Este tipo de acções é mais ou menos equivalente a, para combater o tráfico de droga, a polícia prender quem consome, e não quem a vende. Os resultados, esses, são óbvios: a droga continua a circular, pois não é possível prender toda a gente que consome.
A verdade é que a ACAPOR e associações similares ainda não compreenderam muito bem os tempos em que (sobre)vivem. Até podem colocar dez mil processos em tribunal por mês – seria interessante ver a já entupida justiça portuguesa a transbordar. Mas por mais processos que inventem, continuarão a não ser capazes de ver que o seu modelo de negócio pertence ao século passado. Ninguém se desloca ao clube de vídeo quando pode, sem sair do sofá, alugar um vídeo por preços mais baixos no serviço de televisão por cabo. Tal como cada vez mais pessoas deixam de comprar CD de música e optam por serviços como o iTunes. Ou compram os filmes e os discos na Amazon ou noutra loja online, que pratique preços bem mais acessíveis que os balúrdios que cobram por cá. Até as bandas já o perceberam – não é por acaso que qualquer banda tem uma página no MySpace Music onde partilham algumas músicas e se promovem aos fãs. Como não é por acaso que muitas bandas começam por se mostrar na Internet, e depois passam para pequenas editoras independentes.
Quem tem dúvidas de que o futuro da distribuição audiovisual passa pela Internet, devia lembrar-se do famoso “caso Napster”, com os Metallica a defenderem o recurso aos tribunais e com bandas como os Offspring e os Smashing Pumpkins a mostrarem as potencialidades da web ao lançarem discos apenas online (no caso da banda de Billy Corgan, o álbum chamava-se até “Friends and Enemies of Modern Music”). O Napster perdeu, na altura, mas a porta que abriu nunca mais se fechou. Ou o sucesso do iTunes, da Apple. Ou do lançamento de “In Rainbows”, dos Radiohead, completamente online, ao preço que os fãs quisessem dar pelo álbum.
E talvez o futuro nem passe por modelos como o do iTunes, de downloads a pagar, mas por modelos de streaming, quando a Internet móvel com boa velocidade e capacidade for uma realidade acessível a todos. Já estivemos mais longe. Serviços como o Spotify reúnem cada vez mais utilizadores. É possível que os actuais leitores de mp3 façam companhia às cassetes e aos CD na estante das relíquias num futuro não muito distante. E que a chamada “indústria musical”, com as mentalidade de que a notícia mencionada é exemplo, lhes faça companhia.

Só um acrescento à história do In Rainbows. O álbum podia ser comprado online ao preço que se quisesse dar, mas havia a possibilidade de fazer download, receber o CD ou até comprar a edição com vinil. Mais tarde esteve à venda em lojas.
Pessoalmente fiz o download por 1 euro e mais tarde comprei (também online) o CD por 10 euros (o preço que pagaria pelo álbum um ano mais tarde na Holanda).
Note-se que estes valores iriam maioritariamente para a banda, uma vez que nem lojas nem distribuidores receberiam nada.
Acho piada aos valores de quebra de 70% e coisas que tais principalmente por dois motivos.
1. Não se refere nada sobre queda do poder de compra. Esses valores fariam mais sentidos se equilibrados em termos “reais”.
2. A quebra é na facturação, mas não se leva em consideração a influência do iTunes. Que quero eu dizer com isto? Ora bem, os consumidores de música sempre tiveram preferência pelas músicas que ouviam na rádio, não pelos álbuns. Isso explica a existência dos singles mesmo depois da generalização dos LP. Só que os singles são caros (5 euros no mínimo por um CD com duas músicas quando o LP custaria uns 20). O iTunes (e outras lojas) vendem o mesmo single a 1 euro. O seguinte virá ao mesmo preço. Um álbum de 12 músicas, donwload a download, custaria então 12 euros. Consideravelmente menos que os 20 a 25 que custa o CD. Só aqui, mesmo com um álbum vendido na sua totalidade, haveria uma quebra de 40% na facturação. Como, na melhor das hipóteses, os consumidores farão download, em média, de umas 5 músicas por álbum (estimativas minhas, mas muito por alto), teríamos 5 euros gastos num álbum. Isso levaria a uma quebra de 75% nas receitas de um álbum que, vendido ao CD, custaria 20 euros. Pirataria? Está bem abelha.
Última nota: já fiz muitos downloads, de música, livros e filmes. Isso não me impede de ter uma videoteca de para cima de 250 títulos (deixei de comprar filmes há 3 anos, quando deixei de ter tempo apra os ver e quando decidi ver no que pára a moda do Blu-Ray) e uma discografia com outros 300. No computador, entre downloads pagos e não pagos, terei uns 50 a 100 álbuns. Isso não me impede de continuar a gastar dinheiro quando me parece que o produto valha a pena. Infelizmente, e falando em termos de cinema, não estamos nos anos 50 (não é Pedro?).
Parte auto-promocional. Posts:
http://estacaocentral.blogspot.com/2010/1 2/falando-de-batatas.html 2/pirataria-e-fixe.html 8/motown-digital.html 5581.html 4/os-piratas-tem-costas-muito-largas.htm l
http://estacaocentral.blogspot.com/2010/0
http://estacaocentral.blogspot.com/2007/0
http://aureamediocritas.blogs.sapo.pt/49
http://estacaocentral.blogspot.com/2009/0
Lamento os links, mas dá muito trabalho reescrever tudo.