«Gosto muito deste desafio. Tenho tido muitos monólogos interiores à conta deste assunto. Realmente é muito comum dizer-se que as mulheres têm mais aptidão do que os homens para uma coisa e vice-versa. Ou que há coisas tipicamente femininas, ou tipicamente masculinas. Nunca me ocorreu aplicar isso à literatura. É por isso que gosto tanto da blogosfera e do vosso blogue.
Durante o fim-de-semana, ocorreu-me uma dúvida tremenda. E pensar que viria fazer aqui um brilharete, quando vejo que a Ana Cláudia estava em sintonia com o meu pensamento. De facto, se pudéssemos concluir que as escritas feminina e masculina são marcadamente diferentes e identificáveis, a tradução de um texto por alguém do sexo oposto minaria, sem sombra de dúvida, o “género” do texto original.
Acontece que uma outra dúvida paira na minha cabecinha. Será mesmo correcto falar de género? Ao falarmos de géneros estamos a circunscrever capacidades e talentos a estereótipos do tempo da Maria Cachucha. Os homens são duros, as mulheres são sensíveis. Os homens são boémios, as mulheres são românticas. E por aí a fora…
Comecei a pensar que talvez os homens tivessem mais tendência para escrever textos analíticos, ou históricos, mas isso não corresponde à realidade. Também poderia dizer que as mulheres tendem a escrever mais romances de cordel e lembrei-me da Nora Roberts. Automaticamente, vieram-me à memória prateleiras cheias de livros do Nicholas Sparks, que escreve exactamente os mesmos tipos de romances, com a sensibilidade necessária para fazer qualquer romântico chorar.
Isto levou-me a pensar que, em se tratando de ficção, o autor pode ser capaz de adequar o seu estilo ao público-alvo, em vez de deixar transparecer mais de si. Tipo uma produção automática, em que se usam repetidamente as fórmulas de sucesso já testadas. Afinal de contas, é um produto para massas. Mas dizer que existe uma literatura específica para agradar mulheres não é de todo correcto, porque eu sou mulher e não tenho paciência para ler esses romances. Logo, terei em mim uma característica mais masculina? Ou serão livros escritos por românticos (homens e mulheres) que se destinam a românticos lamechas (homens e mulheres)?
E o que dizer das mulheres que escreveram sob um pseudónimo masculino? Fosse essa distinção possível, Mary Ann Evans (George Eliot), provavelmente, nunca teria escrito um livro.
E os homossexuais? Homens assumidamente mais sensíveis e femininos do que muitas mulheres que conheço seriam capazes de iludir quem se baseia nessa teoria da distinção. Já as mulheres poderão explorar o seu lado mais masculino, ou exprimir a sua paixão pela feminilidade com uma crueza incomparável.
Contudo, há diferenças. Tenho aprendido muitas delas a ler estes comentários. Mulheres e homens vivem e sentem de maneira diferente. Nada mais natural do que isso se reflicta na sua escrita. Ainda assim, custa-me a crer que todo este processo seja assim tão linear. As semelhanças e/ou diferenças poderão dever-se a múltiplos aspectos como o género literário que cada um desenvolve, a educação do autor (familiar e académica), os ambientes que o influenciam, o país, a cultura e não necessariamente o género, o sexo, ou a identidade sexual.
Quanto a este texto, e perdoem-me o comentário tão longo, eu diria tratar-se de um texto escrito por um homem. Porquê não sei. Já estou demasiado confusa com tudo isto.»
Da nossa leitora Helena. A propósito deste texto da Ana Vidal.
Imagens: em cima, Nicholas Sparks; em baixo, George Eliot



Muito bem escolhido, Pedro. Assim que o li, pensei logo que seria um justíssimo “comentário da semana”.
Sem a menor dúvida, Ana. Tinha seleccionado um outro, sobre um tema totalmente diferente, mas à última hora meti travões a fundo: só podia ser este.
Bolas… Não lhe escapa uma. 🙂
Pois. Eu sou assim.