assim, razão mais forte do que a da submissão ao facto consumado.
O senhor embaixador curva-se, portanto, perante essa consumação. Pactua com ela, Aceita-a, por isso mesmo: porque a entende consumada e considera, por isso, que procurar impedi-la ou revertê-la é uma causa perdida. Não pela valia própria e superior da nova ortografia. mas porque, qual pandemia, já infecta muita gente. E por isso procurar uma cura será inútil. Que nos infectemos, então, e aprendamos a viver com a doença, parece para o senhor embaixador ser a via a adoptar; que se adopte uma atitude puramente pragmática, de acordo com a qual, desde que nos entendamos (coisa que o AO definitivamente nem garante), qualquer coisa serve como ortografia. Estranha-se, lamenta-se, entristece, vindo de um embaixador.
Há, senhor embaixador, quem discorde. E veja na sua atitude, senhor embaixador, uma cedência a um Mal. Porque, senhor embaixador, o AO é sob o plano científico (esse, pelo menos e desde logo) um mal, um colossal erro, uma aberração que – de tão arrogante – nem cuidou de evitar as abundantes incoerências e imprecisões que em nome de uma alegada uniformização acabou afinal por facilitar. Porque, senhor embaixador, a geração que sairá das escolas a escrever daquela forma não nos dará decerto grande motivo de orgulho. Não, certamente, no que ao orgulhoso culto da sua língua concerne.
Costa
Hear, hear, meu caro Costa.
Infelizmente parece ser apanágio de quem tem (des)governado este país e de quem tem a responsabilidade de nos representar perante outros estados essa atitude de curvatura espinhal para acomodar interesses que nem são, na esmagadora maioria das vezes, os nossos, do nosso país.
E, neste caso particular, não o são definitivamente.
Haja gente com poder de influenciar o que se passa por cá que aja em conformidade e acabe com este absurdo.
Aconteça o que acontecer eu vou continuar a escrever em bom português. E jamais adquirirei um livro escrito em acordês (graças a Deus pela Amazon e afins e por escritores portugueses que fazem questão de escrever e de ser editados em bom português), ou uma revista ou um jornal que se tenha curvado e o tenham adoptado. Fizessem todos os mesmo e logo se veria se o Sr. embaixador tinha razão quanto à irreversibilidade da continuação desta imposição.
Susana Bastos
Será que ninguém ouviu a palavra maçonaria? E não sabem que a maçonaria tem votos de obediência?
Bravíssimo, Costa. Estou a adorar ser claque de quem pensa a direito.
A única causa que parece perdida é desejar que alguma vez os Portugueses possam vir a ser representados politicamente por gente com fibra e com a certeza do seu caminho.
Façam um referendo.
Mantendo uma delicadeza, que também prezo, gostaria de dizer ao sr. embaixador que me ficou, de outros tempos, gostar de quem luta por “causas perdidas”.
Será que o «acordo» tão irreversível quanto o comunismo na União Soviética?
Será o «acordo» ortográfico mais poderoso do que a doutrina marxista foi na URSS?
Será o «acordo» tão poderoso quanto o analfabetismo no Brasil ou em Portugal? Ou o abandono escolar, ou o persitente atraso português, na causa da Europa e ultrapassado por países que ainda há poucos anos eram mais pobres?
São questões interessantes e que têm uma única resposta, para quem, ao contrário de Seixas da Costa e os seus veneráveis e discretos colegas, não tem por hábito pensar que conhece o futuro: depende apenas de nós. Depende inteira e totalmente de nós.
Hoje, com muito interesse um artigo – o primeiro – que liga o escadandoso processo de imposição do acordo com a maçonaria. Já não era sem tempo que essa ligação evidente passasse à discussão pública. Que tenha sido um PRÉMIO CAMÕES, Manuel António Pina a fazê-lo, é importante e revelador.
Caro homónimo (suponho), onde posso ler esse artigo de que fala, pf?
http://www.jn.pt/Opiniao/default.aspx?co ntent_id=2397175&opiniao=Manuel%20Ant%F3nio%20Pina
Seria interessante ver o interesse que a maçonaria consagra à questão da língua. Se conjugar esse interesse – que vem de longe, do esperanto, que serviria para substituir as línguas nacionais (que eram vistas como entraves ao governo mundial de “ordem e progresso”) simplificava-se muito a questão e percebia-se a razão dos senhores deputados votarem favorável – e quase unanimemente – algo que o país seguramente rejeita.
Muito obrigado.
Não me resigno nem deixarei de lutar contra a aberração abortográfica, venha o Seixas que vier.
Parabéns, Pedro Correia! Nada como um debatezinho sobre os malefícios do Acordo Ortográfico para animar as hostes, como se vê.
De facto o AO é um assunto que desperta grandes paixões – como a religião, o futebol, o aborto, os touros de morte e alguns (poucos) mais neste rincão que se mostra tão indiferente a tantos outros temas.
O meu campo é conhecido, nesta como noutras matérias: nunca tive feitio para esconder o que penso e já vou tarde para mudar.
Isto não me impede de escolher com alguma frequência para comentário da semana aqui no DELITO textos de quem pensa de forma diferente em vários aspectos sem deixar de merecer todo o meu respeito e toda a minha consideração. Como é manifestamente o seu caso.
«Toda unanimidade é burra», ensinou-nos mestre Nelson Rodrigues, grande escritor brasileiro, um dos meus autores de cabeceira há mais de vinte anos. Nunca senti necessidade de qualquer ‘acordo’ para esse efeito. Tal como os brasileiros não necessitaram de nenhuma ‘unificação’ ortográfica para elevarem José Saramago a campeão de vendas durante vários anos, como o meu prezado Amigo bem se recordará.
Um abraço deste confrade da blogosfera que continua a ser seu admirador.
Pois, isto das grandes paixões…
Pode-se ser contra, ou a favor do Acordo. Ou mesmo indiferente a ele. Mas, na minha opinião, nada justifica a má educação e os fundamentalismos.
Quer-me parecer que aqui se usou o AO para se descascar num diplomata (não é todos os dias que se tem uma oportunidade destas). Além disso, restringir a discussão ao aspecto da subjugação, do tipo: quem é a favor, curva-se “caninamente perante uma iniquidade para lá de repugnante”, revela, na minha opinião, falta de originalidade e de argumentos. E radicaliza as posições: quem passa a usar o Acordo, é subserviente; quem o recusa, é um lutador contestatário (ou seja, os conservadores passam a revolucionários). Ora, tudo isto não prova que se defenda o “bom português”.
Aliás, o conceito de “bom português” é maleável. Saramago escrevia sem pontuação e ninguém põe em causa o seu “bom português”.
Cristina: estou-me absolutamente nas tintas para cargos, diplomáticos ou de outra ordem. E não é correcto usar uma passagem de um comentário para generalizar faltas de originalidade ou de argumentos (ou, acrescento eu, de educação). Se for à discussão gerada num post ligeiramente mais acima, verá que os apoiantes do acordo também sabem usar argumentos rasteiros (muito piores, no caso presente, do que a adjectivação que citou). Mas não me verá a generalizar a partir de casos pontuais.
E eu não quero uma língua estática ou que impeça quem quer que seja de escrever sem pontuação (para usar o seu exemplo). O que eu não quero é uma língua imposta por decreto. Por que será que temos esta tendência para a produção de leis que tentam regulamentar tudo e mais alguma coisa?
Bem, já me tinha apercebido do outro post, mas ainda não fui ver. Lá irei.
Achei, no entanto, que Francisco Seixas da Costa se exprimiu de forma moderada, não justificando a violência de certos comentários. Outros há que, embora contra, não entram em radicalismos.
Caro, jaa, fui ver os comentários a mais dois posts sobre esta questão. São muito poucos os que se exprimem a favor do Acordo e, entre eles, não vi expressões que ofendam tanto a integridade de uma pessoa (seja ela qual for), como estas:
“Eis um diplomata que se curva caninamente perante uma iniquidade para lá de repugnante”;
“O senhor embaixador curva-se, portanto, perante essa consumação”;
“Que nos infectemos, então, e aprendamos a viver com a doença, parece para o senhor embaixador ser a via a adoptar”;
“atitude de curvatura espinhal”;
Considero expressões destas profundamente ofensivas e não vejo que contribuam para a defesa da língua portuguesa.
Bom, ok, eu acho que afirmar que só se pode ser contra o acordo por xenofobia mais grave mas concordemos em discordar, até porque esse ponto não é importante. E, como poderá ler num comentário meu mais acima neste mesmo post, eu também não apreciei particularmente a forma de expressão do comentador que usou os termos que transcreveu. Mas o meu ponto principal era de que não se deve pegar num caso particular e considerá-lo representativo de um grupo, ainda por cima tão diverso como necessariamente teria de ser o dos opositores ao acordo (idem para os apoiantes). Nem considerar que exprimimos a nossa discordância por este texto provir da pena de – vénia – um embaixador. Eu, por exemplo, nunca me referi a isso.
Finalmente, não resisto a citá-la, Cristina: “São muito poucos os que se exprimem a favor do Acordo”. Admito que o jeito agressivo dos opositores afastem as almas pacatas e tímidas dos defensores – mas não será isto sintomático?
Errata: “afaste”, não “afastem”.
Afirmar que os opositores do aborto ortográfico são xenófobos é, de facto, uma das acusações mais graves (e mais gratuitas, e mais injustas) que pode haver.
Eu achei alguns comentários ofensivos, não todos.
Queria, já agora, frisar que não sou a favor do Acordo, preferia continuar a escrever como antigamente (como, aliás, ainda faço). Por outro lado, não milito contra. Talvez por já ter passado por situação semelhante, na Alemanha. Não me estou a dar “ares superiores”, mas é um facto que, aqui, houve, nos anos 90, não um Acordo, mas uma Reforma Ortográfica, juntamente com a Áustria e a Suíça. Houve protestos e houve revistas/jornais que resistiram mais de dez anos às mudanças. Agora, que já se passaram quase vinte, todos capitularam.
Penso que em Portugal vai acontecer o mesmo. Mas é só uma opinião. E, se quiserem denominar esta minha “indiferença” ao Acordo por curvar da espinha, ou por subserviência, que seja!
Cara Cristina, calculo que não tenha sido sua intenção obter este efeito, mas quando escreve “Quer-me parecer que aqui se usou o AO para se descascar num diplomata (não é todos os dias que se tem uma oportunidade destas).” está a insultar as pessoas que aqui apresentaram os seus argumentos contra o AO, desviando o assunto da verdadeira questão, que era o AO. Quero dizer, quando afirma que o interesse é “descascar num diplomata” porque temos poucas oportunidades para o fazer, não só está a infantilizar os comentadores, como a postular que as pessoas andam à espera de apanhar pessoas com cargos políticos para os insultar, o que não só me parece perfeitamente absurdo como me custa a crer que tivesse tido esse o motivo original do comentário mais ofensivo que referiu.
Cristina: apenas li um comentário com linguagem grosseira, que naturalmente ninguém neste blogue subscreve. O facto é que temos um entendimento muito liberal sobre a gestão destas caixas de comentários – e falo à vontade pois eu próprio já fui insultado vezes sem conta pelos mais diversos leitores, quase sempre anónimos.
Dito isto, repito o que deixei escrito mais acima: Francisco Seixas da Costa, com quem sempre mantivemos o melhor dos relacionamentos blogosféricos, merece-me todo o respeito – não só do ponto de vista pessoal mas também pelo seu notável currículo, que sou o primeiro a destacar. Sem prejuízo de discordarmos frontalmente nesta questão do acordo ortográfico. Que não é uma questão menor, como fica comprovado pela quantidade e extensão dos comentários que sempre suscita.
Dito isto, o importante é que os pontos de vista sejam claros e expressos sempre com a desejável urbanidade, o que não impede um tom ou um estilo mais contundente ou até mais truculento.
Não sei se é tão absurdo como isso dizer que há quem ande à espera “de apanhar pessoas com cargos políticos para os insultar”. Talvez não tenha sido aqui o caso, mas foi a impressão que me deu.
Podemos fazer um debate sobre os benefícios do Acordo, mas para isso era preciso encontrar alguns primeiro.
LOL Assim de repente não estou a ver nenhum, salvo o facto de nos trazer, ao Vasco e a mim, furiosos pela Defesa da Decência Ortográfica.
Se se pensasse na destruição massiva de poemas [de rimas, de efeitos, de jogos de palavras, de associações conceptuais, de percepções inusitadas] que esta neortografia burra comporta, os burros que a forçaram recuariam.
O Acordês extermina imensas possibilidades expressivas e infinitos edifícios poéticos só possíveis em Português de Portugal.
Pois vê. Deve ser chato constatar que tanta gente se opõe ao acordo. A ponto de ter se desviar a atenção para questões secundárias em vez de debater a principal. Creio ainda estarmos todos à espera das “razões de natureza estratégica que é difícil sintetizar em poucas palavras” – estou convencido de que o Pedro lhe dará espaço para usar quantas palavras quiser.
Terei o maior gosto nisso, JAA.