O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«”Padeiro”, “corar” e “pregar” sofrem ainda hoje o efeito da crase das vogais depois da queda das consoantes intervocálicas. Para os que dizem que a língua muda, este fenómeno é um rico exemplo da velocidade a que isso se dá. As consoantes intervocálicas caíram nos séculos IX e X e Fernão Lopes ainda dobrava todas essas vogais no séc. XV. Se não sabe do que lhe estou falar é boa oportunidade, vá lê-lo. Em complemento deixo-lhe as Lições de de Philologia Portuguesa do dr. José Leite de Vasconcellos com a papinha da explicitação destes casos para se lhe não embrulhar muito a digestão.
“Actual” e “tactear” só provam que o fenómeno de fechamento das vogais é tão real e intenso que se dá mesmo quando haja consoante etimológica para abrir o timbre da vogal anterior. Mas saiba que um mediano dicionário indicará a recta prosódia de “actual” e “actividade” (àt).
O cê soa em “caracteres” (e provavelmente para si também em “caractere”). Aprenda a falar e deixe-se de piadas sobre is abertos; todos casos de consoante etimológica com valor nulo antecedida de i ou u foram furiosamente limados na reforma de 1911. Doutra forma teríamos “victima”, “fructo”, “producto” e (com licença) “delicto” (e não se perdia nada se tivéssemos). Mas aprenda o que é coerência gráfica em vocábulos da mesma família para perceber porque “tactear” deve grafar-se intacto e sem mutilação. Pense em “reflicto”, pois! Reflicta nele e em egípcios que talvez ajude… 

 

Do nosso leitor Bic Laranja. A propósito deste post da Helena Sacadura Cabral.

10 comentários em “O comentário da semana”

    1. É também para isto que serve esta rubrica, que se tem mantido desde o início do DELITO – já lá vão mais de 150 semanas. Além de com isto homenagearmos também os nossos leitores. Um dia destes deixo aqui uma antologia destes “comentários da semana”, Ivone.

  1. No mesmo post, o “Bic Laranja” confessa não ter lido o Acordo por “ter coisas mais importantes para ler”. Paciência. O que mais há nessa questão é especialistas no que não leram. Agora, especialistas no Google Books e no Web Archive, esses encontram-se às pencas!

    1. Tanta coisa para aprender vem logo o cavalheiro recomendar-me um dejecto em letra de forma dumas cavalgaduras que nem conta se dão que ‘fêmea’ leva sempre circunflexo desde que se escreve com acento (Base IX, 3º). E pela restante colecção de disparates que lá se acham, um pampilho pelos lombos ou uma garrochada na cernelha aos cabrestos que foram capazes de o gerar, não se perdia ele nada. O mesmo se recomenda a si.
      Cumpts.

  2. Na verdade o comentário citado é uma argamassa de ignorância e de contradição, como ficou bem demonstrado noutros comentários no mesmo post.

    Como se resolvem coisas destas? Não resolvem, citam-se ditados portugueses: “para quem é, bacalhau basta “e “não se atiram pérolas a porcos”.

    1. Vossemecê, não fundamenta (nem pensa) no que diz já vejo. Só aprecia vir no fim largar o seu bacalhau a pataco, para colher o efeito de que «a última ideia é que fica». E a quem atira as suas pérolas de… «raciocínio»? – Enfim, aos leitores deste blogo…
      Continue.

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